A agenda de sustentabilidade tem avançado na cadeia de proteína animal, impulsionada pela necessidade de compreender e reduzir o impacto ambiental da produção. Nesse cenário, a chamada pegada de carbono tem ganhado espaço como ferramenta para estimar as emissões associadas à produção de alimentos.
Segundo Alexandre Berndt, pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP), o conceito muitas vezes é interpretado de forma equivocada. “A pegada de carbono, na verdade, não é uma medição propriamente dita. A rigor, é uma estimativa, uma conta que se faz considerando as emissões e as remoções associadas à produção de determinado produto”, explica.
De acordo com o pesquisador, algumas cadeias da proteína animal já começaram a trabalhar com esse tipo de estimativa. “Existem iniciativas, sim, de algumas cadeias da proteína animal. A carne saiu na frente com programas como o selo de carne baixo carbono e outras iniciativas de frigoríficos”, afirma.
Ele destaca que o interesse em medir emissões também aparece em outras cadeias produtivas. “No leite, por exemplo, nós temos iniciativas da Nestlé, da Danone e da Lactalis. Agora estamos desenvolvendo um projeto com a Piracanjuba. Cada empresa quer conhecer a sua pegada de carbono para entender em qual etapa do processo precisa melhorar”, diz.
Apesar do avanço das iniciativas, medir emissões ainda é um desafio técnico. “Medir emissões é sempre um processo complicado, porque exige equipamentos especiais. Para medir o metano entérico, por exemplo, utilizamos equipamentos como o GreenFeed e técnicas de cromatografia”, explica Berndt.
Por isso, segundo ele, a medição direta ainda ocorre principalmente em instituições de pesquisa. “Normalmente essas medições são feitas em universidades, institutos de pesquisa e na própria Embrapa. Algumas fazendas têm buscado realizar medições para conhecer melhor seus processos, mas ainda não é algo comum”, afirma.

Os principais pontos de emissão variam de acordo com cada cadeia produtiva. “Na produção de aves e suínos, o que impacta muito é o manejo de dejetos, como a cama das aves e os resíduos da suinocultura”, explica. “Também existe o impacto da produção dos grãos utilizados na alimentação dos animais.”
Já na pecuária bovina, o principal fator está relacionado ao metano entérico. “Nos bovinos, o que mais contribui para as emissões é o metano entérico, resultado do processo natural de fermentação no sistema digestivo”, afirma o pesquisador.
Segundo Berndt, reduzir emissões exige intervenções nos pontos mais críticos do sistema produtivo. “Se o manejo de dejetos é a principal fonte de emissão na suinocultura, é ali que se deve atuar”, explica. “Quando uma lagoa anaeróbica é transformada em biodigestor e o gás é capturado e queimado como biogás, você reduz bastante as emissões.”
Para o pesquisador, cooperativas, agroindústrias e empresas integradoras têm papel importante nesse processo. “Essas organizações precisam buscar eficiência na produção, com nutrição adequada, sanidade animal e boa eficiência reprodutiva”, afirma.
Ele ressalta que o aumento da eficiência produtiva contribui diretamente para reduzir o impacto ambiental. “Quando você produz mais utilizando a mesma quantidade de insumos, você dilui as emissões ao longo da produção”, explica.
A tendência, segundo o especialista, é que a sustentabilidade se torne cada vez mais relevante para a competitividade da proteína animal. “Se o mercado passar a exigir produtos com menor emissão de carbono, o setor naturalmente terá que se adaptar”, afirma. “A busca por sistemas mais eficientes, com menos desperdício e menor impacto ambiental, tende a ser cada vez mais valorizada pelos mercados e pelos consumidores.”
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