Um projeto inovador de pesquisa envolvendo instituições do Brasil, Canadá e Estados Unidos pode transformar a forma como a qualidade da carne é avaliada em toda a cadeia produtiva, do campo à mesa. Usando inteligência artificial (IA) e visão computacional, pesquisadores criaram um modelo capaz de prever a maciez e o teor de gordura intramuscular de cortes bovinos e suínos com base em fotos tiradas com um celular comum.
O estudo, publicado na revista científica Meat Science, contou com a participação do brasileiro Dário Oliveira, da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV EMAp), e envolveu também cientistas da University of Guelph (Canadá) e da University of Wisconsin-Madison (EUA). “O objetivo foi aplicar ciência de dados a um problema real: como prever a qualidade da carne de forma acessível, rápida e precisa”, explica Dário Oliveira.
Como funciona o modelo?
A equipe treinou redes neurais com 1.438 imagens de carne crua – 924 de contrafilé bovino e 514 de lombo suíno – registradas em ambiente controlado com iluminação padronizada. Essas imagens foram associadas a medições laboratoriais como a força de cisalhamento (que indica o grau de maciez) e o percentual de gordura intramuscular (IMF).
A IA foi capaz de prever com precisão esses atributos sensoriais, alcançando taxa de acerto de 76,5% na maciez da carne bovina e de 81,5% para carne suína. Para gordura intramuscular, a acurácia foi de 77% (bovina) e 79% (suína) – números significativamente superiores à percepção dos 130 consumidores que participaram da fase de validação do estudo.
“O consumidor geralmente escolhe com base na aparência, mas esse julgamento é subjetivo. Nossa IA mostrou desempenho muito mais consistente e objetivo”, explica o pesquisador Guilherme Lobato Menezes, líder do projeto.

Potencial para o mercado e o produtor
Inicialmente, o sistema foi testado em apenas dois cortes: contrafilé bovino e lombo suíno, mas os pesquisadores já planejam expandir o modelo para outros cortes, condições de iluminação e diferentes raças e origens. No futuro, a tecnologia poderá ser adaptada para o desenvolvimento de aplicativos móveis voltados tanto ao consumidor quanto à indústria da carne.
Segundo os cientistas, o uso da IA poderá contribuir para precificação mais justa e transparente, com base em atributos mensuráveis e não apenas na aparência visual. “Isso tem impacto direto em toda a cadeia: do produtor, que poderá valorizar melhor o seu produto, ao consumidor, que terá mais segurança ao comprar”, afirma Dário Oliveira.
Com o Brasil figurando entre os principais exportadores de carne do mundo, inovações tecnológicas como essa reforçam a importância da ciência aplicada ao agronegócio.
Fonte: FGV EMAp, adaptado pela equipe FeedFood
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