O cenário de juros elevados no Brasil tem levado agroindústrias e empresas de médio porte a reverem suas estratégias de financiamento. Mesmo com a taxa básica de juros definida em 14,50% ao ano pelo Banco Central, o custo do capital segue pressionando o planejamento corporativo e dificultando a viabilidade de novos projetos.
Nesse contexto, linhas subsidiadas operadas por bancos de desenvolvimento voltaram a ganhar espaço como alternativa ao crédito tradicional, especialmente para pequenas e médias empresas que dependem do sistema bancário convencional para financiar expansão, modernização e inovação.
Segundo Lucas Della-Sávia, sócio-diretor da FC Partiners, o ambiente de juros elevados afeta diretamente o custo dos empréstimos e financiamentos, reduzindo o apetite das empresas por investimentos de longo prazo.
“Expansões, modernização de plantas, aquisição de máquinas e investimentos em tecnologia competem com a necessidade de preservar liquidez. O efeito é a postergação de parte dos investimentos produtivos”, afirma.
No mercado privado, operações atreladas ao CDI acompanham o aperto monetário. Instrumentos como debêntures e operações estruturadas seguem mais concentrados em grandes empresas, que possuem governança consolidada e acesso a investidores institucionais.
Para as pequenas e médias companhias, o cenário é mais restritivo. “O crédito ficou mais curto, mais caro e mais exigente em garantias”, diz Della-Sávia.
Segundo ele, a discussão sobre financiamento deixou de ser apenas operacional e passou a integrar a estratégia financeira das empresas. “A escolha da fonte de capital, bem como prazo, indexador, carência e exigências técnicas, se tornou uma decisão estratégica. A estruturação eficiente do passivo passou a impactar diretamente a capacidade de investimento e a competitividade das empresas”, destaca.

Com isso, linhas subsidiadas de instituições de fomento ganharam protagonismo na estrutura de capital das empresas. Em 2026, programas voltados à digitalização produtiva e à indústria 4.0 passaram a ocupar espaço central na política industrial, com recursos liberados por instituições como BNDES e Finep.
O pacote de R$ 12 bilhões anunciado anteriormente — com potencial de alcançar R$ 300 bilhões em 2026 — começou a chegar às empresas, principalmente em setores com menor grau de automação, como manufatura e agroindústria.
De acordo com Della-Sávia, a lógica dessas linhas é reduzir o custo financeiro para estimular investimentos em automação, robótica, Internet das Coisas (IoT) e manufatura avançada.
“Com prazos mais longos e taxas inferiores às praticadas no mercado tradicional, essas linhas alteram o cálculo de viabilidade e ampliam o horizonte de planejamento”, explica.
Para micro, pequenas e médias empresas, o impacto pode ser decisivo. “Ao acessar crédito com condições diferenciadas, essas companhias conseguem diluir o desembolso inicial e capturar ganhos de produtividade que, em ambiente de juros elevados, ficariam comprometidos”, afirma.
O executivo ressalta, porém, que acessar esse tipo de recurso exige preparação técnica e financeira. Segundo ele, o desafio vai além de encontrar a linha disponível.
“Cada banco de desenvolvimento opera com critérios técnicos próprios, métricas de inovação e requisitos regulatórios específicos. A modelagem financeira e técnica precisa nascer alinhada a essas diretrizes”, observa.
Nesse cenário, consultorias especializadas passaram a atuar na chamada “engenharia de funding”, estruturando estratégias de captação alinhadas ao perfil de cada projeto.
A FC Partners, por exemplo, assessorou recentemente empresas como Skill Certo, Avanço, NoventaTI e Aiko na obtenção de recursos via linha Pró-Inovação do BDMG, voltada ao financiamento de projetos de inovação tecnológica.
As operações envolveram estruturação técnica, adequação documental e acompanhamento até a aprovação dos financiamentos.
Segundo Della-Sávia, a procura por esse tipo de estrutura aumentou à medida que o crédito tradicional perdeu competitividade.
“Capital tem preço, prazo e impacto estrutural. Escolher a fonte errada compromete o fluxo de caixa por anos. Quando o funding é estruturado de forma estratégica, ele passa a sustentar o crescimento, não a pressionar a margem”, afirma.
Para o executivo, empresas que incorporam a estratégia de funding ao planejamento conseguem manter seus projetos de modernização mesmo em um ambiente econômico adverso.
“Com a Selic em 14,50%, o crédito tradicional compromete margens e alonga o payback. Linhas subsidiadas deixam de ser alternativas e passam a compor a estratégia financeira da empresa”, conclui.
Fonte: FC Partiners, adaptado pela equipe da Feed & Food.
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