A escalada do conflito no Oriente Médio, após ataques realizados por Estados Unidos e Israel contra alvos no Irã em fevereiro de 2026, trouxe novas preocupações para o agronegócio brasileiro. Além das implicações geopolíticas, o cenário pode gerar reflexos diretos nas exportações agrícolas, na logística internacional e nos custos de produção.
Estudo do Insper Agro Global aponta que o Oriente Médio ocupa posição estratégica no comércio exterior do agro brasileiro. Em 2025, a região foi responsável por US$ 12,4 bilhões em compras de produtos agropecuários do Brasil, o equivalente a 7,4% das exportações do setor.
Entre os principais destinos das exportações brasileiras estão Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, mercados que mantêm forte demanda por diferentes produtos do agronegócio nacional.
O Irã aparece como um dos principais parceiros comerciais da região. Em 2025, o país importou cerca de US$ 2,9 bilhões em produtos agropecuários brasileiros, respondendo por 23,6% das vendas do Brasil para o Oriente Médio.
Segundo Marcos Jank, professor e coordenador do Insper Agro Global, a importância da região vai além do volume financeiro das exportações. “O Oriente Médio é um mercado relevante para o agronegócio brasileiro e, em algumas cadeias específicas, tornou-se parte estrutural do escoamento da produção”, afirma.
Dependência em cadeias específicas
A preocupação do setor está especialmente na dependência de alguns produtos em relação ao mercado regional. Dados do estudo indicam que o Oriente Médio absorve parcela significativa das exportações brasileiras de importantes commodities.
Cerca de 29% da carne de frango exportada pelo Brasil, o equivalente a 1,5 milhão de toneladas, tem como destino países da região.
No caso do milho, a dependência é ainda maior: 31,5% das exportações brasileiras do grão, aproximadamente 12,9 milhões de toneladas, são direcionadas ao Oriente Médio.
A região também responde por 17% das exportações de açúcar do Brasil, cerca de 5,8 milhões de toneladas, além de 6,5% das vendas externas de carne bovina, volume próximo de 220 mil toneladas.
No comércio de milho, o destaque é novamente o Irã. O país foi o principal comprador do produto brasileiro em 2025, adquirindo cerca de 9 milhões de toneladas, o equivalente a 22% de todo o milho exportado pelo Brasil no período.
De acordo com Jank, uma interrupção prolongada nas relações comerciais com a região poderia gerar impactos relevantes para algumas cadeias do agronegócio. “Uma eventual disrupção nesses mercados pode trazer riscos comerciais importantes, especialmente para produtos fortemente dependentes das exportações para o Oriente Médio”, explica.

Rotas marítimas sob risco
Outro ponto de atenção envolve a segurança das rotas marítimas que sustentam o comércio internacional. O aumento das tensões no Oriente Médio eleva a instabilidade em passagens estratégicas para o transporte global.
Entre os principais corredores logísticos afetados estão o Estreito de Ormuz, responsável por cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo e gás natural, e o estreito de Bab el-Mandeb, que conecta o Mar Vermelho ao Canal de Suez.
Eventuais problemas nessas rotas podem provocar desvios de navios, aumento no valor dos fretes e encarecimento do seguro marítimo, ampliando os custos logísticos para exportadores brasileiros.
Além disso, parte significativa do comércio global de insumos agrícolas passa por rotas associadas à região. Estimativas indicam que aproximadamente 45% da ureia exportada no mundo, 25% da amônia e 20% do fosfato diamônico (DAP) transitam por essas vias.
Energia e fertilizantes
Conflitos geopolíticos também costumam pressionar os preços internacionais de energia. A elevação nas cotações de petróleo e gás natural, insumos fundamentais para a produção de fertilizantes nitrogenados, tende a impactar diretamente os custos da produção agrícola.
“Choques no mercado de energia acabam sendo transmitidos rapidamente para os fertilizantes e, consequentemente, para a estrutura de custos da agricultura”, afirma Marcos Jank.
Impacto dependerá da evolução do conflito
Especialistas avaliam que a magnitude dos efeitos dependerá da duração e da intensidade das tensões na região.
Caso o cenário se estabilize rapidamente, os impactos devem se restringir a uma volatilidade temporária nos preços de frete, energia e insumos agrícolas.
Por outro lado, uma escalada prolongada do conflito pode gerar pressões mais consistentes sobre custos, margens de produção e decisões estratégicas do agronegócio.
Mesmo diante das incertezas, analistas destacam que o setor agrícola brasileiro tem ampliado esforços para diversificar mercados e reduzir a dependência de regiões específicas, estratégia que pode ajudar a mitigar riscos no comércio internacional.
Fonte: Insper Agro Global, adaptado pela equipe Feed&Food
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