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Fim da cota chinesa amplia desafio para a carne bovina do Pará

Estado tem menor capacidade de redirecionar os embarques após o avanço da salvaguarda chinesa.

O avanço da cota de importação estabelecida pela China para a carne bovina brasileira começa a redesenhar o fluxo das exportações e coloca pressão adicional sobre estados com menor acesso a mercados internacionais. Entre eles está o Pará, que possui o segundo maior rebanho bovino do país, mas ainda enfrenta restrições para vender a proteína a importantes destinos.

A China estabeleceu para o Brasil uma cota de 1,106 milhão de toneladas com tarifa de importação de 12%. O volume que ultrapassar esse limite fica sujeito a uma sobretaxa de 55%. Em julho, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) informou que 80% da cota já havia sido utilizada, enquanto levantamentos posteriores apontaram o rápido avanço dos embarques e a redução das vendas ao mercado chinês.

O efeito já apareceu nos dados de julho. Segundo números da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) compilados pela Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), as exportações brasileiras de carne bovina e derivados somaram US$ 1,63 bilhão no mês, queda de 5,6% em relação a julho de 2025. O volume embarcado recuou 16%, para 308,2 mil toneladas.

Considerando apenas a carne bovina in natura, as receitas caíram 5,7%, para US$ 1,447 bilhão, enquanto o volume diminuiu 17,5%, para 227,89 mil toneladas. O principal fator foi a retração das vendas para a China, que recuaram 39,6% em valor, para US$ 529,24 milhões, e 47,8% em volume, para 82,7 mil toneladas.

Outros levantamentos também mostram a forte desaceleração dos embarques ao mercado chinês. Em julho, o Brasil enviou 85,7 mil toneladas de carne bovina à China, 47% menos que no mês anterior. A receita caiu cerca de 50%, para US$ 537,8 milhões.

Estados Unidos, Chile, México e União Europeia estão entre os destinos considerados estratégicos para a diversificação das exportações.

Pará sente impacto com menos alternativas

O cenário é particularmente desafiador para o Pará. Apesar de contar com 25,56 milhões de cabeças de gado, segundo os dados apresentados pela Abrafrigo, o Estado ocupa a quarta posição nacional em abates e a sétima em exportações de carne bovina.

A diferença entre o tamanho do rebanho e a participação nas exportações evidencia um potencial ainda pouco aproveitado. Com a redução da capacidade de compra da China, o problema tende a se tornar mais evidente para frigoríficos paraenses que não possuem acesso a alguns dos principais mercados consumidores da proteína brasileira.

Estados Unidos, Chile, México e União Europeia estão entre os destinos considerados estratégicos para a diversificação das exportações. A restrição de acesso do Pará a esses mercados reduz as possibilidades de redirecionamento da carne que deixa de ser enviada à China.

A situação ganha relevância em um momento em que outros compradores ampliam as aquisições. Entre janeiro e julho de 2026, os Estados Unidos aumentaram em 48% as compras de carne bovina in natura brasileira em valor, para US$ 1,276 bilhão. O volume cresceu 23,9%, para 209,64 mil toneladas.

Chile e União Europeia também registraram crescimento no período. O Chile elevou as compras para US$ 539 milhões, alta de 45,86%, enquanto a União Europeia aumentou os desembolsos em 21,8%, para US$ 480,4 milhões.

Esses números mostram que existem mercados capazes de absorver parte da produção brasileira, mas também evidenciam um problema para estados que não têm acesso a esses destinos.

Estados Unidos ganham espaço

A expansão das vendas para os Estados Unidos aparece como uma das principais alternativas para a carne bovina brasileira no segundo semestre. Entre janeiro e julho, o país importou 209,64 mil toneladas de carne bovina in natura brasileira, 23,9% acima do registrado no mesmo período de 2025.

Em julho, o avanço foi ainda mais expressivo: as exportações brasileiras de carne bovina in natura para os Estados Unidos cresceram 127,7% em valor e 105,8% em volume, de acordo com os dados apresentados pela Abrafrigo.

O mercado americano também é apontado como promissor em razão do déficit de oferta de carne bovina. O governo dos Estados Unidos anunciou recentemente um plano para importar 300 mil toneladas do produto sem a tarifa de 26,4%, embora os critérios para a operação ainda dependam de regulamentação.

Para o Brasil, a medida pode abrir espaço adicional para exportações. Para estados como o Pará, entretanto, o benefício dependerá da ampliação das habilitações e do acesso efetivo aos mercados.

Dependência da China permanece elevada

Apesar do avanço de outros destinos, a concentração das exportações brasileiras continua sendo um ponto de atenção.

De janeiro a julho de 2026, o Brasil exportou 2,119 milhões de toneladas de carne bovina e derivados, alta de 3,1% em relação ao mesmo período de 2025. A receita alcançou US$ 11,56 bilhões, crescimento de 26%.

A China permaneceu como principal compradora, com 857,24 mil toneladas adquiridas nos primeiros sete meses do ano, alta de 8,5%. Em valor, as compras chegaram a US$ 5,346 bilhões, crescimento de 30,95%.

China, Estados Unidos, Chile, União Europeia e Rússia, os cinco principais destinos da carne bovina in natura brasileira, responderam juntos por US$ 7,957 bilhões entre janeiro e julho, o equivalente a 75,56% das receitas de exportação do produto. Em volume, esses mercados absorveram 1,27 milhão de toneladas, ou 73,4%.

A concentração deixa a cadeia mais vulnerável a mudanças regulatórias, disputas tarifárias e questões geopolíticas. O impacto tende a ser maior justamente para os estados que possuem menos alternativas de acesso aos grandes mercados.

Diversificação vira prioridade

O fim da folga proporcionada pela cota chinesa reforça a necessidade de ampliar o número de destinos para a carne bovina brasileira. O desafio não é apenas aumentar as exportações nacionais, mas garantir que diferentes regiões produtoras tenham condições de participar desse movimento.

No caso do Pará, a abertura de novos mercados é especialmente relevante. O Estado possui uma das maiores bases produtivas de bovinos do país, mas sua participação no comércio internacional permanece abaixo do potencial indicado pelo tamanho do rebanho.

A defesa da ampliação das habilitações para mercados relevantes, portanto, ganha peso diante do novo cenário. Com a China limitando o crescimento dos embarques, a capacidade de redirecionar a produção para outros destinos passa a ser um fator cada vez mais importante para a competitividade da pecuária e da indústria frigorífica paraense.

O movimento de julho mostra que o impacto da cota chinesa já deixou de ser apenas uma possibilidade. A retração dos embarques para o principal comprador brasileiro começa a aparecer nas estatísticas, enquanto a capacidade de diversificação dos estados passa a ser determinante para os próximos meses.

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