Um biodigestor experimental de 5 mil litros, instalado em abril de 2026 pela Embrapa Agroenergia e associado à criação de cinco suínos confinados, apresentou produção média inicial de aproximadamente 3 m³ de biogás por dia. Nas condições avaliadas, o volume é suficiente para atender à demanda de cocção de alimentos de uma propriedade com até cinco pessoas. O resultado mostra o potencial da tecnologia em pequena escala, mas a viabilidade econômica ainda precisa ser comprovada. Para os suinocultores, a decisão de investir depende de fatores como disponibilidade de dejetos, porte da propriedade, custos de implantação e capacidade de transformar o gás produzido em economia ou receita.
Segundo a pesquisadora Itânia Pinheiro Soares, da Embrapa Agroenergia, o dimensionamento deve começar pela quantidade e pelas características dos resíduos, pelo número de animais, pela disponibilidade de água e pelas condições de operação. Também é necessário definir previamente a utilização do biogás e a destinação do digestato, material resultante da biodigestão. Em propriedades maiores, o volume de dejetos pode favorecer aplicações energéticas mais amplas, enquanto sistemas menores podem atender demandas específicas. “No nosso caso, na Embrapa Agroenergia estamos trabalhando justamente com essa perspectiva de adequação da tecnologia à realidade do produtor”, explica.
Investimento pode variar conforme porte e aplicação
A diferença de escala também aparece nos custos. O analista Ricardo Luís Radis Steinmetz, da Embrapa Suínos e Aves, explica que biodigestores de baixo custo destinados à agricultura familiar podem exigir investimentos entre R$ 5 mil e R$ 10 mil, especialmente quando a finalidade é substituir o gás de cozinha. Em projetos de maior porte voltados à suinocultura, os valores mencionados pelo especialista variam de aproximadamente R$ 250 mil a R$ 1,5 milhão, conforme a estrutura e a finalidade. Já grandes centrais de tratamento podem ultrapassar R$ 100 milhões, em modelos de negócio distintos daqueles adotados individualmente nas granjas. “Os retornos vão depender muito da estratégia de como essa energia vai ser utilizada”, afirma.
Steinmetz aponta que projetos com elevado autoconsumo energético, como granjas que possuem fábrica de ração ou utilizam energia no aquecimento de crechários, podem apresentar perspectivas mais favoráveis. Nessas condições, o prazo estimado de retorno pode ficar entre cinco e sete anos, ou ser inferior. O analista relata ter acompanhado casos com expectativa de recuperação do investimento entre dois e três anos, mas ressalta que os resultados dependem da configuração de cada empreendimento. “Tudo isso é dependente do processo de autoconsumo, que basicamente é o abatimento de um custo de produção que a própria propriedade, que a própria suinocultura já teria.”

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Essas estimativas não podem ser automaticamente aplicadas ao experimento desenvolvido pela Embrapa Agroenergia. Itânia ressalta que o protótipo instalado em abril ainda está em avaliação e que é necessário acompanhar a regularidade da produção, os custos operacionais e o desempenho ao longo do tempo. “Por isso, neste momento, nosso foco é caracterizar o desempenho do sistema e reunir informações que permitam avaliar a viabilidade econômica com maior segurança, sem antecipar um prazo de retorno que ainda não foi determinado”, esclarece. Além da construção ou aquisição do equipamento, a análise financeira deve contemplar instalação hidráulica, condução e eventual tratamento do gás, mão de obra, monitoramento, limpeza, inspeções e substituição de componentes.
Energia pode reduzir custos dentro da granja
O aproveitamento energético é uma das principais alternativas para melhorar a rentabilidade dos biodigestores. O biogás pode ser utilizado na cocção de alimentos, no aquecimento de instalações e, conforme a escala e os equipamentos disponíveis, na geração de eletricidade. Steinmetz destaca que sistemas de autoconsumo podem atender diretamente a processos produtivos, reduzindo a necessidade de energia adquirida da rede. Fábricas de ração e sistemas de aquecimento e climatização de crechários para leitões estão entre as estruturas que podem se beneficiar dessa estratégia. “E com isso a propriedade tem um abatimento direto do custo com esta energia elétrica para a produção”, explica o analista.
Outra possibilidade está no aproveitamento térmico. Em sistemas de geração elétrica, parte da energia é dissipada na forma de calor, que pode ser recuperado para aquecimento de água, climatização de instalações ou manutenção de condições favoráveis ao próprio processo de biodigestão. Projetos de maior escala também podem avaliar o tratamento do biogás para obtenção de biometano, sua utilização em equipamentos e veículos adaptados ou o fornecimento a consumidores externos. Steinmetz menciona ainda a possibilidade de recuperar dióxido de carbono em processos de purificação, desde que existam escala, equipamentos, qualidade do produto e mercado para justificar o investimento.
Digestato amplia possibilidades de economia
Além da energia, a biodigestão gera digestato, material que mantém nutrientes importantes para a produção agrícola, como nitrogênio, fósforo e potássio. Quando sua composição é conhecida e a aplicação respeita as necessidades das culturas e as características do solo, o produto pode substituir parcialmente fertilizantes minerais, criando uma segunda frente de economia para propriedades que integram a criação de suínos à produção de grãos ou forragens. Para Steinmetz, o aproveitamento desses recursos precisa entrar no cálculo financeiro desde a elaboração do projeto. “A gente tem diferentes opções, tanto no biogás, quanto no digestato, que podem agregar valor e alterar também essas condições de tempo de retorno com relação à viabilidade do projeto.”

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Itânia destaca, contudo, que o potencial agronômico não deve ser confundido com uma recomendação automática de aplicação. A Embrapa Agroenergia desenvolve estudos com dejetos bovinos desde 2022 e já realizou análises do digestato e simulações de uso na cultura do milho. Na suinocultura, a investigação é mais recente, e o material produzido pelo protótipo instalado em abril de 2026 ainda está sendo caracterizado. “É importante fazer essa distinção porque a composição do material pode variar conforme a espécie animal, a alimentação, o manejo dos dejetos e as condições de operação do biodigestor”, ressalta. A comercialização do digestato também depende do atendimento às exigências de qualidade, segurança e regulamentação aplicáveis.
Redução de emissões exige operação adequada
Os benefícios ambientais constituem outra dimensão da tecnologia. Em sistemas convencionais de armazenamento, a decomposição dos dejetos pode liberar metano, gás de efeito estufa com potencial de aquecimento global muito superior ao do dióxido de carbono. Steinmetz explica que a captura e o aproveitamento energético desse gás podem reduzir as emissões associadas ao manejo dos resíduos. O tratamento e a purificação do biogás também permitem, em determinadas aplicações, substituir combustíveis fósseis por biometano. “A partir do momento que eu utilizo o biogás, que eu utilizo o biometano, eu estou trabalhando com uma fonte renovável”, observa.
A redução do impacto ambiental, entretanto, não ocorre automaticamente com a instalação do equipamento. Vazamentos, falhas de vedação, instabilidade do processo biológico e destinação inadequada do digestato podem comprometer o desempenho do sistema. Entre os cuidados necessários estão o monitoramento da produção de gás, a regularidade da alimentação do biodigestor, a manutenção das tubulações e o planejamento agronômico para utilização dos nutrientes. Na Embrapa Agroenergia, o protótipo desenvolvido já teve pedido de patente encaminhado, e a instituição busca parceiros para o licenciamento da tecnologia, enquanto dá continuidade aos estudos de desempenho e viabilidade.
Para Itânia, a decisão sobre o investimento precisa considerar conjuntamente os resultados econômicos e ambientais, sem depender apenas do volume de gás obtido. “Acreditamos que a sustentabilidade econômica de qualquer sistema de biodigestão dependa de integração de três aspectos: tratamento adequado dos dejetos, aproveitamento eficiente do biogás e utilização segura dos nutrientes presentes no digestato.” Assim, o biodigestor pode deixar de ser apenas uma alternativa de tratamento de resíduos e integrar a estratégia de gestão da propriedade, desde que os benefícios esperados sejam compatíveis com os investimentos, as condições operacionais e as necessidades do produtor.



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