Mesa de Mercado · CEPEA
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Competitividade e novos mercados marcam primeiro dia do IFC Brasil 2026

IFC Brasil 2026 debate preço, consumo, tarifas, exportações e novos mercados para o pescado.

Preço do pescado na gôndola, mudanças no comportamento do consumidor, tarifas internacionais e busca por novos mercados estiveram entre os principais assuntos do primeiro dia do IFC Brasil 2026, nesta quarta-feira (2), em Foz do Iguaçu (PR). Em sua 8ª edição, o encontro reúne produtores, empresas, cooperativas, pesquisadores, representantes do varejo e do poder público para discutir os caminhos da cadeia do pescado.

A programação técnica foi seguida, no início da noite, pela abertura oficial do evento. Ao longo do dia, diferentes elos da cadeia convergiram para um mesmo desafio: ampliar mercados sem perder de vista custos, eficiência produtiva e capacidade de fazer o pescado chegar ao consumidor.

Presidente do IFC Brasil, Altemir Gregolin, afirmou que a proposta do encontro é reunir diferentes agentes para discutir não apenas questões técnicas, mas estratégias de médio e longo prazo para o desenvolvimento da atividade. “Esse evento não apenas se reúne para discutir questões técnicas, mas se reúne para discutir o futuro do setor”, afirmou.

Para Gregolin, o crescimento da piscicultura brasileira colocou o País diante de um cenário no qual produção, consumo e comercialização precisam avançar de forma conjunta. “Hoje nós temos que ser competitivos no mercado interno e no mercado externo”, resumiu.

Na sequência, a CEO do IFC Brasil, Eliana Panty, destacou que o momento combina oportunidades de crescimento com pressões econômicas e mudanças no perfil de consumo. “Essa é uma edição marcada pela resiliência de um setor que sofre oscilações de mercados, de tarifa, de mudanças de comportamento e de consumo”, afirmou.

Presidente do IFC Brasil, Altemir Gregolin.

PREÇO AINDA LIMITA CONSUMO

A necessidade de conquistar espaço no mercado interno apareceu com força no Painel de Líderes – Desafios, perspectivas e estratégias para o mercado de pescado. Danilo Souza Alves, representante da indústria de pescado, apontou o poder de compra como uma das principais variáveis na decisão do consumidor. “O brasileiro realmente não escolhe o que ele gosta, o que ele quer. Ele escolhe o que cabe dentro do seu bolso”, afirmou.

Na avaliação de Alves, entretanto, aproximar o consumidor do pescado não depende apenas de preço. Informação e facilidade de preparo também interferem na frequência de consumo. “O problema não é a pessoa gostar ou não. O problema é outro: é como fazer, o problema é o preço”, disse.

O executivo defendeu maior esforço de comunicação para apresentar diferentes formas de preparo e reduzir percepções negativas que ainda cercam algumas espécies. No caso do tambaqui, especialmente em regiões onde há menor tradição de consumo, ele considera fundamental aproximar o produto do público. “Eu acho que o investimento deva ser em educação. Educação do público”, destacou.

Ministro da Pesca e Aquicultura, Rivetla Edipo Araujo Cruz.

CONSUMIDOR BUSCA PRATICIDADE

Também participante do painel, Meg Felippe, especialista em varejo, apontou uma mudança na lógica de compra. Segundo ela, parte dos consumidores está deixando de procurar exclusivamente uma determinada espécie e passando a escolher o pescado conforme a ocasião em que pretende consumi-lo. “Hoje as pessoas têm mais um comportamento de ocasião. ‘Eu queria um peixe para o jantar, eu queria um peixe para churrasco, eu queria um peixe para criança’”, explicou.

Essa transformação abre espaço para uma oferta mais direcionada às diferentes rotinas e necessidades. Cortes prontos, porções menores e opções que demandem menos tempo de preparo podem ajudar a reduzir barreiras de consumo. “As pessoas querem monoporções, as pessoas querem produtos limpos, as pessoas querem cortes prontos, as pessoas querem produtos que não gastem tempo e elas estão dispostas a pagar por isso”, afirmou Meg.

TARIFAS REFORÇAM BUSCA POR NOVOS DESTINOS

Se no mercado doméstico o desafio passa por transformar produção em consumo, no comércio exterior a discussão está em reduzir a exposição a poucos compradores.

Durante o painel “Exportações e importações de pescado – A dança das tarifas, abertura de mercados e os desafios para a aquicultura brasileira”, Manoel Xavier Pedroza Filho, pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura, apresentou os impactos do cenário internacional sobre a piscicultura.

Segundo os dados apresentados pelo pesquisador durante o IFC, as exportações brasileiras de tilápia perderam ritmo diante das mudanças tarifárias nos Estados Unidos, principal destino do produto nacional. Paralelamente, as importações de tilápia congelada provenientes do Vietnã ganharam espaço no mercado brasileiro antes de apresentarem recuo nos últimos meses analisados.

Pedroza destacou ainda fatores estruturais que ajudam a explicar a competitividade vietnamita, como certificações internacionais, custos produtivos e políticas de apoio ao setor. Para o Brasil, o cenário reforça a necessidade de avançar em eficiência, desenvolver produtos de maior valor agregado e ampliar os destinos das exportações.

CEO do IFC Brasil, Eliana Panty.

“O RISCO É A GENTE FOCAR NUM MERCADO SÓ”

Em entrevista exclusiva à Feed&Food durante o IFC Brasil, Pedro Netto, gerente de Agronegócios da ApexBrasil, ressaltou que a diversificação dos embarques não significa abandonar os Estados Unidos. “A gente não quer abrir mão dos Estados Unidos de forma alguma”, afirmou.

Para Netto, as mudanças recentes no comércio internacional evidenciaram, porém, a vulnerabilidade criada quando parcela elevada das exportações depende de um único destino. “O risco é a gente focar num mercado só.”

A estratégia, segundo ele, passa pela manutenção da atuação no mercado norte-americano ao mesmo tempo em que novos destinos são prospectados. Austrália, Oriente Médio, países africanos e União Europeia estão entre os mercados citados pelo gerente. “Quanto mais a gente conseguir diversificar, mais a gente conseguir ir para mercados diferentes, gastar a sola do sapato, melhor a gente vai ficar”, destacou.

Netto também chamou atenção para a percepção de que a exportação seria uma possibilidade restrita aos grandes negócios. Segundo ele, empresas menores podem acessar o mercado internacional desde que entendam o produto, o público pretendido e os requisitos necessários para cada destino. “Exportação não é uma coisa só para o cara que é gigante, que já está exportando há décadas, mas mesmo um pequeno frigorífico, um pequeno empresário, ele tem sim o potencial de chegar no mercado internacional”, explicou.

A diversificação também pode ocorrer pelo portfólio. Pirarucu, tambaqui e surubim foram citados como espécies brasileiras com potencial de ganhar maior espaço fora do País. “A gente está começando a ver um interesse cada vez maior por esses peixes que lá fora eles chamam de exóticos, mas que a gente conhece a qualidade aqui dentro”, afirmou Netto.

GOVERNO MIRA CONSUMO E PROTEÇÃO DA PRODUÇÃO

Durante a abertura oficial, o ministro da Pesca e Aquicultura, Rivetla Edipo Araujo Cruz, defendeu maior integração entre setor produtivo, pesquisa, universidades e poder público para sustentar o desenvolvimento da atividade. “A aquicultura não é futuro, a aquicultura é presente”, declarou.

O ministro também retomou uma questão que apareceu ao longo da programação técnica: o preço do pescado. Para Cruz, incentivar o consumo precisa estar acompanhado de medidas capazes de melhorar o acesso da população à proteína. “A gente precisa, para além de consumir mais pescado, que esse pescado venha a chegar na nossa mesa com um preço mais baixo”, afirmou.

Na área internacional, Cruz defendeu a diversificação das exportações brasileiras e abordou também a entrada de tilápia estrangeira no mercado nacional. Segundo o ministro, o governo trabalha na construção de mecanismos voltados à proteção da produção brasileira, sem detalhar durante a abertura quais instrumentos deverão ser adotados.

“Um Brasil que quer abrir exportações é um Brasil que também se permite a receber produtos de fora. Mas a gente precisa construir mecanismos e ferramentas para salvaguardar todos os nossos produtores”, afirmou.

A programação do IFC Brasil segue em Foz do Iguaçu até sexta-feira (4), com discussões sobre custos, eficiência produtiva, tecnologia, nutrição, sanidade, biosseguridade, genética e desenvolvimento da aquicultura.

O primeiro dia deixou uma equação clara para a cadeia: aumentar a produção é apenas uma parte do caminho. Para transformar crescimento em mercado, o pescado brasileiro ainda precisa avançar em preço, conveniência, eficiência e diversificação, tanto na mesa do consumidor brasileiro quanto no comércio internacional.

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