Um estudo desenvolvido em cooperação técnica entre a Embrapa Gado de Leite, a Sooro Renner Nutrição e a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) mapeou a pegada de carbono do soro de leite e derivados no Brasil. A pesquisa avaliou os impactos ambientais da cadeia desde a produção do leite in natura até o transporte, processamento industrial e obtenção do soro de leite em pó.
O trabalho utiliza a metodologia de Avaliação de Ciclo de Vida (ACV), ferramenta que mensura impactos ambientais potenciais de produtos e processos. A proposta é ampliar a análise para além da porteira da fazenda e oferecer um diagnóstico mais completo sobre os pontos de maior emissão de gases de efeito estufa na cadeia láctea.
Soro ganha valor na indústria
Historicamente tratado como resíduo pela indústria de laticínios, o soro de leite passou a ocupar espaço estratégico em diferentes segmentos industriais. O soro em pó, conhecido no mercado como whey, é utilizado em formulações que vão da nutrição esportiva à panificação, agregando valor econômico a um componente que antes representava desafio ambiental.
Segundo Vanessa Romário de Paula, analista da Embrapa Gado de Leite, o estudo considera toda a complexidade da cadeia. “A cadeia láctea brasileira acaba de dar um passo decisivo rumo à transparência ambiental e à eficiência produtiva”, afirma.
Análise vai além da fazenda
A principal diferença da pesquisa em relação a estudos anteriores está na abordagem sistêmica. Em vez de avaliar etapas isoladas, a metodologia conectou produção primária, transporte e processamento industrial em uma única análise.
“Ao incluir os fluxos de transporte e as sucessivas transformações industriais, o projeto oferece um diagnóstico fiel do desempenho ambiental do setor. Assim é possível identificar onde estão os maiores gargalos de emissão de gases de efeito estufa”, afirma Thierry Ribeiro Tomich, pesquisador da Embrapa Gado de Leite.
A pesquisa foi dividida em duas etapas. A primeira caracterizou os sistemas de produção de leite da base de fornecedores da Sooro, considerando representatividade geográfica e tecnológica. A segunda analisou dados primários sobre transporte e processos industriais da empresa e de laticínios parceiros.

Dados ficam disponíveis para consulta
Os Inventários de Ciclo de Vida do soro foram disponibilizados na plataforma SICV Brasil, gerida pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT). Com acesso livre e gratuito, os dados podem apoiar novos estudos, decisões industriais e políticas públicas ligadas à sustentabilidade da cadeia láctea.
Segundo Thiago Oliveira Rodrigues, pesquisador do IBICT, a iniciativa permite que pesquisadores, indústrias e órgãos governamentais utilizem dados reais da produção brasileira em novos projetos de ACV.
Pegada ambiental orienta mitigação
O projeto também prevê a elaboração de um plano de ação com recomendações para mitigação de gases de efeito estufa. As estratégias buscam apoiar a cadeia láctea no cumprimento de exigências de mercados internacionais e no atendimento a consumidores mais atentos à origem e ao impacto ambiental dos alimentos.
A discussão é relevante porque o descarte inadequado do soro líquido pode gerar impacto ambiental elevado, devido à sua carga orgânica. Ao transformar o soro em pó, a indústria reduz riscos de contaminação e aproveita nutrientes que já demandaram água, energia, terra e manejo produtivo.
Campo concentra parte relevante das emissões
A Avaliação de Ciclo de Vida permite identificar em quais etapas estão os maiores impactos ambientais. No caso do soro de leite em pó, o estudo aponta que parte expressiva das emissões ocorre ainda no campo, na produção primária do leite.
Essa informação ajuda a direcionar ações de melhoria para os pontos mais relevantes da cadeia. Segundo a Embrapa, sistemas mais eficientes, com maior produção de leite por hectare ou por vaca, tendem a apresentar menor pegada de carbono.
Pesquisa fortalece métricas para o setor lácteo
Desde 2023, a Embrapa Gado de Leite utiliza a metodologia de ACV para avaliar o desempenho ambiental de diferentes fases da produção leiteira, da alimentação dos animais ao leite resfriado pronto para sair da fazenda. A nova pesquisa amplia essa abordagem para a etapa industrial do soro de leite.
Com métricas mais detalhadas, o setor lácteo passa a contar com informações capazes de apoiar decisões sobre eficiência produtiva, mitigação de emissões e valorização de subprodutos. Para a cadeia, o avanço contribui para conectar sustentabilidade, competitividade e maior transparência ambiental.
Fonte: Embrapa Gado de Leite, adaptado pela equipe Feed&Food
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