A produção de conhecimento científico no Brasil avança, assim como a demanda do setor produtivo por tecnologias capazes de aumentar a eficiência, a competitividade e a sustentabilidade dos negócios. Ainda assim, nem sempre as descobertas realizadas em universidades e institutos de pesquisa conseguem chegar ao mercado e se transformar em soluções aplicáveis. No agronegócio, onde a inovação é cada vez mais importante para responder aos desafios de produtividade, segurança alimentar e sustentabilidade, aproximar ciência e empresas é um passo estratégico.
Mas por que tantas oportunidades de inovação não avançam, mesmo quando existe conhecimento científico disponível e demanda por novas tecnologias?
Para Álvaro Duarte, diretor-presidente da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio (Fundepag), parte da resposta está na dificuldade de conexão entre os ambientes científico e empresarial. De um lado, há empresas que nem sempre sabem onde encontrar a competência científica necessária para solucionar seus problemas. De outro, pesquisadores desenvolvem tecnologias com potencial de aplicação, mas enfrentam dificuldades para encontrar parceiros, financiamento e condições para levar seus projetos adiante. O desafio, portanto, não está apenas em produzir conhecimento, mas em criar mecanismos para que ele seja aplicado. “Essa aproximação envolve obstáculos que vão além da disposição para estabelecer parcerias. Enquanto a pesquisa científica exige tempo para investigação, experimentação e validação de resultados, as empresas frequentemente precisam responder às demandas do mercado em prazos mais curtos. Também entram nessa equação questões relacionadas ao financiamento, à propriedade intelectual, à divisão de responsabilidades e às condições de exploração comercial das tecnologias”, destaca Duarte. Sem esse alinhamento, projetos com potencial de gerar inovação podem não sair do papel.
Parcerias estruturadas aproximam pesquisa e setor produtivo
Álvaro Duarte destaca que nesse cenário, colocar pesquisadores e empresários em contato é apenas o primeiro passo. Para que a cooperação produza resultados, é necessário compreender as necessidades de cada lado, identificar interesses comuns e transformar oportunidades em projetos estruturados, com objetivos, recursos e responsabilidades definidos. “A articulação entre instituições científicas e empresas exige conhecimento técnico, capacidade de gestão e instrumentos jurídicos e administrativos que ofereçam segurança aos envolvidos. Muitas vezes, o que impede uma tecnologia de avançar não é a ausência de potencial científico, mas a dificuldade de construir um caminho viável para seu desenvolvimento”, diz.
Um exemplo dessa dinâmica, segundo ele, é a parceria entre o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) e a startup BioinFood, especializada em fermentos e processos fermentativos. Com a participação da Fundepag na viabilização do acordo de pesquisa, desenvolvimento e inovação, a iniciativa possibilitou o compartilhamento da infraestrutura científica do instituto para pesquisas direcionadas às indústrias de alimentos e bebidas. “A experiência demonstra como a aproximação entre competências científicas e demandas empresariais depende também de instrumentos adequados de cooperação, capazes de transformar interesses convergentes em iniciativas concretas”, afirma.

Demanda por inovação exige mecanismos de conexão
Os resultados da Gerência de Negócios e Inovação da Fundepag ajudam a dimensionar esse trabalho. Em 2025, a área atendeu 135 oportunidades de projetos, com taxa de conversão em contratos de 30%. “Os números evidenciam a importância de uma atuação organizada para identificar demandas, conectar empresas a competências científicas, estruturar propostas e viabilizar parcerias. Mais do que promover contatos entre instituições e empresários, é necessário criar condições para que a cooperação avance e se transforme em projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação”, afirma Álvaro Duarte. “Isso não significa, entretanto, subordinar a ciência às necessidades imediatas do mercado. A pesquisa básica, mesmo quando não apresenta perspectiva de aplicação comercial no curto prazo, é fundamental para ampliar as fronteiras do conhecimento e sustentar descobertas futuras”, avalia.
O caminho, de acordo com o especialista, está em reconhecer as oportunidades de colaboração e estabelecer condições para que pesquisadores e empresas trabalhem juntos, respeitando seus diferentes objetivos, necessidades e tempos de atuação.
Ciência e inovação como estratégia para o agronegócio
O Brasil reúne instituições científicas consolidadas, pesquisadores qualificados e uma cadeia do agronegócio que demanda soluções cada vez mais complexas. Aproveitar esse potencial depende de superar a ideia de que a inovação começa e termina no desenvolvimento de uma tecnologia. “Entre uma descoberta científica e sua aplicação comercial existe um percurso que precisa ser planejado, financiado e gerido. É nesse espaço que a articulação entre ciência e mercado ganha importância estratégica”, afirma Álvaro Duarte.
Para o agronegócio, fortalecer essa conexão significa ampliar as possibilidades de desenvolvimento de tecnologias, processos e produtos capazes de responder aos desafios do setor e gerar competitividade. “Produzir conhecimento é essencial, mas não basta. Transformá-lo em inovação exige construir pontes permanentes entre instituições de pesquisa e empresas, convertendo oportunidades de cooperação em projetos viáveis. Sem essa articulação, parte do potencial científico brasileiro continuará distante das necessidades e das oportunidades do mercado”, destaca.



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