A produção brasileira de camarão cultivado pode alcançar 250 mil toneladas em 2026, conforme projeção setorial da Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC) citada pelo engenheiro de pesca e especialista em carcinicultura sustentável Marcelo Borba. Em entrevista à Revista Feed&Food, ele afirma que o avanço da atividade precisa ser acompanhado por maior rentabilidade e segurança para os produtores.
Borba avalia que a carcinicultura ganhou escala e incorporou micro, pequenos e médios criadores, mas ainda enfrenta entraves em licenciamento, assistência técnica, processamento e logística. “Volume mede crescimento. Valor capturado pelo produtor mede maturidade”, resume.
O especialista também alerta para diferenças metodológicas nas estatísticas: em 2024, o IBGE registrou 146,8 mil toneladas, enquanto a ABCC estimou 210 mil toneladas. Os números, portanto, não devem ser comparados como se pertencessem à mesma série.
Custos pressionam rentabilidade
A expansão da oferta não se converte automaticamente em melhores margens. Gastos com ração, energia, pós-larvas e mão de obra aumentaram, enquanto a venda de camarão fresco mantém muitos produtores dependentes de intermediários. Uma referência de abril de 2026, apresentada por Borba para o camarão de 10 gramas, era de R$ 21 por quilo, valor que não representa uma cotação atual.
O mercado interno absorve praticamente toda a produção brasileira, mas Borba defende ampliar beneficiamento, congelamento e distribuição. Estimativa apresentada na FENACAM 2025 indicava que cerca de 70% do camarão era comercializado in natura, condição que limita o prazo de venda e o poder de negociação.
Interiorização exige conhecimento técnico
O avanço do cultivo em águas interiores está entre os principais vetores de crescimento. Segundo estimativas setoriais citadas pelo entrevistado, essas regiões respondem por 60% a 70% da produção. Entretanto, sistemas de baixa salinidade demandam controle específico da composição da água, dos sedimentos e dos efluentes. “Interiorizar viveiros sem interiorizar conhecimento cria uma dívida técnica, cobrada em produtividade, sanidade e qualidade ambiental”, afirma.
Borba também aponta a necessidade de fortalecer a biossegurança, a qualidade das pós-larvas, o monitoramento da conversão alimentar e a formação de trabalhadores especializados. Sem assistência técnica e infraestrutura, a expansão pode elevar os riscos produtivos e ambientais.
Perspectivas até 2030
Para 2030, a projeção pessoal de Borba é de aproximadamente 400 mil toneladas, com faixa estimada entre 380 mil e 420 mil, dependendo das condições econômicas e dos investimentos. Em um cenário favorável, ele prevê entre 450 mil e 500 mil toneladas em 2031.
O especialista defende regularização ambiental, crédito, estatísticas comparáveis e ampliação de mercados para sustentar esse crescimento. “Potencial sem método permanece potencial”, conclui.
Confira a entrevista completa na edição 234 da Revista Feed&Food.




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