Em janeiro de 2026, os Departamentos de Saúde (HHS) e da Agricultura (USDA) dos Estados Unidos apresentaram uma nova versão de sua pirâmide alimentar, retomando uma ferramenta que, desde a década de 1990, se tornou uma das orientações mais conhecidas de alimentação saudável e ultrapassou as fronteiras do país. Depois de mais de uma década utilizando o gráfico dos alimentos dispostos no prato (MyPlate), a pirâmide voltou, só que invertida. Nesta nova orientação, alimentos como carnes, ovos, peixes e laticínios figuram na base da pirâmide, representando o maior percentual de alimentos a serem consumidos, acompanhados de vegetais, frutas, grãos integrais e gorduras saudáveis.
A nova pirâmide norte-americana pode ultrapassar as fronteiras dos Estados Unidos e influenciar a percepção internacional sobre o papel das proteínas de origem animal na alimentação, justamente por apresentar uma abordagem diferente daquelas que marcaram boa parte das últimas décadas. Essa mudança importante na comunicação alimentar abre espaço para uma discussão mais ampla sobre o papel dos alimentos de origem animal e, consequentemente, sobre como as cadeias produtivas responderão às novas demandas por alimentos nutritivos, acessíveis e produzidos de forma cada vez mais eficiente e responsável.
O que muda para o Brasil
Se a valorização de alimentos in natura ganhar espaço entre os consumidores, possivelmente haverá demanda futura por esses produtos, e o Brasil está entre os países com maior capacidade para atendê-la. O país ocupa posição estratégica no abastecimento mundial de proteína animal, apoiado por um sistema produtivo consolidado e por mecanismos de controle e de segurança dos alimentos. Essa estrutura contribui para sua competitividade e reforça seu papel como um dos principais fornecedores de proteína animal no mercado internacional.

Da mesa ao campo: eficiência
Com as proteínas de origem animal em destaque, surge uma segunda questão: como responder às demandas que passam a englobar ainda mais os quesitos de qualidade, conformidade e origem? A produção de carne envolve fatores que determinam quais e a intensidade de uso dos recursos e quanto tempo são necessários para produzir cada unidade protéica: qualidade e manejo das pastagens, capacidade de lotação, genética, nutrição, eficiência reprodutiva e idade ao abate. Sistemas mais eficientes produzem mais com menos recursos, reduzindo o tempo necessário para levar o animal ao peso de abate e aumentando a quantidade de carne por unidade de área.
Essa eficiência pode ser atingida pela integração de atividades, como a lavoura-pecuária (ILP), em que a mesma área alterna entre lavoura e pasto, com o gado aproveitando a palhada e a adubação de culturas de grãos, e o pasto melhorando o solo. Essa prática, com o uso de coprodutos da agroindústria na alimentação animal e o manejo adequado do solo e das pastagens, aumenta a produtividade e a sustentabilidade na propriedade.
Rastreabilidade e confiança
Quando o alimento chega ao prato do consumidor final, a história por trás daquele produto também ganha importância. A rastreabilidade do produto de origem animal é um diferencial no sistema e, com consumidores cada vez mais conscientes, deixa de ser apenas uma exigência comercial e torna-se uma ferramenta de confiança que percorre toda a cadeia produtiva do alimento, do campo à mesa, podendo facilitar a entrada de produtos brasileiros em novos mercados. A rastreabilidade permite ao consumidor acompanhar a origem e o histórico dos animais que deram origem ao produto. No Brasil, o SISBOV constitui a base oficial para o controle das informações necessárias à certificação de bovinos destinados a mercados que exigem rastreabilidade individual.
Para a pecuária brasileira, portanto, o desafio está em produzir de forma eficiente e consistente, ampliando sua capacidade de atender a um mercado que pode crescer e, ao mesmo tempo, tornar-se mais exigente, o que representa uma oportunidade de mostrar a diversidade, a tecnologia e a capacidade de evolução da produção brasileira.
Maria Antônia Arcari (Estudante de Agronomia, UFRGS)
Thaís Gabriele Seibert (Médica Veterinária, Mestranda em Zootecnia, UFRGS)
Tamara Esteves de Oliveira (Médica Veterinária, Ph.D., Pós-Doutoranda INCT-Bovinos de Corte, CNPq/UFRGS)
Júlio Barcellos (Médico Veterinário, Ph.D., Professor Titular do Departamento de Zootecnia, UFRGS; INCT-Bovinos de Corte, CNPq/UFRGS)



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