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Petróleo pressiona inflação nos EUA e pode levar Fed a novo ciclo de alta de juros em 2027

A persistência dos preços de energia, os custos logísticos e a resiliência da economia americana podem exigir novos apertos monetários.

FOTO; REPRODUÇÃO
FOTO; REPRODUÇÃO

A trajetória dos preços do petróleo voltou a colocar a política monetária dos Estados Unidos em uma encruzilhada. Mesmo diante da possibilidade de manutenção dos juros na reunião de outubro, a persistência das pressões inflacionárias e a redução das perspectivas de alívio nos preços de energia em 2027 podem levar o Federal Reserve (Fed), banco central americano, a retomar um ciclo de aperto monetário a partir de dezembro.

Na avaliação de Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, o desafio da autoridade monetária deixou de ser apenas distinguir choques temporários de custos de uma inflação persistente. O aumento dos preços de energia, combinado aos efeitos das tarifas comerciais, à resiliência da atividade econômica e à demanda associada aos investimentos em inteligência artificial (IA), amplia o risco de que as pressões inflacionárias se prolonguem. “O dilema do Fed não terminou. Pelo contrário, tornou-se mais complexo à medida que os preços de energia retornaram aos níveis mais elevados desde o início do conflito”, avalia Simioni.

De julho a setembro, o Fed mudou a percepção sobre a inflação

Em julho, o Federal Reserve optou por manter inalterado o intervalo da taxa básica de juros, diante da incerteza sobre a duração dos choques de custos associados à energia, às tensões geopolíticas no Oriente Médio e às tarifas comerciais.

Naquele momento, os indicadores de inflação apresentavam alguma melhora. A queda dos preços de energia contribuiu para a desaceleração do índice de preços de gastos com consumo pessoal (PCE), enquanto o núcleo da inflação também recuou ligeiramente. Ainda assim, o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) não considerou os resultados suficientes para confirmar uma trajetória consistente de convergência à meta de 2%.

Segundo Simioni, a preocupação dos dirigentes americanos estava relacionada não apenas ao nível dos preços, mas também à possibilidade de mudanças no processo de formação de preços, salários e expectativas inflacionárias.

A atividade econômica permanecia relativamente sólida, e o mercado de trabalho não apresentava sinais de superaquecimento generalizado que exigissem uma reação imediata. Ao mesmo tempo, o aumento dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano indicava que as condições financeiras já vinham se tornando mais restritivas, mesmo sem uma nova elevação dos juros pelo banco central. Esse cenário justificava, naquele momento, uma postura de cautela.

A avaliação mudou em setembro, quando o FOMC elevou a taxa básica em 0,25 ponto percentual, para o intervalo de 3,75% a 4,00%, conforme o cenário descrito por Simioni. A decisão refletiu o acúmulo de evidências de que a economia continuava resiliente, enquanto a inflação permanecia acima da meta.

Mais do que uma resposta a um indicador isolado, o movimento representou uma estratégia de gestão de riscos. A preocupação era impedir que os choques iniciais de energia e tarifas se disseminassem para outros setores da economia, tornando a inflação mais persistente.

Custos de energia e tarifas ampliam os riscos inflacionários

A composição da inflação passou a ter papel central na avaliação do Fed. Além dos efeitos diretos da energia, os preços de serviços, excluindo habitação, continuaram pressionados. Os bens também enfrentaram custos associados às tarifas comerciais e à expansão dos investimentos em inteligência artificial.

Outro fator relevante foi a capacidade das empresas de repassar os aumentos de custos aos consumidores. Quando esse processo se intensifica, um choque inicialmente restrito à oferta pode se transformar em uma fonte mais duradoura de inflação.

Do lado da demanda, o crescimento econômico e a continuidade dos investimentos empresariais contribuíram para sustentar a atividade. O consumo permaneceu relativamente robusto, embora com diferenças entre as faixas de renda, e o mercado de trabalho apresentou estabilidade.

Nesse contexto, a decisão de setembro buscou evitar que a combinação entre custos elevados e demanda resiliente comprometesse a convergência da inflação à meta.

Para Simioni, o Fed preferiu agir antes de obter uma confirmação definitiva de que as pressões inflacionárias haviam se tornado estruturalmente persistentes. A estratégia procura preservar a credibilidade da política monetária e reduzir o risco de desancoragem das expectativas.

Petróleo mais caro mantém pressão sobre as cadeias produtivas

Os sinais de persistência das pressões de custos também aparecem nos relatos regionais reunidos pelo Fed no Beige Book, documento que acompanha as condições econômicas nos distritos americanos.

O petróleo figura entre os fatores que afetam diferentes segmentos da economia, com impactos sobre o preço do diesel, os fretes, as sobretaxas de combustível, os seguros e os custos de transporte. Esses aumentos se propagam pelas cadeias produtivas e podem chegar aos preços finais de bens e serviços.

Os relatos também indicam que as pressões sobre o mercado de trabalho não desapareceram. A maioria dos distritos descreveu o emprego como estável ou em leve expansão, enquanto algumas regiões continuaram enfrentando escassez de profissionais especializados. Os salários apresentaram crescimento de moderado a robusto, com parte das empresas mencionando a inflação acumulada e o encarecimento dos benefícios como fatores de pressão.

Apesar desse quadro, Simioni avalia que uma nova alta de juros em outubro não seria necessariamente a decisão mais adequada. As condições financeiras já vinham se ajustando, e ainda havia espaço para que o Fed observasse os efeitos da elevação realizada em setembro. “A necessidade de aumento de juros antes de dezembro não era evidente. A economia estava forte, mas os choques de custo ainda podiam ser interpretados como transitórios, enquanto as condições financeiras já estavam se apertando por conta do próprio mercado”, afirma.

Nesse cenário, a manutenção dos juros em outubro não significaria que o problema inflacionário foi resolvido. Representaria, antes, uma tentativa de preservar flexibilidade diante de um choque de energia ainda em curso.

Perspectivas para 2027 elevam o risco de novos aumentos

O principal ponto de atenção para os próximos meses está na trajetória do petróleo. De acordo com as referências de mercado e as projeções citadas por Simioni, o preço do Brent para janeiro de 2027 avançou aproximadamente 17% desde o início de setembro, superando US$ 97 por barril.

As estimativas atribuídas à Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA, na sigla em inglês) também apontam para a possibilidade de preços elevados por mais tempo, com média de US$ 105 por barril no quarto trimestre de 2026 e recuo gradual para US$ 87 em abril de 2027.

Se esse cenário se confirmar, o choque de energia poderá deixar de ser interpretado como um evento de curta duração e passar a representar um fator relevante de persistência inflacionária.

Os efeitos não se limitam aos combustíveis. O encarecimento da energia pressiona o transporte, a manufatura e os seguros, além de afetar indiretamente as expectativas de inflação e as negociações salariais.

Para Simioni, esse quadro pode elevar novamente o custo de esperar por evidências definitivas de que a inflação está fora de uma trajetória sustentável. Mesmo que o Fed mantenha os juros em outubro, a pressão dos preços de energia poderá reabrir a discussão sobre novos aumentos ao longo do primeiro semestre de 2027.

Ciclo de alta pode levar juros a até 5,25%

Na avaliação do economista-chefe da Blue3 Investimentos, a alternância entre reuniões com aumento e manutenção dos juros pode não ser suficiente para conter as pressões inflacionárias dentro do horizonte relevante para a política monetária.

A preocupação é que ajustes espaçados permitam a continuidade das pressões sobre os preços e reduzam a eficácia do aperto monetário. Nesse sentido, uma sequência mais consistente de aumentos poderia se tornar necessária caso a inflação permaneça resistente e o petróleo continue em patamares elevados.

Simioni considera possível que o Fed inicie um novo ciclo de alta em dezembro, com até cinco aumentos ao longo do primeiro semestre de 2027. Nesse cenário, a taxa básica de juros poderia alcançar o intervalo de 5,00% a 5,25%.

A projeção está condicionada à evolução dos preços de energia, à dinâmica da inflação subjacente, ao comportamento do mercado de trabalho e à capacidade de a economia americana absorver os choques de custos sem uma deterioração mais acentuada da atividade.

O cenário-base para outubro, portanto, pode ser de manutenção dos juros, mas isso não elimina a possibilidade de uma política monetária mais restritiva nos meses seguintes.

Para o mercado, a distinção será importante: uma pausa na reunião de outubro pode representar apenas uma etapa de avaliação dos efeitos do ajuste anterior, e não o encerramento do ciclo de aperto monetário.

A persistência do petróleo será determinante para os próximos passos do Fed. Se os preços de energia permanecerem elevados e continuarem contaminando os custos de produção, transporte e serviços, a autoridade monetária poderá ser levada a priorizar novamente o controle da inflação, mesmo diante dos riscos que juros mais altos representam para o crescimento econômico em 2027.

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