A criação de bezerros, base da pecuária de corte no Acre, enfrenta desafios que ameaçam a sustentabilidade e a produtividade da atividade. Um diagnóstico realizado pela Embrapa Acre revelou que 82% dos pecuaristas são de base familiar e 71% conduzem a produção com baixa adoção tecnológica. As limitações vão desde a falta de infraestrutura e assistência técnica até o difícil acesso a crédito e políticas públicas.
Mesmo com esses gargalos, o estudo identificou pontos positivos. Mais de 75% das propriedades analisadas apresentaram pastagens de boa qualidade, resultado da adoção de gramíneas adaptadas ao solo amazônico. O levantamento, que envolveu 246 fazendas de cria em 12 municípios acreanos, mostra que os produtores locais aprenderam a diversificar suas pastagens, com destaque para a Brachiaria brizantha cultivar Xaraés, resistente ao encharcamento comum na região.
Superlotação de pastos preocupa
Um dos problemas críticos apontados é a superlotação das pastagens. A taxa de lotação média nas fazendas de cria (2,49 cabeças por hectare) supera em quase 28% a média estadual. Essa prática resulta em superpastejo, comprometendo a qualidade do pasto, o desempenho dos animais e a renda dos produtores. “Esse cenário evidencia a necessidade de mais capacitação sobre manejo de pastagens e cálculo da taxa de lotação”, alerta o pesquisador Carlos Maurício Andrade, coordenador do estudo.
Tecnologia ainda pouco difundida
Apesar da disponibilidade de tecnologias acessíveis, como o plantio direto de forrageiras a lanço e o consórcio de gramíneas com leguminosas, a adoção ainda é baixa. Apenas 6% das propriedades utilizam o amendoim forrageiro, por exemplo. Fatores como o pequeno porte das fazendas, baixo nível de escolaridade e pouca informação dificultam o avanço tecnológico.
O acesso à internet, presente em 71% das propriedades, é visto como uma oportunidade para ampliar a difusão de conhecimento. “É importante estimular redes locais de troca de informações e o uso de aplicativos para levar as tecnologias ao campo”, defende o professor Vitor Macedo, da Universidade Estadual do Vale do Acaraú (UVA), que também participou da pesquisa.
Genética e mercado são outros entraves
Outro desafio apontado pelo diagnóstico é a qualidade genética do rebanho. Cerca de 80% dos produtores usam touros sem avaliação genética como reprodutores, o que compromete a qualidade dos bezerros. Programas como o Progenética, da ABCZ, são citados como alternativas para melhorar esse cenário.
No aspecto comercial, o Acre enfrenta dificuldades de escala. A predominância de pequenos produtores limita a oferta em leilões e favorece a venda para atravessadores, o que reduz a remuneração dos criadores. “É fundamental fortalecer cooperativas e associações para viabilizar a comercialização conjunta e garantir melhor preço ao produtor”, ressalta o pesquisador Judson Valentim.
Debate público em junho
Os resultados completos do estudo serão apresentados nos dias 25 e 26 de junho, durante o 1º Simpósio Acreano de Pecuária de Cria, em Rio Branco. O evento reunirá especialistas, produtores e representantes do setor público para discutir soluções voltadas à modernização da atividade.
A expectativa é que o diagnóstico sirva de base para novas pesquisas e para a formulação de políticas públicas que incentivem a adoção de tecnologias, melhorem a produtividade e fortaleçam a sustentabilidade da pecuária de cria no Acre. “Modernizar significa promover avanços graduais, adaptados à realidade socioeconômica dos pequenos produtores familiares”, conclui Andrade.
Fonte: Embrapa, adaptado pela equipe FeedFood.
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