Caroline Mendes, caroline@dc7comunica.com.br
A Alianima lançou a 6ª edição do Observatório Suíno, relatório anual que monitora os compromissos públicos de empresas da cadeia suinícola com o bem-estar animal. Consolidado como uma das principais referências sobre o tema no país, o levantamento aponta avanços moderados na adoção de práticas mais éticas e transparentes, mas revela que o ritmo das transformações ainda é insuficiente para atender às demandas dos consumidores e padrões internacionais.
De acordo com o relatório, 44,9% das matrizes suínas no Brasil já são alojadas em baias coletivas, contra 42,1% no ano anterior. Embora o crescimento seja considerado positivo, o avanço de apenas 2,8 pontos percentuais reforça a lentidão da transição. Entre os fornecedores analisados, JBS (Seara Alimentos), Pamplona Alimentos e Aurora Coop se destacam por manter elevados índices de matrizes em sistemas coletivos, enquanto empresas como Alibem e Master Agroindustrial ainda apresentam percentuais mais modestos — o que é explicado, em parte, pelos prazos mais longos de seus compromissos, que se estendem até 2031.
O relatório também detalha as principais dificuldades relatadas pelas empresas: o custo elevado das obras de adaptação das granjas, a falta de linhas de crédito específicas e a complexidade dos projetos estruturais. Em muitos casos, a conversão de instalações antigas para o sistema coletivo é considerada economicamente inviável. “O alto custo dos investimentos e os juros elevados afetam diretamente a velocidade do processo”, relatou uma das empresas participantes.
Além da questão das celas de gestação, a publicação destaca o avanço gradual em outras práticas ligadas ao manejo e à maternidade. Cerca de 89% dos fornecedores afirmaram planejar o fornecimento de enriquecimento ambiental para matrizes, permitindo a construção de ninhos e o estímulo a comportamentos naturais, conforme previsto na Instrução Normativa nº 113/2020 do MAPA. O desmame médio dos leitões também se aproxima da meta de 24 dias, demonstrando maior alinhamento às exigências de bem-estar.

Por outro lado, a Alianima alerta para retrocessos em temas sensíveis como o banimento do corte de cauda — prática cuja intenção de eliminação caiu de 40% em 2023 para apenas 11% em 2025 — e o uso de ractopamina, substância proibida em mais de 160 países, mas ainda presente em 56% das granjas brasileiras. O relatório lembra que o aditivo, utilizado para aumentar a deposição de carne magra, traz riscos de estresse, alterações fisiológicas e possíveis impactos à saúde humana.
O uso de antimicrobianos também permanece em foco. Segundo a Alianima, o tema é um dos mais urgentes dentro da abordagem de Saúde Única, pois cerca de 73% dos antimicrobianos vendidos no mundo são destinados à pecuária. A organização reforça que o uso indiscriminado desses produtos na produção animal pode comprometer a eficácia de medicamentos essenciais na medicina humana, agravando o problema global da resistência microbiana.
Entre os compradores — como redes varejistas e de alimentação —, o nível de transparência ainda preocupa. O estudo revela que 42% das empresas comprometidas nunca reportaram qualquer avanço, mesmo com prazos de transição próximos. Para estimular a competitividade ética, a Alianima criou o Ranking de Transparência, que em 2025 destacou Dídio Pizza (San Marzan), Forno de Minas e Hippo Supermercados como líderes em transparência e comprometimento. Na outra ponta, grupos como Burger King (Zamp), Madero e Subway figuram entre os que nunca responderam aos questionários do Observatório.
Para a Alianima, os resultados desta edição reforçam tanto o avanço gradual da suinocultura nacional quanto os obstáculos que ainda impedem uma transformação efetiva. “O setor precisa de maior engajamento coletivo para alinhar-se às expectativas dos consumidores e aos padrões globais de sustentabilidade e bem-estar”, destaca a entidade. A organização ressalta que o bem-estar animal deve ser entendido como uma questão ética, mas também estratégica, capaz de fortalecer a imagem do Brasil como fornecedor responsável no mercado internacional.
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