O segundo dia do Encontro de Confinamento e Recriadores da Scot Consultoria avançou para um tema central da pecuária moderna: como competir em um mercado cada vez mais volátil, pressionado por custos, geopolítica e mudanças estruturais globais. Nas palestras da tarde, especialistas reforçaram que o setor vive um momento de transformação, em que eficiência, escala e gestão de risco deixam de ser diferenciais e passam a ser obrigatórios.
A complexidade do cenário atual foi sintetizada por Octávio Guimarães, da ADG Beef, ao afirmar que “hoje na América do Norte e talvez no mundo inteiro a gente vive a pecuária mais complexa da história”. Segundo ele, o ambiente globalizado, com forte presença do mercado financeiro e alta dependência de importações, tem comprimido margens e exigido adaptação constante dos sistemas produtivos.
Pecuária global: menos previsível e mais desafiadora
Ao analisar o cenário norte-americano, Guimarães destacou que “os Estados Unidos têm hoje 86 milhões de cabeças de gado”, uma queda relevante frente aos “95 milhões de cabeças em 2020”, reflexo de fatores como seca, custo de produção e sucessão. Ainda assim, ele pontuou que o país conseguiu manter a produção com ajustes técnicos: “quando essa adaptação cíclica acontece cria a capacidade de, mesmo com um rebanho em declínio, a produção de carne ainda ser crescente”.

Mesmo com avanços tecnológicos, o potencial de crescimento dos EUA é limitado. “A proporção de crescimento que os Estados Unidos têm é minúscula perto da proporção de crescimento que o Brasil tem ou pode vir a ter”, afirmou, reforçando a vantagem competitiva brasileira no cenário global.
Custos, insumos e a pressão sobre as margens
A discussão sobre custos ganhou protagonismo com Felipe Fabbri, da Scot Consultoria, que alertou para a dinâmica de preços ao longo do ano. “O mercado futuro está precificando uma curva invertida de preços em 2026”, com um primeiro semestre mais firme e pressão a partir do meio do ano.
Segundo ele, o confinador ainda encontra um cenário positivo, mas mais sensível: “quem está entrando no primeiro giro hoje vai entregar a boiada daqui 106 dias e a margem ainda é positiva”, embora o aumento no preço do boi magro possa apertar os resultados. Fabbri também foi direto ao ponto ao tratar da necessidade de profissionalização: “dormir tranquilo não vai ser uma questão de sorte, vai ser cada vez mais uma questão de gestão de risco”.

Os dados reforçam esse desafio: “44% dos produtores usam algum tipo de gestão de risco, mas 60% ainda não utilizam essas ferramentas”, destacou, acrescentando que o ambiente atual é de “mercado cada vez mais volátil, incerto e trazendo mais riscos”.
Complementando a análise, Lorenzo Cracco destacou o peso dos insumos na equação produtiva. “Milho e soja tendem a puxar os custos”, enquanto o Brasil segue dependente do mercado externo em fertilizantes. “O país importou 45,5 milhões de toneladas no último ano”, lembrando ainda que decisões geopolíticas, como restrições de exportação, podem impactar diretamente a produção.
Reposição cara e necessidade de escala
No campo da reposição, o cenário também exige atenção. Pedro Gonçalves reforçou que “o futuro já mudou de direção” e que “2026 deve ser um ano muito bom”, sustentado por demanda aquecida. No entanto, o custo de reposição altera a equação do produtor.

Gustavo Duprat alertou que “a reposição está em patamares muito altos”, com o bezerro atingindo “a maior média anual de preço da história em São Paulo”. Para Pedro, isso exige mudanças na estratégia: “seu investimento começa a ser maior, sua rentabilidade é menor e você precisa expandir a produção para compensar”.
Apesar do cenário positivo, Duprat reforçou o alerta: “a demanda é muito forte, mas atenção ao custo de reposição”, destacando também a possibilidade de movimentos internacionais influenciarem o mercado, como eventuais ajustes na demanda chinesa.
Logística, clima e novas estratégias produtivas
A competitividade também passa pela geografia da produção. Luiz Augusto Dumoncel destacou que “estamos enfrentando distâncias cada vez maiores para reposição”, agravadas pelo custo do diesel. No Sul, desafios climáticos têm moldado decisões estratégicas: “o milho tem ficado em áreas irrigadas por conta da instabilidade climática”.

Ele também ressaltou a competição por insumos: “o Rio Grande do Sul produz cerca de 5 milhões de toneladas de milho e consome 9 milhões”, o que torna o estado estruturalmente deficitário e aumenta a disputa com outras cadeias, como aves e suínos.
Brasil como protagonista global
Os dados do Confina Brasil reforçam o avanço estrutural da pecuária nacional. Diego Rossin destacou que “o Brasil hoje é referência em produção de alimentos” e que o país “tem garantido a segurança alimentar do mundo”, atendendo entre “500 e 600 milhões de pessoas”.

A evolução produtiva também é evidente. Julia Zenatti apontou que o peso médio de carcaça saiu de “13,27 arrobas na década de 70 para 17,15 arrobas atualmente”, resultado de avanços em genética, nutrição e manejo. Além disso, a intensificação tem sido decisiva: “a produtividade cresceu mesmo com a redução de áreas de pastagem”.
O confinamento segue em expansão, com crescimento expressivo. “A gente chegou a 22% de crescimento em 2025 e as projeções para 2026 são positivas”, destacou Julia, enquanto Rossin completou que “67% dos confinamentos já operam o ano todo”, consolidando a ferramenta como eixo central da produção.
Gestão de risco deixa de ser opcional
Fechando o bloco, Leandro Bovo, da Radar Investimentos, reforçou que a gestão de risco será determinante para a sustentabilidade do setor. “A gente está muito dependente da China e isso aumenta a necessidade de proteção de preço”, afirmou.

Ele destacou o avanço do mercado financeiro ligado ao agro: “o mercado cresceu sete vezes nos últimos anos e ainda tem muito espaço para crescer”. Apesar disso, o Brasil ainda está atrás dos Estados Unidos em maturidade: “lá o mercado gira dezenas de vezes a produção, enquanto aqui gira de duas a três vezes”.
Bovo foi direto ao ponto ao destacar as ferramentas disponíveis: “qualquer estratégia de proteção de preço é possível hoje no mercado futuro”, indicando que o desafio não é acesso, mas adoção.
Um novo padrão de competitividade
As palestras da tarde deixaram claro que a pecuária entra em uma nova fase, marcada por maior exposição a riscos e necessidade de decisões estratégicas mais precisas. Em um ambiente globalizado, com custos pressionados e variáveis externas cada vez mais relevantes, produzir bem já não é suficiente.
O recado dos especialistas converge: eficiência produtiva, gestão de risco e leitura de mercado serão os pilares para sustentar a competitividade nos próximos anos.
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