A nova temporada do milho safrinha brasileiro se inicia em um ambiente climático que exige atenção por parte dos produtores. Mesmo sem indicativos de um cenário extremo neste primeiro momento, a presença de uma La Niña moderada combinada à previsão de transição para neutralidade no início do outono, cria um quadro de instabilidade atmosférica durante o ciclo.
Esse tipo de configuração costuma resultar em uma distribuição mais irregular das chuvas ao longo do verão, com alternância entre períodos úmidos e fases de estiagem dentro da mesma estação. O estabelecimento inicial das lavouras tende a ocorrer com umidade favorável, mas os riscos aumentam conforme a cultura avança para os estágios reprodutivos, especialmente pendoamento, florescimento e início da granação (VT–R3), que são fases de maior necessidade de regularidade hídrica.
Yedda Monteiro, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, explica que o clima desta temporada é marcado pela transição de uma La Niña ainda atuante para um padrão de neutralidade entre janeiro e março. Essa mudança tende a aumentar a irregularidade das chuvas, especialmente no Centro-Norte do país. “No Mato Grosso, esse padrão não gera preocupação, já que os anos de La Niña tradicionalmente favorecem o desempenho da safrinha, e o sentimento no campo permanece de normalidade. No entanto, no MATOPIBA e em parte do Centro-Norte, as condições foram mais desafiadoras no início do ciclo, com replantios acima do normal, falhas de emergência e períodos prolongados de chuva irregular. Embora parte da região tenha se regularizado recentemente, ainda há necessidade de acompanhamento mais rigoroso, pois a distribuição das chuvas continua sendo o fator determinante. Em Goiás e Minas Gerais, o risco está associado ao calendário: atrasos provocados por seca ou por excesso de chuva podem empurrar a janela do milho para um período menos favorável. Assim, o clima não apresenta um cenário crítico, mas exige monitoramento, especialmente nas regiões mais sensíveis do Centro-Norte”, explica.
De acordo com Yedda, até o momento, não existem perdas consolidadas. O que há, segundo ela, são sinais de risco e ajustes técnicos. “O Mato Grosso já trabalha com uma revisão de produtividade estimada em torno de 8% abaixo do ciclo anterior, mas isso reflete mais um ajuste de expectativa do que perdas causadas pelo clima. No MATOPIBA, houve plantios elevados e problemas de emergência, mas ainda é cedo para quantificar impactos. Em Goiás e Minas Gerais, o risco está ligado ao eventual atraso de plantio da soja e à possibilidade de a janela do milho se estreitar. Portanto, não há perdas mensuráveis até agora, mas existe um cenário em que a produtividade final dependerá diretamente do comportamento climático entre fevereiro e abril”, afirma.

Os produtores têm agido com bastante discernimento, explica Yedda. “No Mato Grosso, onde o histórico favorece a safrinha, não há sinais de preocupação, e o planejamento segue normal. Em áreas pontuais onde a janela possa apertar, existe abertura para migração para o gergelim, mas isso permanece muito localizado. No MATOPIBA, a postura é mais cautelosa devido à irregularidade observada no início do ciclo, embora não haja movimentos de mudança estrutural de área. Em Goiás e Minas, a alternativa do sorgo está sendo considerada caso a janela da soja realmente se comprometa. Comercialmente, o produtor tem aproveitado os movimentos de alta da B3 para travas parciais, mantendo a disciplina comercial e focando principalmente no travamento de custos para preservar a margem. A estratégia predominante é de prudência e adaptação, sem sinal de alarmismo no campo”, pontua.
Segundo Yedda, do lado do milho disponível, os preços se mantém sustentado, o que têm ajudado o produtor a barganhar melhor suas vendas, enquanto a indústria de etanol principalmente, e outros consumidores, entram no mercado apenas em momentos de recompor seus estoques, movimento este que trava parte das negociações, mas mantém a firmeza dos preços internos.
Ela ainda explica que as regiões mais suscetíveis são justamente aquelas do Centro-Norte, especialmente o MATOPIBA, que sofreu mais intensamente com replantios e falta de chuva no início do ciclo e ainda exige monitoramento cuidadoso. “Goiás e algumas regiões de Minas também merecem atenção, pois tanto a seca inicial quanto o excesso de chuva no momento do plantio podem comprometer a janela ideal da safrinha. Já o Mato Grosso, historicamente resiliente em anos de La Niña, apresenta um cenário confortável, sem relatos de preocupação por parte dos produtores. A estratégia recomendada é acompanhar atentamente o ritmo da soja, manter disciplina nas travas de preço, garantir o travamento de custos e, em regiões onde o calendário se comprometa, considerar alternativas como o sorgo ou o gergelim. A mensagem central é que o clima exige atenção direcionada mas ainda não se configura, neste momento, um cenário de risco generalizado”, finaliza Yedda Monteiro.
Fonte: Biond Agro, adaptado pela equipe Feed&Food.
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