O cenário macroeconômico e a dinâmica dos mercados de grãos devem continuar influenciando diretamente os custos e as margens da produção de proteína animal no Brasil. É o que aponta o último relatório do Rabobank, que destaca riscos relacionados ao câmbio, fertilizantes, soja e milho, importantes componentes da estrutura de custos das cadeias de aves e suínos.
Para o banco, o dólar deve encerrar 2026 em R$ 5,35, diante da combinação entre corrida eleitoral, riscos fiscais, tensões geopolíticas e uma postura mais dura do Federal Reserve. O diferencial de juros ainda elevado no Brasil e termos de troca mais favoráveis, impulsionados principalmente pela valorização do petróleo, devem limitar uma depreciação mais acentuada do real.
O Rabobank projeta que a taxa Selic permaneça em 14% ao fim de 2026, com retomada do ciclo de cortes apenas em abril de 2027. Para o IPCA, a estimativa é de 5,1% ao final deste ano.
Para as cadeias de proteína animal, a combinação entre juros elevados, câmbio e preços de insumos reforça o ambiente de pressão sobre as margens. Ao mesmo tempo, a demanda por milho segue crescendo, especialmente devido à expansão dos setores de aves e suínos.
Milho ganha importância com avanço de aves e suínos
O mercado brasileiro de milho passa por uma mudança estrutural, segundo o Rabobank. Embora a produção da safra 2025/26 deva permanecer praticamente estável, o consumo doméstico continua avançando.
A principal demanda pelo cereal no mercado interno vem da produção de ração. O Rabobank estima que o segmento de aves e suínos consumirá cerca de 72 milhões de toneladas de milho em 2026, alta de quase 2% em relação ao ano anterior.
O crescimento da demanda, entretanto, não se restringe à alimentação animal. A indústria de etanol de milho vem ganhando participação rapidamente. No primeiro semestre de 2026, o setor consumiu 12,5 milhões de toneladas do cereal, 2 milhões de toneladas a mais que no mesmo período de 2025.
Para o ano, o consumo de milho pela indústria de etanol deve chegar a aproximadamente 27 milhões de toneladas, equivalente a cerca de 20% da produção nacional.
Esse avanço reduz a disponibilidade relativa do cereal para outros segmentos e pode alterar a formação de preços no mercado doméstico. Na avaliação do Rabobank, a nova relação entre os preços internos e a paridade de exportação tende a reduzir a competitividade do milho brasileiro no exterior.
As exportações brasileiras devem recuar cerca de 3 milhões de toneladas em relação ao ano anterior, enquanto os estoques finais devem apresentar leve recuperação.
Mesmo diante da colheita acelerada da segunda safra, os preços vêm demonstrando resistência. Na região de Campinas, segundo dados do Cepea citados pelo Rabobank, as cotações de milho em agosto estavam 2% acima das registradas no mesmo período de 2025.
Para as cadeias de proteína animal, a perspectiva é particularmente relevante: o crescimento do consumo de milho por aves e suínos ocorre em um momento de maior concorrência pelo cereal com a indústria de etanol.

Clima pode elevar risco para milho da próxima safra
O Rabobank chama atenção ainda para os riscos climáticos para a safra 2026/27. A possibilidade de ocorrência de El Niño pode atrasar o plantio da soja e, consequentemente, reduzir a janela disponível para a semeadura do milho safrinha.
O cenário pode se tornar mais desafiador caso o fenômeno climático também reduza os níveis dos rios utilizados no transporte de grãos. A menor disponibilidade de calado em vias estratégicas poderia comprometer a logística do Arco Norte e limitar os embarques de milho.
Além disso, os ataques russos à infraestrutura de transporte e armazenamento de grãos na Ucrânia adicionam um fator de suporte às cotações internacionais, ao aumentar as incertezas sobre a capacidade exportadora ucraniana.
Fertilizantes entram no radar da próxima safra
Outro ponto de atenção destacado pelo Rabobank é o atraso nas importações de fertilizantes. A intensificação dos conflitos no Oriente Médio desde março aumentou a volatilidade dos mercados de ureia e fósforo.
Diante das oscilações de preços, produtores vêm postergando compras para a próxima safra. Entre janeiro e julho de 2026, o Brasil importou 2,33 milhões de toneladas de ureia, volume aproximadamente 25% inferior aos 3,07 milhões de toneladas registrados no mesmo período de 2025.
Mesmo considerando volumes recordes de importação entre agosto e dezembro, o Rabobank estima que as compras brasileiras de ureia em 2026 possam terminar cerca de 5% abaixo do ano anterior.
No conjunto dos fertilizantes nitrogenados, as importações estão aproximadamente 20% abaixo do registrado em 2025. No fósforo, a queda chega a 9%, enquanto as importações de MAP estão cerca de 21% abaixo do ano passado.
A exceção é o superfosfato triplo (TSP), cujas importações já superaram 1,5 milhão de toneladas, equivalente a cerca de 90% de todo o volume importado ao longo de 2025.
O banco mantém sua projeção de 45,1 milhões de toneladas de fertilizantes entregues no Brasil em 2026.
Para os produtores de grãos, o cenário aumenta a preocupação com custos e rentabilidade. Para as cadeias de proteína animal, os efeitos podem aparecer de forma indireta, à medida que custos maiores de produção de milho e soja pressionem o preço da alimentação animal.

Soja brasileira mantém competitividade, mas margens seguem pressionadas
Apesar da redução das margens no campo, a cadeia da soja brasileira deve registrar volumes recordes na safra 2025/26.
O Rabobank estima produção de 182 milhões de toneladas, exportações de 114 milhões de toneladas e esmagamento doméstico de 63 milhões de toneladas.
O maior processamento interno representa aumento de aproximadamente 4 milhões de toneladas sobre o ano anterior. A valorização do óleo de soja, influenciada pelos preços mais elevados do petróleo, vem ajudando a sustentar as margens da indústria de esmagamento, mesmo com o adiamento da mistura obrigatória de biodiesel para B16.
A forte demanda global também favorece o Brasil. Nos Estados Unidos, o esmagamento deve alcançar recorde, mas as exportações tendem a recuar em razão da menor demanda chinesa pela soja norte-americana.
Esse movimento aumenta a importância da soja brasileira no abastecimento global e dá sustentação aos preços domésticos. Em Rondonópolis, as cotações avançaram 5% no início de agosto em relação ao mês anterior.
Para a próxima safra, porém, o cenário é menos confortável. O Rabobank projeta 178 milhões de toneladas de soja em 2026/27, abaixo do recorde atual. A área plantada deve ficar estável, encerrando um período de mais de duas décadas de expansão contínua.
Menor rentabilidade, juros elevados, crédito mais restrito e maior cautela dos produtores devem limitar o crescimento da área. A possível ocorrência de El Niño e a volatilidade dos custos dos insumos também aparecem entre os principais riscos.
Câmbio adiciona incerteza aos custos
A trajetória do real é outro fator importante para o agronegócio. De acordo com o Rabobank, o diferencial de juros e a melhora dos termos de troca, especialmente com o petróleo mais valorizado, funcionam como vetores de sustentação da moeda brasileira.
Por outro lado, o dólar mais forte, as incertezas geopolíticas e a piora das perspectivas fiscais domésticas podem aumentar a pressão sobre o real.
A corrida eleitoral brasileira deve ampliar a volatilidade nos próximos meses, principalmente caso aumentem as dúvidas sobre a condução das contas públicas.
A projeção do Rabobank é de R$ 5,35 por dólar no fim de 2026 e R$ 5,30 em 2027.
Para a indústria de proteína animal, o câmbio tem efeitos ambíguos. Um real mais depreciado tende a elevar o custo de insumos cotados internacionalmente, mas, ao mesmo tempo, melhora a competitividade das exportações brasileiras de carne de frango, carne suína e carne bovina.
Margens do campo continuam no centro das preocupações
O Rabobank também chama atenção para os níveis ainda elevados de inadimplência no setor rural, que dificultam a recuperação financeira dos produtores.
Nesse contexto, o desempenho das margens de soja e milho será determinante para a capacidade de recuperação do campo. A próxima safra começa sob uma combinação de custos elevados, incertezas climáticas, crédito mais restrito e volatilidade dos mercados internacionais.
Para a proteína animal, o cenário reforça a necessidade de monitoramento dos custos de alimentação. Milho e farelo de soja permanecem como variáveis fundamentais para a rentabilidade de aves e suínos, enquanto fatores como câmbio, energia, logística e demanda externa definirão a capacidade das indústrias de repassar eventuais aumentos de custos.
O diagnóstico do Rabobank, portanto, aponta para um segundo semestre em que a oferta de grãos poderá continuar relativamente confortável, mas com uma demanda doméstica cada vez mais forte e uma série de riscos — climáticos, geopolíticos e cambiais — capazes de alterar rapidamente a relação entre oferta, demanda e preços.
Para as cadeias de proteína animal, o desafio será equilibrar o crescimento da demanda com a necessidade de preservar margens em um ambiente no qual os principais componentes da alimentação animal continuam sujeitos a forte volatilidade.



Nenhuma discussão ainda. Seja o primeiro a comentar.