Camila Santos, de Bento Gonçalves (RS)
O Seminário Nacional de Desenvolvimento da Suinocultura (SNDS), realizado em Bento Gonçalves (RS), é o palco de uma celebração histórica: os 70 anos da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS). O encontro reune produtores, lideranças, ex-presidentes, representantes de entidades e autoridades para revisitar o passado, destacar conquistas e projetar o futuro da suinocultura brasileira.
A cerimônia de abertura foi marcada por emoção e reconhecimento ao papel da entidade desde sua fundação, em 1955, na cidade de Estrela (RS), quando 48 produtores decidiram se organizar diante das transformações no mercado. “Entre a produção do porco banha e a do porco carne, o caminho foi longo e desafiador. A ABCS assumiu desde cedo a missão de liderar esse processo de mudança”, destaca Marcelo Lopes, presidente da ABCS.
Do “porco banha” à carne magra de qualidade
Nos anos 1950 e 1960, a chegada dos óleos vegetais e a consequente queda do consumo de banha obrigaram a cadeia produtiva a se reinventar. A entidade teve papel central na transformação genética e produtiva, reduzindo a idade de abate e introduzindo raças que garantiram maior rendimento de carne. “Saímos de um animal com 70% de banha e apenas 20% de carne para um suíno com 80% de carne e 20% de banha. Esse salto foi fantástico para todo o setor”, lembra Marcelo.
Com o apoio de empresas internacionais e políticas públicas, o Brasil modernizou seu rebanho e passou a ser reconhecido pela qualidade da carne suína. “Hoje exportamos até para mercados altamente exigentes como o Japão. O que temos aqui é padrão mundial”, ressalta.
Memórias que emocionam
O momento mais simbólico da noite foi a homenagem a José Adão Braun, ex-presidente e testemunha viva da trajetória da entidade. Com emoção, ele recordou os primeiros anos da ABCS. “Iniciei na associação quase garoto, com 17 anos. Estávamos alojados em uma pequena salinha em Estrela. A suinocultura sofria muito, os produtores estavam desprotegidos. A criação da ABCS mudou completamente essa realidade”, conta.
Braun relembrou ainda os desafios da época, desde crises de preços até a falta de políticas de apoio. “Posso dizer que há dois momentos na nossa história: antes e depois da ABCS. A entidade trouxe proteção, representatividade e confiança para os produtores”, afirma.
Outro destaque foi o depoimento de Flauri Migliavacca, produtor cuja família está ligada à suinocultura desde a fundação da associação. Ele compartilhou histórias de sacrifício, como a chegada de animais importados dos Estados Unidos, marcada por dificuldades logísticas e até tragédias. “Esse esforço mostra o quanto nossos pioneiros acreditaram na transformação da atividade”, ressalta.
Valdomiro Ferreira Júnior, presidente da Associação Paulista dos Criadores de Suínos (APCS) também foi homenageado na cerimônia de abertura, pelas suas contribuições ao setor. “O Ferreirinha faz parte dessa história que reúne os esforços de produtores, lideranças e famílias que acreditaram que a suinocultura brasileira e que ajudam a tornar o setor mais forte, mais moderno e com muito mais espaço no Brasil”, declara o presidente da ABCS, Marcelo Lopes.





Conquistas institucionais e técnicas
Ao longo das sete décadas, a ABCS se consolidou como referência técnica e política. Foram milhões de registros genealógicos, avanços em genética, apoio a normas de bem-estar animal e a implementação do quarentenário oficial de Cananéia, essencial para a segurança sanitária do rebanho. “Essas ações mostram o quanto o trabalho técnico impacta diretamente a competitividade do setor”, destaca o presidente da ABCS. Além da técnica, a entidade também marcou presença em momentos de crise, mobilizando produtores e dialogando com o governo para defender políticas justas.
Na comunicação, campanhas como “Escolha Mais Carne Suína” e a Semana Nacional da Carne Suína mudaram a percepção dos consumidores. Hoje, o consumo per capita ultrapassa 20 quilos, resultado de uma estratégia de marketing que valorizou sabor, qualidade e versatilidade do produto.
Parcerias que impulsionam o futuro
Durante a solenidade, a Embrapa Suínos e Aves também celebrou 50 anos e reforçou a importância da parceria com a ABCS. “Construímos pontes entre ciência e prática, entre produtor e consumidor. Essa união foi decisiva para transformar a suinocultura brasileira em referência mundial”, afirmou a representante de Silvia Massruhá, presidente da Embrapa.
O Ministério da Agricultura (MAPA) destacou a parceria público-privada que fortaleceu a sanidade e o melhoramento genético. “São mais de 8 milhões de registros emitidos desde 1958. A ABCS é fundamental para garantir qualidade, rastreabilidade e credibilidade ao setor”, ressaltou Bárbara Agate Cordeiro, coordenadora-geral de Insumos Pecuários.
ABCS – Um legado de união e inovação
Encerrando a cerimônia, ficou clara a mensagem de continuidade e compromisso com o futuro. “A suinocultura brasileira chegou até aqui porque acreditou nas pessoas. E vai seguir crescendo porque continua acreditando na união”, afirma Marcelo.
O SNDS, ao celebrar o legado da ABCS, mostrou que a força da suinocultura brasileira está na combinação de história, técnica, política e marketing, mas, sobretudo, nas pessoas que sonharam e construíram um setor moderno, competitivo e de projeção internacional.
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