A busca dos consumidores por saúde, funcionalidade e maior qualidade nutricional está acelerando uma transformação na indústria global de alimentos e abrindo espaço para uma nova fronteira no mercado de proteínas: a nutrição de precisão.
A avaliação foi feita por Gilberto Tomazoni, CEO Global da JBS, durante o Bradesco BBI Agro Summit, realizado na última quinta-feira (10), em São Paulo. Ao lado de Pedro Fernandes, sócio da McKinsey & Company, e sob moderação de Henrique Brustolin, do Bradesco BBI, o executivo discutiu as mudanças no comportamento dos consumidores e os impactos sobre a indústria de alimentos.
Segundo Tomazoni, a proteína está deixando de ser percebida apenas como um nutriente associado à saciedade ou à formação muscular e passa a ser avaliada também sob aspectos como composição, digestibilidade, perfil de aminoácidos e potencial funcional. “Nós vemos uma mudança estrutural que vai afetar tudo o que a gente entende como alimentação. Está acontecendo uma redescoberta da proteína como indutora de saúde. O consumidor não está olhando só proteína, mas o perfil de aminoácidos dessas proteínas”, afirmou.
Proteína ganha espaço na agenda de saúde
Durante o painel, os participantes também analisaram os efeitos dos medicamentos análogos de GLP-1 sobre os hábitos de consumo no Brasil.
Para Tomazoni, esse movimento faz parte de uma transformação mais ampla, na qual o consumidor passa a prestar maior atenção à qualidade nutricional, composição e funcionalidade dos alimentos.
Nesse cenário, a proteína ganha uma nova dimensão dentro da alimentação. Além da quantidade consumida, aspectos relacionados à qualidade e às características específicas dos diferentes tipos de proteína passam a influenciar as escolhas dos consumidores.
A mudança cria oportunidades para a indústria desenvolver produtos com maior valor agregado e aplicações que vão além do consumo tradicional de carnes e alimentos proteicos.

Biotecnologia amplia aplicações da proteína
Para acompanhar essa transformação, a JBS vem direcionando investimentos para biotecnologia, pesquisa e desenvolvimento, buscando ampliar as aplicações e o valor agregado das matérias-primas provenientes de sua cadeia produtiva.
Entre as tecnologias citadas por Tomazoni está a hidrólise, processo que permite a obtenção de componentes específicos a partir das proteínas. A companhia também trabalha na identificação e aplicação de peptídeos bioativos, com potencial para diferentes soluções voltadas à nutrição e à saúde.
Uma das frentes está concentrada na JBS Biotech, centro de inovação em biotecnologia da companhia localizado em Florianópolis. A unidade é voltada ao desenvolvimento de ciência aplicada à cadeia produtiva, com foco na criação de novas soluções e na agregação de valor à produção de alimentos.
Outra operação destacada pelo executivo foi a Genu-in, empresa da JBS Novos Negócios especializada em peptídeos de colágeno e gelatina. A companhia desenvolve ingredientes e soluções para aplicações em alimentos, bebidas, suplementos e produtos funcionais, combinando pesquisa, comprovação científica e capacidade de produção em escala.
Frango também acompanha mudança no consumo
Tomazoni citou ainda o desempenho da Just Bare, marca da Pilgrim’s Pride, controlada pela JBS, como exemplo de como a demanda por proteínas vem se transformando em outros mercados.
Nos Estados Unidos, a marca alcançou US$ 1 bilhão em faturamento em menos de cinco anos, impulsionada pela demanda por frango congelado e fresco.
O desempenho reforça, na avaliação do executivo, o potencial de crescimento de categorias de proteína associadas a atributos valorizados pelos consumidores, como praticidade, qualidade e perfil nutricional.
Produtividade será fundamental
Apesar das oportunidades, a expansão de alimentos com maior valor nutricional precisa ser acompanhada por ganhos de eficiência, segundo Tomazoni.
Para o executivo, a indústria terá de combinar tecnologia, escala e inovação para desenvolver novos produtos sem elevar excessivamente os preços ao consumidor. “Não dá para repassar custos para o consumidor sob a justificativa de sustentabilidade. A grande palavra é aumentar a produtividade com tecnologia, escala e inovação para reduzir custos”, afirmou.
A busca por produtividade, portanto, deve caminhar lado a lado com a agenda de inovação. Para a indústria de proteína animal, isso significa encontrar formas de aproveitar melhor as matérias-primas, desenvolver novos ingredientes e ampliar o número de aplicações possíveis para os produtos provenientes da cadeia.
Brasil ganha relevância na segurança alimentar
O CEO Global da JBS também relacionou as transformações na indústria de alimentos à segurança alimentar global. Segundo Tomazoni, a pandemia reforçou entre os países a percepção de que o abastecimento de alimentos é uma questão estratégica. Ao mesmo tempo, nem todas as nações possuem condições de produzir internamente toda a proteína necessária para atender à sua população.
Nesse contexto, o Brasil aparece, na avaliação do executivo, como um importante fornecedor global, graças à capacidade de produção e à possibilidade de complementar a oferta de mercados que não são autossuficientes. “A segurança alimentar virou questão de Estado em todos os países pós-pandemia. Nem todos conseguirão ser autossuficientes, e o Brasil é o parceiro ideal para complementar essa oferta”, afirmou.
A combinação entre demanda global por proteína, busca por alimentos mais funcionais e capacidade produtiva brasileira coloca a indústria nacional diante de uma oportunidade que vai além do aumento do volume exportado: agregar tecnologia e valor às proteínas e aos seus derivados para atender a um consumidor cada vez mais atento à relação entre alimentação e saúde.



Nenhuma discussão ainda. Seja o primeiro a comentar.