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El Niño testa a proteína animal do grão à câmara fria

Irregularidade climática pressiona ração, ambiência e cadeia do frio.

Para a cadeia da proteína animal, o El Niño não termina na porteira. A chuva que chega fora de hora pode atrasar o plantio da soja, reduzir a janela do milho, repercutir nos custos da alimentação animal e, mais adiante, somar-se ao calor nas granjas, às interrupções de energia e à perda de eficiência em frigoríficos e câmaras frias. O risco é sistêmico e a adaptação também precisa ser.

Em atualização divulgada em 13 de agosto de 2026, o Climate Prediction Center, da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), estimou em mais de 90% a probabilidade de o episódio alcançar intensidade muito forte durante um período que abrange grande parte da primavera e do verão brasileiros. A expectativa é de que o fenômeno persista até a primavera de 2027 no Hemisfério Norte, correspondente ao outono no Brasil.

O segundo boletim do Painel El Niño 2026-2027 também aponta a continuidade do fenômeno pelo menos até o início de 2027. Entre os sinais para o Brasil estão maior possibilidade de chuvas acima da média no Sul, volumes abaixo da média em parte do centro-norte e temperaturas elevadas.

As previsões, contudo, não representam uma sentença para cada município ou propriedade. Os efeitos variam conforme a região, a época do ano e as condições locais. Como resumiu a secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Celeste Saulo: “Previsões, por si só, não evitam perigos; as pessoas, sim”, em tradução livre.

Para a proteína animal, transformar previsão em ação significa proteger toda a cadeia, desde a produção dos ingredientes da ração até a conservação do alimento processado. Mais do que uma resposta emergencial, trata-se de uma agenda de sustentabilidade: evitar replantios, reduzir desperdícios, preservar o bem-estar animal, usar energia com eficiência e impedir o descarte de alimentos.

O risco começa na ração

Em Mato Grosso, um dos principais pontos de atenção não é apenas o volume acumulado de chuva, mas sua distribuição ao longo da safra. Uma precipitação inicial pode estimular a semeadura e ser seguida por uma estiagem prolongada, comprometendo a emergência das plantas e provocando replantios.

“O principal problema do El Niño para o Cerrado não é necessariamente chover menos durante o ano, mas chover na hora errada. Muitas vezes ocorre uma chuva inicial em setembro ou outubro, que incentiva o plantio, seguida por um período prolongado de estiagem. Isso pode comprometer a emergência das plantas, exigir replantios e atrasar toda a janela agrícola”, explica Talis Melo Claudino, gerente técnico e de serviços da Fiagril.

O atraso da soja também encurta o período disponível para a implantação do milho de segunda safra. Com uma janela menor, aumenta a possibilidade de a cultura atravessar fases importantes do desenvolvimento durante meses de menor disponibilidade hídrica. Para as cadeias de aves e suínos, que utilizam milho e farelo de soja como componentes centrais das dietas, esse risco merece acompanhamento próximo.

Pesquisador da Embrapa Soja, José Renato Bouças Farias reforça que os efeitos do fenômeno não se manifestam apenas por meio da chuva. “Às vezes, o fenômeno provoca maiores temperaturas, menor umidade do ar e atraso no início das chuvas para a safra de verão na região Centro-Oeste.”

Entre as recomendações da Embrapa para a safra 2026/27 estão o respeito ao Zoneamento Agrícola de Risco Climático, a manutenção de palhada sobre o solo, o escalonamento da semeadura e a utilização de cultivares com ciclos diferentes. Sementes de alto vigor e um sistema radicular bem desenvolvido também ampliam a capacidade das plantas de explorar a umidade disponível em camadas mais profundas.

A dimensão econômica dessa conexão aparece nos números. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que Mato Grosso tenha produzido 51,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26, enquanto a produção brasileira de milho alcançou 143 milhões de toneladas.

Já os dados de julho de 2026 da Central de Inteligência de Aves e Suínos da Embrapa mostram que a alimentação representou 72,5% do custo de produção do suíno vivo em Santa Catarina e 62,5% do custo do frango de corte no Paraná.

Isso não significa que o El Niño necessariamente provocará alta nos preços da ração. Cotações também dependem de estoques, exportações, câmbio, logística e do desempenho das lavouras em diferentes regiões. Mas o peso da alimentação nos custos deixa claro por que qualquer risco sobre soja e milho precisa entrar no planejamento da produção animal.

Na granja, calor vira custo

Quando o risco climático chega às granjas, ele assume a forma de ambiência. Temperaturas elevadas podem reduzir o consumo de ração, afetar o desempenho dos animais e aumentar a demanda por água, ventilação e resfriamento. Na bovinocultura, a irregularidade das chuvas também interfere na formação das pastagens, na oferta de água e na estratégia de suplementação.

A preparação deve incluir revisão de ventiladores, exaustores, nebulizadores, sistemas de abastecimento de água, sensores, alarmes e fontes alternativas de energia. Isolamento térmico, vedação e circulação adequada de ar também ajudam a evitar que o controle ambiental dependa apenas do aumento do consumo elétrico.

A adaptação climática ajuda a proteger carnes, pescados, ovos e lácteos da produção à conservação. Crédito: Reprodução.

“A manutenção de uma temperatura ideal reduz o consumo de energia, resultando em economia para o produtor e menor impacto ambiental”, afirma Paulo Giovanni de Abreu, pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, em publicação sobre o condicionamento térmico de instalações avícolas.

A adaptação sustentável, portanto, não está em simplesmente instalar mais equipamentos, mas em integrar estrutura, manutenção, automação e manejo. Um sistema eficiente é aquele que preserva o conforto dos animais e a produtividade sem transformar cada elevação de temperatura em desperdício de água ou energia.

A indústria também precisa se proteger

Depois da propriedade rural, o mesmo evento climático continua pressionando a cadeia. Umidade elevada, poeira, ventos intensos, variações de temperatura e alagamentos podem atingir fábricas de ração, unidades de processamento, frigoríficos, centros de distribuição e áreas de armazenamento.

Nas docas, a abertura prolongada de acessos facilita a troca de ar com o ambiente externo. Em áreas climatizadas, isso pode aumentar o esforço dos sistemas de refrigeração, favorecer condensações e dificultar o controle de umidade. Em situações mais graves, a entrada de partículas ou água pode comprometer matérias-primas, equipamentos e condições de higiene.

“Preparar a infraestrutura não significa apenas reagir quando um evento extremo acontece, mas antecipar vulnerabilidades e reduzir os pontos de exposição da operação”, defende Giordania R. Tavares, CEO da Rayflex e especialista em gestão industrial.

A resposta, porém, não está na aquisição isolada de um equipamento. O primeiro passo é mapear fluxos de pessoas, veículos e materiais, identificar os ambientes mais expostos e verificar portas, vedações, docas, coberturas, drenagem, câmaras frias e salas de produção. Também é necessário medir o tempo de abertura dos acessos, revisar planos de manutenção e definir como a unidade funcionará diante de uma interrupção de energia ou de logística.

Cada contaminação ou descarte evitado preserva não apenas o valor do produto, mas toda a água, a energia, a ração e o trabalho empregados ao longo da cadeia.

O desafio sustentável da cadeia do frio

A refrigeração ocupa uma posição central nesse debate. Estimativas globais do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) indicam que a falta de cadeias do frio robustas contribui para a perda de 526 milhões de toneladas de alimentos por ano, o equivalente a aproximadamente 12% da produção mundial.

O organismo calcula ainda que a cadeia do frio responda por cerca de 4% das emissões globais de gases de efeito estufa, considerando tanto as tecnologias de refrigeração quanto as perdas provocadas pela conservação insuficiente. Os números abrangem todos os grupos de alimentos e não representam um recorte específico da proteína animal brasileira, mas ajudam a dimensionar o duplo desafio do setor.

Não basta ampliar a refrigeração sem observar seu consumo energético e seus impactos. Também não é possível buscar eficiência reduzindo a segurança dos alimentos. A resposta passa por equipamentos mais eficientes, manutenção preventiva, bom dimensionamento das instalações, uso de refrigerantes com menor potencial de aquecimento global, energia renovável quando viável e monitoramento contínuo das temperaturas.

Em frigoríficos e centros de distribuição, a resiliência também depende de redundância energética, alarmes, registros de temperatura e procedimentos claros para panes. Quanto mais cedo um desvio for identificado, menor será o risco de perda de produto.

Prevenção antes do pico do fenômeno

Um plano de contingência para a cadeia da proteína animal precisa conectar a previsão meteorológica a decisões objetivas. Entre os pontos que devem ser avaliados estão:

  • monitoramento da umidade do solo, das previsões regionais e das janelas definidas pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático;
  • diversificação de cultivares, fornecedores, origens de grãos e rotas logísticas, evitando dependência excessiva de uma única alternativa;
  • inspeção dos sistemas de ventilação, resfriamento, abastecimento de água, sensores, alarmes e geração de energia nas propriedades;
  • revisão de coberturas, drenagem, vedações, docas, portas e câmaras frias nas unidades industriais;
  • definição de responsáveis, limites de alerta e procedimentos para ondas de calor, falta de energia, bloqueios logísticos e desvios de temperatura;
  • acompanhamento de indicadores como consumo energético por tonelada, tempo de abertura de câmaras, replantios, paradas operacionais e descarte de produtos.

O planejamento deve considerar as particularidades de cada região e elo produtivo. O mesmo El Niño que aumenta a chuva no Sul pode produzir estiagens ou maior irregularidade no Centro-Oeste. Por isso, uma projeção nacional precisa ser combinada com informações locais e atualizada ao longo da safra.

“Não controlamos o clima, mas podemos nos preparar para enfrentá-lo. Decisões antecipadas e um manejo bem planejado são fundamentais para reduzir riscos e preservar a rentabilidade das lavouras”, conclui Talis Melo Claudino.

Para a cadeia da proteína animal, essa preparação não pode ficar restrita ao campo, à granja ou ao frigorífico. A resiliência nasce da conexão entre esses elos. Do grão à câmara fria, adaptar-se ao clima significa produzir com menos perdas, usar melhor os recursos e manter alimentos seguros mesmo quando as condições externas deixam de seguir o calendário esperado.

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