A Associação Brasileira das Indústrias de Suplementos Minerais (ASBRAM) reuniu associados, executivos e especialistas na quinta-feira, 16 de julho, no Hotel Mercure Jardins, em São Paulo (SP). A programação discutiu inteligência artificial, capacitação comercial, liderança, planejamento tributário e as perspectivas para o mercado brasileiro de suplementos minerais.
Na abertura, o presidente da entidade, Rodrigo Miguel, participou remotamente e definiu a reunião de julho como “um projeto em construção”, elaborado para apoiar a consolidação das estratégias das empresas no meio do ano. Elizabeth Chagas, coordenadora da ASBRAM, destacou a diversidade da agenda e antecipou que a associação pretende incorporar inteligência artificial ao painel utilizado pelos associados para consulta de estatísticas.
Mercado cresce no primeiro semestre
O principal retrato do setor foi apresentado por Felippe Cauê Serigati, professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) e pesquisador do Centro de Agronegócios da instituição. Segundo o economista, as empresas da ASBRAM comercializaram aproximadamente 1,2 milhão de toneladas de suplementos minerais no primeiro semestre de 2026, crescimento de 2% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Desse volume, quase 1,1 milhão de toneladas foram destinadas à pecuária de corte, com avanço de 2,2%. Na pecuária leiteira, o acumulado chegou a 112 mil toneladas.
“O crescimento está sendo liderado pelos núcleos, mas os produtos prontos para uso também estão dando sua contribuição”, afirmou Serigati.
Somente em junho, as vendas alcançaram 225 mil toneladas, alta de 3%. De acordo com os dados apresentados, 207 mil toneladas foram direcionadas à pecuária de corte. “Os núcleos e os produtos prontos para uso vêm crescendo a dois dígitos. O crescimento de 3% registrado no mês foi puxado pelos produtos prontos para uso”, explicou.
Para o encerramento de 2026, o ponto médio da projeção apresentada é de 2,5 milhões de toneladas, o que representaria crescimento anual de 2,5%. O cenário mais pessimista considera 2,4 milhões de toneladas, enquanto o limite superior chega a 2,6 milhões.
“Normalmente, as vendas são maiores no segundo semestre, principalmente no terceiro trimestre. No entanto, este será um período muito desafiador, e o risco de resultados negativos é elevado”, alertou.
Apesar da rentabilidade favorável da bovinocultura, Serigati apontou restrições de crédito, custos de insumos e incertezas sobre a oferta de matérias-primas como fatores de atenção. “Dentro da porteira, a pecuária está ótima para quem faz tudo corretamente. O gado de corte está dando dinheiro, em um desempenho melhor do que em outros anos”, avaliou.
Por outro lado, segundo ele, o mercado de fertilizantes enfrenta baixa previsibilidade. “Só conseguimos enxergar aproximadamente 45 dias à frente. Não sabemos se haverá matéria-prima e fertilizantes suficientes para todos, ao mesmo tempo que temos um mercado comprador com restrições de crédito.”
Inteligência artificial depende de bons dados
Marcelo Cruz, executivo especializado em dados, analytics e inteligência artificial, apresentou aplicações práticas da tecnologia no agronegócio. Entre elas estão previsão de demanda, manutenção preditiva, identificação de clientes com maior potencial de compra, automação de operações e uso direcionado de insumos.
“Na agricultura de precisão, a inteligência artificial pode reduzir em até dois terços o uso de herbicidas, além de apoiar o uso de drones e novas roteirizações no campo”, afirmou.
Cruz também destacou a possibilidade de antecipar problemas nas máquinas e organizar paradas programadas. “Com a inteligência artificial, conseguimos atuar de forma mais preventiva, com manutenção preditiva, janelas de planejamento para evitar interrupções na produção, previsão de demanda e apoio comercial.”
O especialista ressaltou, porém, que os resultados dependem diretamente da qualidade das informações disponíveis. “A inteligência artificial potencializa os dados que recebe. Por isso, eles precisam ter qualidade.”
Segundo Cruz, um projeto com objetivo bem definido pode começar a produzir resultados em um período relativamente curto. “Com o diagnóstico de maturidade, a definição de um caso de uso e a criação de um projeto-piloto, é possível implementar uma solução de inteligência artificial entre oito e 12 semanas.”
Para ele, a tecnologia deve ser introduzida gradualmente e com supervisão humana. “A inteligência artificial acelera muito o trabalho de quem já possui conhecimento. Não tente implementá-la na empresa inteira sem ter um objetivo claro sobre o que pretende fazer.”
Capacitação busca transformar técnicos em consultores
Marcelo Baratella, CEO e fundador da VendorIA, apresentou o projeto Do técnico ao consultor de valor, desenvolvido para profissionais das empresas associadas à ASBRAM.
A capacitação será formada por seis encontros semanais e on-line, com aulas gravadas, exercícios práticos, acompanhamento da aprendizagem e um canal para esclarecimento de dúvidas. Os conteúdos incluem proposta de valor, diagnóstico das necessidades do cliente, tratamento de objeções, acompanhamento de negociações e gestão do funil de vendas. “Inovar, para mim, é simples: pegar o que já existe, melhorar um pouco e gerar valor para o cliente”, declarou Baratella.

O projeto foi estruturado diante de desafios como pressão sobre margens, crédito mais caro, decisões de compra postergadas, inadimplência e falta de inteligência comercial. “Os nossos profissionais precisam gerar mais valor e mais confiança. Vamos ensinar o consultor a vender valor, e não apenas produto”, acrescentou.
Alta performance exige cultura e liderança
Uma das apresentações mais interativas do encontro foi conduzida pelo palestrante Clóvis Tavares, inicialmente apresentado ao público por meio do personagem alemão Klaus Newmann. Com referências à Fórmula 1, exercícios práticos e dinâmicas com os participantes, ele relacionou o funcionamento de uma escuderia à gestão das empresas.
Ao final, Tavares revelou a identidade por trás do personagem e explicou que utiliza a encenação para provocar uma reflexão sobre a tendência de valorizar mais aquilo que vem de fora do que os profissionais brasileiros.
Durante a apresentação, o palestrante destacou quatro elementos fundamentais para a relação com o cliente: segurança, atendimento, eficiência e rentabilidade.
“É preciso oferecer um atendimento humanizado e o mais rápido possível. Quanto mais humano for, mais ele se torna um diferencial”, afirmou.
Tavares também criticou o retrabalho e a falta de integração entre setores. “É preciso ter eficiência e rentabilidade para manter uma empresa. O retrabalho faz perder qualidade e dinheiro.”
Para ele, o vínculo com o cliente não termina na entrega. “Confiança é quando o cliente acorda no dia seguinte e ainda se lembra de você.”
A liderança, segundo o palestrante, deve combinar clareza, capacidade de ouvir e acompanhamento das equipes. “Não adianta querer que as pessoas sejam boas sem gestão. Motivação não acontece apenas quando o projeto termina; ela precisa estar presente em cada etapa.”
Outra mensagem foi a importância de formar equipes com competências complementares. “É preciso criar equipes de qualidade, nas quais uns planejam, outros executam e todos se respeitam.”
Tavares também defendeu respostas objetivas e honestas em momentos de pressão. “O ‘talvez’ é um improviso e cria falta de confiança. O trabalho de um líder é ensinar a equipe a sair do complicado.”
PRIMASEA inicia parceria com a associação
No período da tarde, Paulo Fortes, gerente nacional de vendas da PRIMASEA, apresentou a atuação da empresa no mercado de nutrição animal. A participação marcou o início da parceria da companhia com a ASBRAM.
Zootecnista formado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), Fortes possui experiência em produção de ruminantes, gestão empresarial e atuação comercial em empresas do segmento. A apresentação teve caráter institucional e aproximou a nova parceira dos demais associados.
Decisão tributária pode ampliar recuperação de créditos
Daniel Coman, diretor comercial e sócio do Martins Freitas Advogados Associados, abordou o aproveitamento de créditos de PIS e Cofins sobre insumos adquiridos com alíquota zero ou suspensão.
Segundo o especialista, uma decisão unânime do Superior Tribunal de Justiça (STJ) abriu uma oportunidade relevante para a recuperação de valores que deixaram de ser aproveitados pelas empresas. “Vamos buscar proteger os créditos que as empresas deixaram de aproveitar desde 2021”, declarou.
Coman afirmou que o tema tem impacto direto sobre as associadas porque 67% das empresas representadas pela ASBRAM produzem suplementos animais e adquirem milho e farelo de soja. “Esses produtos estão no coração da estrutura de insumos do setor. Essa decisão foi extremamente relevante para vários segmentos, inclusive para as empresas da ASBRAM.”
O advogado também chamou atenção para a necessidade de preparação diante da transição tributária que substituirá o PIS e a Cofins. “É uma mudança positiva para os associados, mas precisamos nos preparar para ela”, completou.
Ao combinar análise de mercado, tecnologia, formação profissional, liderança e gestão tributária, a reunião mostrou que a competitividade da indústria de suplementos minerais depende tanto das condições econômicas quanto da capacidade das empresas de transformar dados, conhecimento e trabalho em equipe em decisões mais eficientes.




