Aumentar a lotação, investir em adubação ou colocar mais suplemento no cocho não significa, isoladamente, intensificar com eficiência. No segundo dia do Encontro de Intensificação e Pastagens (EIP) 2026, realizado em 24 de setembro, no Multiplan Hall do Ribeirão Shopping, em Ribeirão Preto (SP), pesquisadores, técnicos e produtores convergiram para uma mesma condição: produzir mais por hectare exige conhecer a capacidade do sistema, dominar o manejo e medir o retorno das decisões. A programação da Scot Consultoria dividiu o dia entre os blocos “Pastagem: e se cada hectare produzisse mais?” e “Intensificação: quando a régua sobe”.
Manejo vem antes do investimento
A professora Janaina Martuscello, da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), abriu as discussões tratando a pastagem como patrimônio produtivo e financeiro. “A má gestão do recurso forrageiro é a má gestão do recurso financeiro”, afirma. Ao comparar estratégias de adubação e manejo, a pesquisadora reforça outra premissa: “O bom manejo vem antes da adubação.”
Em entrevista exclusiva à Feed&Food, Janaina relaciona diretamente a taxa de lotação à capacidade de suporte da área. “Se você não conhece a capacidade de suporte do seu pasto, você não pode tentar chutar uma lotação”, afirma. Segundo a professora, o manejo correto pode elevar em até 20% a lucratividade, mesmo antes da entrada de novos insumos. “Nem sempre o aumento da lotação significa aumento na lucratividade”, acrescenta.

A aplicação prática dessa lógica apareceu na apresentação de Cintia Oliveira, da Fazenda Vale da Serra. Ao relatar a transformação do sistema de cria, ela conta que a propriedade deixou de conduzir o pastejo por períodos fixos e passou a observar a altura e a condição da forragem para orientar as decisões. “Eu precisava aprender sobre o meu principal recurso na fazenda. Eu precisava aprender sobre capim”, relata.
A mudança envolveu divisão de áreas, ajuste de lotação, planejamento da alimentação para a seca e acompanhamento mais próximo dos resultados. Para Cintia, o processo também mudou a percepção sobre a própria atividade. “Uma fazenda de cria pode, sim, ser moderna, eficiente e, principalmente, pode ser rentável.”

Se o manejo inadequado reduz a capacidade produtiva do pasto, as plantas daninhas podem ser um sinal desse desequilíbrio. Kassio Mendes, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP), defendeu que o controle começa pelo entendimento da própria pastagem. “As plantas daninhas, elas são consequência dessas áreas degradadas, e não a causa da degradação”, afirma.
Segundo Mendes, solo exposto, superpastejo e redução do vigor da forrageira abrem espaço para a competição por água, luz e nutrientes. O manejo integrado, portanto, passa por fortalecer a cultura, reduzir a formação do banco de sementes e utilizar o controle químico de forma posicionada. Em um dos resultados apresentados, o pesquisador também ressalta que o herbicida não atua como nutriente, mas reduz a interferência da invasora para que a forrageira expresse seu potencial produtivo.

Na sequência, Eloir Daltoé, da Duagro, levou a discussão para a escolha da forrageira e o retorno esperado da área. Em vez de começar pelo preço da semente, ele propõe outra pergunta: “Quanto pretendo produzir e quanto eu pretendo ter lucro com esse capim que eu vou implantar.” Para Daltoé, a produção de matéria seca é um meio para chegar ao objetivo final: transformar forragem em desempenho e produção de carne.
O palestrante também alerta para a análise isolada da proteína bruta na avaliação das forrageiras. “A proteína nem sempre é o fator mais importante. E o que me interessa mesmo é quanto eu vou produzir de carne, quanto que essa matéria seca tem a capacidade de transformar em carne”, afirma.

Crédito: Feed&Food
Debate reforça que não há receita única
Durante o debate da manhã, Alex Ricieri Perin, CEO da Perin S.A., usou a própria experiência para alertar sobre o risco de adotar tecnologias antes do diagnóstico. “A gente tem que colocar uma tecnologia consciente”, afirma. Perin relatou ter reformado 900 hectares de pastagens e constatado posteriormente que algumas áreas poderiam ter se recuperado apenas com a retirada da carga animal.
Para ele, assistência técnica deve entrar antes da tentativa e erro. “Procurar os melhores técnicos para assessorar antes do erro. Que é o que eu só fui procurar depois”, relata. Em outro momento, compara a pecuária atual a “uma fábrica de carne”, que demanda linha de produção, controle de qualidade, gestão financeira e contabilidade.
O debate fechou a manhã reforçando que não existe uma taxa de lotação, tamanho de piquete ou nível de investimento capaz de servir como receita universal. Em determinadas situações, inclusive, reduzir temporariamente a pressão sobre a área pode recuperar a pastagem sem necessidade imediata de reforma. A intensificação, portanto, passa por diagnóstico, planejamento e avanço compatível com a capacidade de gestão de cada propriedade.

À tarde, a régua sobe para colheita e operação
Se a manhã discutiu como preservar e ampliar a capacidade produtiva do hectare, as palestras da tarde avançaram para outra questão: como transformar a forragem produzida em desempenho sem perder eficiência operacional e econômica.
Ernesto Coser, consultor, concentrou sua apresentação na colheita da forragem. “O verdadeiro desafio não é formar pastos, é colher e manter”, afirma. Para ele, ferramentas como cerca elétrica móvel e períodos mais curtos de ocupação ajudam a controlar quanto, onde e quando o animal consome o pasto.
“O pastor é aquele cara que define quanto o animal vai comer, aonde vai comer e quando vai comer”, resume Coser. A proposta é tratar a colheita do pasto com a mesma atenção dedicada à produção de alimento em outros sistemas, reduzindo desperdícios e a utilização desuniforme da área.

Crédito: Feed&Food
Ângelo Favero, da Fazenda Santa Nice, aprofundou a discussão ao definir o pastejo como um processo de gestão. “Pasto é um ativo, pasto é receita e pastejo é um processo”, afirma. A experiência apresentada pela propriedade envolve ajuste de ocupação e descanso, observação constante da forragem e uso da cerca elétrica como ferramenta para executar o planejamento.
Favero também chama atenção para o limite econômico da intensificação. “A qualquer custo tudo dá”, afirma, ao defender que o sistema precisa respeitar a curva de aprendizado e a capacidade de execução da equipe. A busca por maior produtividade, portanto, não elimina a necessidade de preservar margem e consistência operacional.

Crédito: Feed&Food
Nutrição precisa entregar mais que ganho de peso
Joanis Tilemahos Zervoudakis, professor titular da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), levou a discussão para o uso de DDG e outros coprodutos das biorrefinarias na nutrição de bovinos. Os resultados apresentados mostraram que a resposta depende do nível de suplementação, da quantidade e qualidade da forragem, do objetivo produtivo e também da logística até a propriedade. Em níveis elevados de oferta de suplemento, o pesquisador ressalta que o efeito de substituição do consumo de pasto precisa entrar na avaliação.
Em entrevista exclusiva à Feed&Food, Zervoudakis destaca que o resultado não deve ser medido apenas pelo ganho médio diário. “A gente sabe que o ganho médio diário muitas vezes não traz uma realidade mais precisa do sistema.” Para ele, ganho e rendimento de carcaça, custos, giro do capital e margem também precisam ser acompanhados.
A distância das biorrefinarias é outro fator determinante. “Em fazendas mais próximas às usinas, esse DDG ou esses coprodutos da usina do etanol, eles têm um preço mais atrativo, principalmente devido ao menor frete”, afirma. A estratégia nutricional, portanto, precisa ser construída para cada sistema, e não apenas a partir do preço do ingrediente.

Encerrando as apresentações, Ubirajara Bilego, da COMIGO, conectou intensificação, integração lavoura-pecuária (ILP), qualidade da forragem e desempenho animal. Para o pesquisador, sistemas mais intensivos podem ampliar produtividade e renda quando há equilíbrio entre solo, planta e animal. “A intensificação, nós já vimos aqui, dilui custo, aumenta a rentabilidade, alavanca essa produção e traz renda”, afirma.
Bilego defende um sistema em que a forragem de qualidade gere desempenho e carcaça, enquanto a presença dos animais contribua para ciclagem de nutrientes e condições favoráveis à lavoura subsequente. Ao final, transformou a pergunta de sua palestra em conclusão: “A prosperidade está intimamente relacionada com os processos de intensificação.”

Ao longo do segundo dia, os diferentes caminhos apresentados convergiram para um mesmo ponto: intensificar não significa simplesmente colocar mais animais por hectare, aplicar mais insumos ou encher o cocho. O resultado depende de fazer pasto, tecnologia, operação e nutrição trabalharem dentro da capacidade produtiva e econômica de cada propriedade.



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