O avanço do El Niño deve acentuar os contrastes de chuva no Brasil entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, com possíveis efeitos sobre o abastecimento urbano e a agropecuária. A previsão consta do quinto boletim do Painel El Niño, divulgado em 29 de outubro por órgãos federais, entre eles o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
O levantamento aponta maior probabilidade de chuvas acima da média no Sul e em partes do Sudeste e do Centro-Oeste. Já grande parte do Norte e áreas do Nordeste e do Centro-Oeste tendem a registrar precipitações abaixo do normal. As temperaturas devem superar a média em quase todo o país.
Na produção rural, o Cemaden alerta que a falta de chuva pode prejudicar lavouras de sequeiro, reduzir a disponibilidade de forragem e água para os rebanhos e atrasar o plantio no Matopiba, região que abrange áreas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. No Sul, o excesso de umidade pode dificultar a colheita do trigo e a semeadura da soja no Rio Grande do Sul.
Mais chuva não garante recuperação dos reservatórios
O professor Alysson Nunes Diógenes, do Programa de Pós-Graduação em Gestão Ambiental da Universidade Positivo, defende investimentos antes das situações críticas. “Não se deve esperar a próxima crise para construir a infraestrutura necessária. É durante os períodos de abundância que se constrói a segurança para a estiagem”, afirma.

Receber mais chuva, entretanto, não significa recuperar os reservatórios na mesma proporção. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) informa que, em 2015, as vazões afluentes ao Sistema Cantareira corresponderam, em média, a apenas 50% do padrão histórico.
A capacidade de armazenamento depende também da infiltração no solo, da cobertura vegetal e da conservação das bacias hidrográficas. Nas cidades, a impermeabilização amplia o escoamento superficial e pode agravar alagamentos durante precipitações intensas.
Investimentos e planejamento de longo prazo
O Atlas Águas, publicado pela ANA em 2021, estimou a necessidade de R$ 110 bilhões em investimentos até 2035 para melhorar o abastecimento urbano. O cálculo inclui produção e distribuição de água, substituição de estruturas, redução de perdas e medidas de gestão.
A gestão hídrica também interessa diretamente ao agronegócio. Segundo dados da ANA referentes a 2024, a agricultura irrigada respondeu por 50,3% da água retirada no país para usos consuntivos, o que reforça a importância de planejamento e eficiência.
Entre as prioridades apontadas por Diógenes estão ampliar reservas, diversificar fontes de captação, integrar sistemas e proteger mananciais. Para o especialista, essas medidas precisam considerar tanto estiagens prolongadas quanto episódios de chuvas intensas.



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