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Geopolítica Alimentar expõe nova ordem mundial do comércio de carnes

Painel do World Meat Congress 2025, em Cuiabá, reuniu especialistas para debater como tensões políticas, barreiras comerciais e estratégias protecionistas redesenham o mapa global da segurança alimentar.

Geopolítica Alimentar

Caroline Mendes, de Cuiabá (MT)

Em um mundo cada vez mais fragmentado, o comércio internacional de carnes se tornou um tabuleiro de disputas políticas, econômicas e ambientais. Essa foi a tônica do painel “Geopolítica Alimentar”, realizado durante o World Meat Congress 2025, em Cuiabá, que reuniu lideranças do agronegócio e especialistas em comércio exterior para discutir os impactos das novas políticas protecionistas e das mudanças no equilíbrio global da oferta e da demanda por proteína animal.

Abrindo a sessão, o professor Marcos Sawaya Jank, do Insper, alertou para a transformação profunda no papel dos Estados Unidos no cenário global. Segundo ele, o país que por décadas foi o principal defensor do livre comércio agora adota uma postura cada vez mais protecionista, baseada em substituição de importações e tarifas elevadas.

“É surpreendente ver os Estados Unidos, que criaram as regras do comércio mundial, se voltando ao protecionismo. Isso ameaça cadeias globais inteiras e pode desorganizar o abastecimento de alimentos”, afirmou Jank.

O especialista ressaltou ainda que o centro de gravidade da produção de alimentos migrou para o Hemisfério Sul, com Brasil, Argentina e outros países da América do Sul assumindo protagonismo nas exportações de carnes e grãos. “O comércio de alimentos hoje não é mais entre ricos e pobres, mas entre países em desenvolvimento. E o Brasil ocupa papel central nessa nova geografia”, observou.

Entre os fatores que sustentam essa liderança, Jank destacou a adoção de sistemas integrados de lavoura, pecuária e floresta (ILPF), que aumentam a produtividade e reduzem a pressão por novas áreas. “A integração entre grãos e proteína animal é uma revolução tropical. Produzimos soja, milho e carne na mesma região, o que gera eficiência e sustentabilidade”, disse.

Geopolítica Alimentar

No entanto, os riscos geopolíticos se intensificam. Jank apontou que o mundo vive uma era de volatilidade e fragmentação, em que o comércio é cada vez mais “gerido pela política e não pela competitividade”. Ele alertou para o avanço das barreiras não tarifárias, como exigências ambientais e padrões de bem-estar animal, que podem se tornar novos instrumentos de restrição comercial.

Na sequência, o diplomata britânico John Clarke, ex-diretor de Assuntos Internacionais da Comissão Europeia, traçou um panorama das mudanças na política comercial da União Europeia, marcada por contradições entre o discurso ambiental e o protecionismo econômico. Clarke lembrou que o bloco, embora defenda metas de sustentabilidade, tem reforçado barreiras internas para conter importações agrícolas.

“A União Europeia exporta valores de sustentabilidade, mas também protege seus produtores. O novo Parlamento europeu é mais populista e menos sensível ao meio ambiente”, destacou.

Sobre o acordo Mercosul–União Europeia, Clarke afirmou que o tratado está próximo de ser aprovado — impulsionado mais pela necessidade geopolítica da Europa do que por convicção liberal. “Com o cenário internacional tenso, a Europa precisa de aliados. Esse acordo é mais uma questão de necessidade do que de ideologia”, avaliou.

Já o norte-americano Ted McKinney, ex-subsecretário de Comércio do Departamento de Agricultura dos EUA, defendeu o conceito de “fair trade” (comércio justo) em oposição ao livre comércio irrestrito. “Não existe comércio totalmente livre. O que buscamos é equidade. O objetivo dos Estados Unidos não é vantagem injusta, mas condições equilibradas”, afirmou, rebatendo críticas sobre o aumento das tarifas norte-americanas.

O representante brasileiro Francisco Castro, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), reforçou a preocupação com o impacto das barreiras não tarifárias e defendeu padrões baseados em ciência. Para ele, a imposição de regras ambientais e sanitárias sem respaldo técnico ameaça a competitividade de produtores de países emergentes.

Moderado por Kim Baccus, da National Cattlemen’s Beef Association (EUA), o debate terminou com consenso sobre um ponto: o sistema multilateral de comércio, representado pela Organização Mundial do Comércio (OMC), vive uma crise de credibilidade. “As instituições criadas após a Segunda Guerra já não dão conta dos desafios atuais”, resumiu Jank. “Estamos voltando a um mundo de negociações bilaterais e de poder, não mais de regras.”

Para o público do World Meat Congress, o painel deixou clara a mensagem de que o agronegócio precisará aliar diplomacia, tecnologia e sustentabilidade para manter o fluxo global de alimentos diante das novas tensões políticas e econômicas.

“A segurança alimentar mundial depende da cooperação entre países produtores e consumidores”, concluiu Baccus. “O desafio é garantir que a política não tire a comida do prato das pessoas.”

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