Desde 2010, Santa Catarina enfrenta um problema crescente com a proliferação de javalis (Sus scrofa), espécie exótica invasora que se tornou uma ameaça significativa à produção agrícola, à criação de animais e à segurança das pessoas no meio rural. A população de javalis no estado tem se expandido de forma desordenada, causando destruição em plantações, danos a pastagens, hortas e criações de aves e suínos, além de representar risco físico aos produtores e trabalhadores rurais devido à agressividade da espécie. Estima-se que atualmente existam mais de 200 mil animais distribuídos por 236 municípios, apesar de mais de 120 mil exemplares terem sido abatidos entre 2019 e 2024.
O surgimento do problema foi inicialmente identificado e comunicado à Secretaria da Agricultura pelo presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (FAESC), José Zeferino Pedrozo, que alertou sobre os impactos do javali na produção agropecuária. Atendendo ao apelo da FAESC, em 2010 a Secretaria da Agricultura declarou o javali nocivo à agricultura catarinense e autorizou seu abate por tempo indeterminado, seguindo a Instrução Normativa nº 141/2006 do Ibama, que regulamenta o manejo de fauna sinantrópica nociva.
As áreas mais afetadas estão localizadas no entorno do município de Lages, na serra catarinense, e no Parque Nacional das Araucárias, no meio-oeste, abrangendo municípios como Ponte Serrada e Passos Maia. Nessas regiões, quando há escassez de alimento, os javalis migram para propriedades rurais em busca de alimentação, devastando lavouras de milho, feijão, soja, trigo e pastagens, além de atacarem hortas e criatórios de animais. Os javalis vivem em bandos de até 50 indivíduos e apresentam alta capacidade reprodutiva, com duas ninhadas por ano e em média oito filhotes por ninhada, o que torna o controle populacional ainda mais difícil. Machos adultos podem atingir entre 150 e 200 quilos, enquanto as fêmeas pesam entre 50 e 100 quilos.

A Lei estadual nº 18.817/2023 autorizou o controle populacional e o manejo sustentável da espécie, alinhada à Instrução Normativa nº 141/2006 do Ibama. Entretanto, o cumprimento da legislação encontra obstáculos práticos: a maioria dos produtores não realiza o abate e prefere acionar a Polícia Militar Ambiental, devido à complexidade, aos riscos da atividade e à escassez de caçadores profissionais licenciados. Os javalis podem atacar caçadores e animais de apoio, como cães de caça, tornando a atividade perigosa.
Além dos prejuízos diretos à agricultura, os javalis representam ameaça sanitária ao potencial transmissor de doenças de grande impacto econômico, incluindo peste suína africana (PSA), peste suína clássica (PSC) e febre aftosa. A eventual contaminação de plantéis comerciais de suínos poderia causar enormes perdas à cadeia produtiva, colocando em risco a economia do setor agroindustrial catarinense, líder nacional na produção e exportação de suínos, segundo maior produtor de frangos e terceiro de leite, além de relevante em outras culturas. Por essas razões, o consumo da carne de javalis abatidos não é recomendado.
O tema tem atraído atenção em âmbito nacional. Recentemente, uma audiência pública na Câmara dos Deputados discutiu o controle da população de javalis no Brasil, apontando dificuldades enfrentadas pelos responsáveis pelo manejo, como atrasos na emissão de licenças, guias de tráfego e autorizações de caça, além da burocracia excessiva do sistema. Especialistas, incluindo representantes da FAESC, defendem que a questão deve ser tratada como prioridade em todas as esferas da administração pública, considerando não apenas os impactos econômicos, mas também os riscos sanitários e de segurança no meio rural. A proliferação dos javalis é, portanto, um problema que afeta toda a sociedade e exige ações coordenadas para proteger a produção, a saúde animal e a economia do estado.
Fonte: FAESC, adaptado pela equipe FeedFood.
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