Juliana Antonangelo, da redação | juliana@dc7comunica.com.br
“Ela é uma grande vilã para o setor do agronegócio como um todo.” Assim, Thiago Pera, coordenador do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial (Esalq-Log), definiu a logística brasileira durante sua participação no evento da ECR Scot Consultoria, realizado na última semana em Ribeirão Preto (SP). Em sua palestra, o especialista traçou um diagnóstico contundente sobre os principais entraves logísticos que dificultam a competitividade do setor agropecuário nacional.
Para ele, apesar do país ser um gigante em produção agrícola, o escoamento da safra ainda sofre com um sistema ineficiente e desequilibrado. O especialista disse que “temos uma série de desafios no Brasil que precisam ser vencidos e, certamente, a logística tem muito a contribuir com esses desafios”. Em sua visão, 2025 já desponta como um ano desafiador, principalmente em função da safra recorde e da pressão sobre a infraestrutura de transporte e armazenagem.
Apesar da crescente produção agropecuária, a infraestrutura logística do país não acompanha esse ritmo. “O volume que a gente transporta hoje é superior ao volume que a gente produz”, revelou. Isso porque os produtos percorrem múltiplas etapas até o destino final. No caso da soja, por exemplo, a mesma saca pode passar por caminhão, armazém, terminal ferroviário e porto – gerando custos adicionais e sobrecarga nos sistemas existentes.
O Brasil, segundo Pera, já ultrapassa a marca de 1 bilhão de toneladas produzidas anualmente pelo setor agropecuário. “E todo esse volume demanda transporte e armazenagem. O sistema logístico fica pressionado e, como é relativamente frágil, isso se reflete no aumento dos custos, como já vimos com a explosão do frete neste ano.”

Em um estudo conduzido pela Esalq-Log, Pera apontou o tamanho da dependência do transporte rodoviário no Brasil: “Quando a gente analisa cargas de uma forma geral, 60% são movimentadas por caminhão. Mas, no mercado doméstico da soja, esse número passa de 95%”, destacou. Um cenário, segundo ele preocupante, se comparado a países como os Estados Unidos, onde mais de 50% das exportações de grãos são feitas por hidrovias.
O especialista chamou atenção para uma tendência alarmante: “Estamos caminhando na contramão”. Conforme mencionou, em 2010, 44,7% da soja exportada saía dos portos por caminhão. Em 2023, esse número saltou para 54,2%. Ao mesmo tempo, a participação das ferrovias caiu, e apenas as hidrovias tiveram leve crescimento. “O Brasil está ficando mais dependente do caminhão e, ficando mais dependente do caminhão, isso encarece demais o nosso sistema logístico”, alertou.
Além disso, as distâncias médias percorridas pelos grãos no Brasil são altíssimas. “Hoje, a média é de 1.200 quilômetros. E mesmo quando usamos ferrovias e hidrovias, a distância média entre a origem e os terminais ainda é de 650 quilômetros. Nos EUA, essa distância é de apenas 80 quilômetros”, reforçou.
Pera afirmou também que os gargalos logísticos vão muito além do transporte. “Quando a gente fala em logística, a gente não está falando somente de transporte, mas também de armazenagem”, e sobre o futuro, alertou que “ nossa capacidade de criação de infraestrutura não tem conseguido acompanhar o crescimento do agronegócio brasileiro”.
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