Antes de a carne suína chegar ao prato dos brasileiros ou cruzar fronteiras, há suinocultores e suinocultoras tomando decisões diárias sobre alimentação, sanidade, manejo, biosseguridade e bem-estar animal. Nesta sexta-feira, 24 de julho, o Brasil celebra esses profissionais no Dia Nacional do Suinocultor, data instituída pela Lei nº 12.635/2012.
Em 2026, a homenagem ocorre em um setor marcado por conquistas produtivas e comerciais, mas também por uma preocupação imediata: transformar eficiência e produtividade em renda para quem está dentro das granjas.
O tamanho do trabalho
Os números ajudam a dimensionar a relevância da atividade. Segundo material divulgado nesta sexta-feira pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), em 2025 o Brasil produziu 5,592 milhões de toneladas de carne suína, consolidando-se como o quarto maior produtor mundial. O Valor Bruto da Produção (VBP) do setor alcançou R$ 63,1 bilhões.
No mesmo período, o país exportou 1,510 milhão de toneladas para 94 mercados, com receita de US$ 3,6 bilhões, resultado que manteve o Brasil como terceiro maior exportador global. Do volume produzido, 27,01% teve como destino o exterior, enquanto o mercado interno permaneceu como principal consumidor da proteína, com consumo per capita de 19,1 quilos. Os indicadores também constam no Relatório Anual 2026 da ABPA.
“Cada tonelada produzida, cada mercado conquistado e cada avanço alcançado pela suinocultura brasileira começa com o trabalho do produtor”, destaca Ricardo Santin, presidente da ABPA.
Segundo ele, é dentro das propriedades que investimentos em genética, nutrição, manejo, sanidade, biosseguridade e sustentabilidade são transformados em produtividade, qualidade e segurança dos alimentos.
Exportações ganham novos destinos
A presença internacional continuou avançando em 2026. Considerando produtos in natura e processados, as exportações brasileiras de carne suína somaram 794,2 mil toneladas no primeiro semestre, alta de 10% diante do mesmo período de 2025. A receita chegou a US$ 1,859 bilhão, crescimento de 7,9%.
As Filipinas permaneceram como principal destino em junho, seguidas por Japão, Chile e China. A distribuição dos embarques entre diferentes mercados reforça uma avaliação feita por Iuri Pinheiro Machado, médico-veterinário e consultor de mercado da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), em entrevista à Feed&Food durante a Semana Nacional da Carne Suína, em maio: o setor conseguiu diversificar seus destinos e reduzir a dependência de um único comprador.
O movimento representa maior segurança comercial, embora as vendas externas ainda não sejam suficientes para absorver integralmente o crescimento da produção brasileira.
Recorde de produção pressiona a renda
Os dados mais recentes mostram a dimensão desse desafio. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país abateu 15,27 milhões de suínos no primeiro trimestre de 2026, aumento de 5,5% na comparação anual e melhor resultado para um primeiro trimestre desde o início da série histórica. O peso das carcaças atingiu 1,43 milhão de toneladas, avanço de 6,9%.
Uma análise publicada pela ABCS aponta que a expansão do plantel, os ganhos de produtividade e o crescimento contínuo dos abates elevaram a oferta acima da capacidade de absorção dos mercados interno e externo. Entre março de 2025 e março de 2026, a disponibilidade interna teria crescido aproximadamente 215 mil toneladas, ou 4,76%. “Diferentemente de crises recentes, esta é uma crise de oferta, e não de custos”, afirma Marcelo Lopes, presidente da ABCS.

Como referências e não como uma conta universal para todas as propriedades, a Embrapa Suínos e Aves estimou em R$ 6,21 por quilo o custo de produção do suíno vivo em sistema de ciclo completo em Santa Catarina, em junho. A ração respondeu por 72,60% desse total.
Já o levantamento semanal da ABCS, encerrado nesta sexta-feira, apontou preços médios de R$ 5,05 por quilo em Santa Catarina e R$ 4,85 no Paraná. Os indicadores têm metodologias e abrangências diferentes e não devem ser subtraídos mecanicamente, mas ajudam a dimensionar a pressão enfrentada por parte dos produtores.
A expectativa da ABCS é de uma estabilização gradual da produção e da disponibilidade interna ao longo do segundo semestre. Ainda assim, a associação avalia que a recuperação dos preços tende a ocorrer de maneira progressiva.
Tecnologia amplia responsabilidades
A posição alcançada pelo Brasil não se explica apenas pela escala produtiva. Em mensagem divulgada para a data, Santin atribuiu os resultados aos investimentos em tecnologia, ciência, genética e ambiência, somados ao trabalho realizado diariamente nas propriedades.
Em entrevista à Feed&Food na Semana Nacional da Carne Suína, Iuri Machado também ressaltou que “a suinocultura brasileira tem evoluído muito na questão de boas práticas de produção”. Entre os avanços, ele destacou o bem-estar animal e o uso responsável de antimicrobianos.
Essas demandas permanecem no centro da agenda produtiva. O Ministério da Agricultura e Pecuária mantém ações voltadas à adoção de novos sistemas de alojamento, enriquecimento ambiental e combate à resistência aos antimicrobianos. Na prática, são compromissos que exigem qualificação, controle e investimentos contínuos dentro das granjas.
Da granja ao consumidor
A valorização do suinocultor também depende da relação construída com o consumidor. Durante a campanha da Semana Nacional da Carne Suína, Lívia Machado, estrategista de mercado, marketing e posicionamento no agronegócio, observou em entrevista à Feed&Food que a comunicação deixou de ser uma via de mão única. “Hoje, os consumidores querem construir a marca com a gente”, afirmou.
Isso significa oferecer praticidade e variedade no varejo, mas também informação clara sobre origem, qualidade, formas de produção e cuidados adotados ao longo da cadeia. A percepção construída no ponto de venda começa, portanto, no trabalho realizado dentro da propriedade.
Presentes em diferentes modelos de produção integrados, cooperados ou independentes, os suinocultores movimentam economias regionais, geram renda no interior e estimulam atividades ligadas à produção de grãos, genética, nutrição, saúde animal, transporte, cooperativismo e agroindústria.
Mais do que celebrar os recordes alcançados, o Dia Nacional do Suinocultor coloca em evidência uma questão estratégica: a competitividade brasileira somente será sustentável se o produtor encontrar condições econômicas para permanecer na atividade, investir e planejar o futuro.
Nesta sexta-feira, os números mostram o tamanho da cadeia. Mas o protagonismo pertence às pessoas que, todos os dias, mantêm as granjas funcionando e transformam conhecimento, cuidado e trabalho em alimento.




