O mercado de proteína animal encerra outubro sob influência de fatores distintos de oferta, demanda e custos de produção. Enquanto o boi gordo renova recordes de preços em meio à oferta restrita de animais para abate, a avicultura acompanha os efeitos potenciais das restrições comerciais provocadas por um foco de doença de Newcastle em Santa Catarina. Ao mesmo tempo, a alta dos fertilizantes e do diesel, somada às incertezas climáticas para a safra 2026/27, amplia a preocupação com os custos de alimentação animal nos próximos meses.
O cenário é acompanhado por movimentos relevantes nos mercados de grãos. O plantio da soja brasileira ganhou velocidade no Centro-Oeste após a retomada das chuvas, enquanto a semeadura enfrenta dificuldades em regiões com excesso ou falta de umidade. Nos Estados Unidos, a colheita de soja se aproxima da média histórica, e o milho segue atrasado em importantes áreas produtoras.
Esses fatores influenciam as perspectivas para milho e farelo de soja, componentes fundamentais da alimentação de aves e suínos, além de afetarem o planejamento de confinamentos e demais sistemas intensivos de produção animal.

Boi gordo bate recordes com oferta restrita
O mercado pecuário brasileiro mantém trajetória de valorização, sustentado pela menor disponibilidade de animais terminados. O Indicador do Boi Gordo DATAGRO B3, de São Paulo, alcançou R$ 381,74 por arroba em 21 de outubro, renovando o recorde nominal pela 12ª vez no mês. No dia seguinte, o indicador fechou a R$ 381,06/@, acumulando alta de 4,3% em outubro e de 22,7% em 12 meses.
As escalas de abate seguem curtas. Segundo a AgroBrazil, a média nacional era de 6,31 dias em 22 de outubro. A restrição de oferta está associada à mudança do ciclo pecuário e à retenção de matrizes, após anos de abates elevados de fêmeas.
No atacado, a carcaça casada bovina na Grande São Paulo também atingiu recorde nominal, a R$ 26,06/kg. Apesar da valorização, o Cepea relatou redução no ritmo de negócios e dificuldades para escoar a carne, sinal de resistência dos compradores aos preços elevados.
No mercado futuro, os contratos da B3 recuaram após as máximas recentes, movimento associado à realização de lucros por fundos. A evolução das exportações também está no radar: até a terceira semana de outubro, os embarques brasileiros de carne bovina registravam média diária 32,7% inferior à de outubro de 2025, em meio ao esgotamento da cota chinesa para 2026.
A expectativa é de que os embarques ganhem força com a entrada da nova cota, a partir de 2027. A combinação entre oferta restrita e possível recuperação da demanda externa pode sustentar os preços, embora o consumo doméstico represente um ponto de atenção.

Frango acompanha restrições sanitárias e valorização da carne bovina
Na avicultura, o principal fator de incerteza é a confirmação de um foco de doença de Newcastle em uma granja comercial de perus em Nova Itaberaba, no oeste de Santa Catarina. O episódio levou cinco países a adotar restrições comerciais, segundo a atualização do Ministério da Agricultura de 21 de outubro.
China, Arábia Saudita e Chile direcionaram medidas ao estado, enquanto México e Malásia suspenderam as importações de produtos avícolas de todo o Brasil. A abrangência e a duração dos embargos serão determinantes para avaliar os efeitos sobre os frigoríficos e o mercado interno.
Até o momento, os preços não demonstraram reação significativa ao episódio. O frango congelado em São Paulo ficou praticamente estável, a R$ 8,49/kg, entre 16 e 22 de outubro. Já o frango resfriado foi negociado a R$ 8,50/kg.
A proteína, entretanto, vinha de uma recuperação expressiva: desde o fim de agosto, o preço do frango resfriado subiu 16,6%, movimento superior à valorização de 8,6% observada para a carcaça bovina no mesmo intervalo.
Caso as restrições permaneçam limitadas a Santa Catarina, a indústria poderá redirecionar parte dos embarques para outros destinos. Se houver ampliação dos embargos, especialmente por parte da China, o aumento da disponibilidade doméstica poderá pressionar as cotações, como ocorreu durante as restrições comerciais associadas à gripe aviária em 2025.
O impacto também pode alcançar a cadeia de alimentação animal, embora a estimativa da Terra Agro Insights indique que o volume de carne sob restrição equivale a aproximadamente 62 mil toneladas de milho por mês, cerca de 0,7% do consumo mensal brasileiro do cereal. Por enquanto, o efeito direto sobre a demanda por milho tende a ser limitado.
Carne bovina fica relativamente mais cara que o frango
A valorização do frango não foi suficiente para eliminar a diferença de preços entre as duas proteínas. Em 22 de outubro, um quilo de carcaça bovina comprava 3,07 quilos de frango, ante 3,29 quilos no fim de agosto.
Apesar da redução recente, a relação permanece elevada. A média de 2026 está em 3,28 quilos de frango por quilo de carne bovina, a maior média anual da série iniciada em 2016.
A diferença pode favorecer a demanda por frango nas gôndolas, especialmente diante da resistência dos consumidores aos preços da carne bovina. Uma eventual pressão sobre as cotações avícolas em razão dos embargos sanitários ampliaria essa vantagem relativa.
No mercado internacional, os embarques de carne de frango continuavam em alta antes da confirmação do foco de Newcastle. Até a terceira semana de outubro, a média diária exportada estava 23,6% acima da registrada no mesmo mês de 2025. Os dados ainda não incorporavam os efeitos das restrições anunciadas após 18 de outubro.

Milho e soja: custos e clima entram no radar da produção animal
A perspectiva para os custos de alimentação animal depende, em grande medida, do comportamento das próximas safras de milho e soja. No Brasil, o plantio da soja alcançou 30,1% da área prevista nos 12 principais estados até 16 de outubro, segundo a Conab, acima dos 21,4% observados no mesmo período de 2025.
O avanço foi impulsionado pelo Centro-Oeste. Em Mato Grosso, a semeadura atingiu 51,86% da área, enquanto Goiás avançou para 26%. No Sul, porém, o excesso de umidade tem dificultado as operações de campo. No Rio Grande do Sul, apenas 3% da área havia sido semeada até 22 de outubro.
A regularidade das chuvas em novembro será importante para o desenvolvimento da soja e para o cumprimento da janela de plantio do milho safrinha de 2027. Atrasos relevantes podem comprometer a implantação da segunda safra e aumentar as incertezas sobre a oferta futura do cereal.
Nos Estados Unidos, a colheita da soja chegou a 64% da área até 18 de outubro, apenas um ponto percentual abaixo da média de cinco anos. A colheita do milho alcançou 44%, ante média histórica de 52%.
O USDA elevou sua estimativa de produtividade do milho norte-americano para 181,2 bushels por acre e projetou produção de aproximadamente 407 milhões de toneladas. A perspectiva de uma safra volumosa pressiona as cotações internacionais, embora existam questionamentos de parte do mercado sobre o tamanho efetivo da produção.
No Brasil, o milho disponível em Mato Grosso recuou para R$ 46,50/saca, enquanto o indicador ESALQ/B3 fechou a R$ 64,24/saca em 22 de outubro. A queda dos preços pode aliviar parte dos custos de alimentação animal, mas a evolução dependerá do balanço entre oferta, demanda doméstica, exportações e câmbio.
Insumos mais caros pressionam margens
A queda recente do milho ocorre em paralelo ao encarecimento de outros componentes da produção agrícola. O avanço do petróleo, que elevou o preço do diesel, e a valorização dos fertilizantes aumentam os custos de implantação e manutenção das lavouras.
Em Mato Grosso, o custo total estimado da soja para a safra 2026/27 chegou a R$ 8.210,31 por hectare, alta de 6,96%. No milho, o custo operacional total foi calculado em R$ 6.070,09/ha, acima da receita bruta estimada de R$ 5.824,88/ha com base nos preços médios de setembro.
Com o milho disponível a R$ 46,50/saca, a receita estimada cairia para aproximadamente R$ 5.563/ha, ficando praticamente empatada com o custo operacional efetivo e cerca de 8% abaixo do custo operacional total.
A situação aumenta o risco de redução de investimentos na próxima safrinha, inclusive em tecnologia e fertilização. Para a cadeia de proteína animal, uma eventual queda de produtividade pode limitar a oferta de milho e reduzir parte do benefício proporcionado pelos preços mais baixos no mercado atual.

Suínos mantêm exportações em alta
O setor de carne suína também apresenta desempenho positivo no comércio exterior. Até a terceira semana de outubro, o Brasil havia exportado 74,4 mil toneladas, com média diária 18,5% superior à registrada em outubro de 2025.
O preço médio, entretanto, recuou 11,1%, limitando o crescimento da receita a 5,3%. O resultado mostra que o aumento dos volumes embarcados nem sempre se traduz em valorização proporcional da receita, reforçando a importância de acompanhar os preços internacionais e os custos de produção.
Para a suinocultura e a avicultura, a evolução do milho e do farelo de soja será determinante para as margens nos próximos ciclos. Já a capacidade de manter o acesso aos mercados externos seguirá decisiva para o equilíbrio entre oferta doméstica e exportações.
Perspectivas para os próximos meses
O mercado de proteína animal deve atravessar os próximos meses com dinâmicas distintas entre as cadeias. Na bovinocultura, a restrição de oferta sustenta os preços, mas o encarecimento da carne começa a dificultar o escoamento no atacado. Na avicultura, a valorização recente do frango contrasta com a incerteza provocada pelas restrições sanitárias em Santa Catarina.
Ao mesmo tempo, o cenário de grãos reúne fatores de alívio e de risco: a colheita norte-americana pressiona as cotações internacionais, mas os custos elevados de produção e as incertezas climáticas podem afetar a oferta futura.
A evolução das restrições comerciais, o comportamento do consumo interno, a regularidade das chuvas no Brasil e o custo da alimentação animal serão os principais pontos de atenção para frigoríficos, integradoras, cooperativas e produtores na preparação para 2027.



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