A inadimplência do crédito rural contratado por pessoas físicas no Brasil, medida por parcelas vencidas há mais de 90 dias, atingiu 9,7% em agosto de 2026, maior marca da série do Banco Central, ante 0,8% em dezembro de 2022. O diagnóstico consta de estudo divulgado em 19 de outubro pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, assinado por Lucilio R. A. Alves e Geraldo S. A. de C. Barros, com dados de 2013 a 2026.
Segundo os pesquisadores, a alta não se explica apenas pelo tamanho da dívida: em 2025, o saldo de financiamentos equivalia a 94% da renda anual da agropecuária, dentro do intervalo de 87% a 109% observado entre 2013 e 2019. A diferença está no encarecimento do crédito, nas fontes de financiamento e na concentração dos compromissos.
Juros mais altos ampliam pressão financeira
A taxa média das novas concessões de crédito rural a pessoas físicas passou de 6,3% ao ano em 2021 para 12,2% em 2025. A despesa anual com juros foi estimada em R$ 34 bilhões e R$ 99 bilhões, respectivamente, a preços de 2025, em cálculo aproximado que não equivale ao valor efetivamente pago por todos os produtores.
As operações a taxas de mercado, mais sensíveis à Selic, apresentavam inadimplência de 17,6% em agosto, contra 3,8% nas linhas a taxas controladas. Embora representassem cerca de 43% do saldo financiado a pessoas físicas, concentravam aproximadamente 77% do valor em atraso. As fontes privadas com taxas livres passaram de 5% das contratações em 2013 para 47% em 2023.

Dívidas problemáticas somam R$ 205 bilhões
A chamada carteira problemática somava R$ 205 bilhões em agosto, equivalentes a 23,8% do crédito rural registrado no Sicor. Desse total, R$ 105 bilhões estavam renegociados, R$ 31 bilhões prorrogados, R$ 21 bilhões em atraso e cerca de R$ 48 bilhões inadimplentes. Assim, aproximadamente três quartos desse montante não integravam o saldo formalmente inadimplente.
O Rio Grande do Sul concentrava R$ 44,2 bilhões em crédito problemático, com inadimplência de 3,2%. Em Goiás, o índice era de 8,8%; no Maranhão e no Tocantins, superava 15%. O estudo associa a maior pressão sobre os grãos à queda de 28% nos preços reais desde 2021 e à piora da relação de troca com fertilizantes, em contraste com a situação da pecuária.
Renegociação ainda apresenta alcance limitado
A pesquisa também aponta que 64% dos investimentos agropecuários realizados em 2025 foram financiados fora do crédito rural convencional, incluindo recursos próprios, CPRs, fornecedores e leasing. Os dados não permitem identificar quanto dessa parcela representa dívida.
Segundo o estudo, a MP 1.376/2026 havia viabilizado a renegociação de R$ 5,98 bilhões até 5 de outubro, aproximadamente 5% do valor potencial estimado. Os autores defendem distinguir dificuldades temporárias de caixa de problemas estruturais de pagamento, por meio de análises financeiras individualizadas das propriedades.



Nenhuma discussão ainda. Seja o primeiro a comentar.