A redução dos custos alimentares no terceiro trimestre de 2026 não se traduziu em ganhos de lucratividade para todas as regiões de confinamento bovino. Apesar de o custo da dieta de terminação ter recuado 6,7% no Centro-Oeste e 6,5% no Sudeste em relação ao segundo trimestre, a lucratividade média por cabeça da arroba produzida caiu 3,5% no Centro-Oeste, para R$ 1.009,41, enquanto avançou 5,5% no Sudeste, alcançando R$ 1.173,27.
Os dados são do Índice de Custo Alimentar Ponta (ICAP), elaborado pela Ponta Agro, e mostram como a combinação entre despesas nutricionais, preço de venda e características dos animais abatidos influencia o desempenho econômico dos confinamentos. A diferença entre a lucratividade média das duas regiões chegou a R$ 163,86 por cabeça no período de julho a setembro.
O custo alimentar médio, medido pelo ICAP, recuou 3,6% nas duas regiões frente ao trimestre anterior. No Centro-Oeste, o indicador ficou em R$ 12,56 por cabeça/dia, enquanto no Sudeste registrou R$ 11,53. Na comparação anual, as quedas foram de 8,9% e 7,5%, respectivamente.
No Sudeste, o resultado representa a menor média trimestral do ICAP desde o terceiro trimestre de 2024. No Centro-Oeste, foi a segunda menor média da série histórica, reforçando o cenário de custos alimentares mais baixos, embora com efeitos distintos sobre a rentabilidade regional.
Preço da arroba explica parte da diferença entre as regiões
A trajetória da arroba do boi gordo foi um dos principais fatores de diferenciação dos resultados. No Centro-Oeste, a cotação média recuou 3,1% em relação ao segundo trimestre, passando de R$ 337,50 para R$ 327,17. No Sudeste, houve valorização de 1,5%, de R$ 341,83 para R$ 347,00.
A combinação entre redução dos custos e melhora da receita favoreceu o resultado do Sudeste. No Centro-Oeste, por outro lado, a desvalorização da arroba limitou o efeito positivo da queda das despesas alimentares.
Segundo a análise da Ponta Agro, o perfil dos animais abatidos também contribuiu para o resultado menos favorável no Centro-Oeste. O giro mais longo e a menor participação da nutrição no custo total em agosto e setembro influenciaram a composição das margens observadas no período.
O comportamento reforça que a eficiência econômica do confinamento não depende exclusivamente do preço dos ingredientes ou do custo diário da alimentação. O desempenho produtivo, o período de permanência dos animais, o custo da arroba produzida e a remuneração obtida na venda precisam ser avaliados conjuntamente.
Centro-Oeste tem maior oscilação no custo da dieta
No Centro-Oeste, o custo médio da dieta de terminação passou de R$ 1.153,07 por tonelada de matéria seca (MS) no segundo trimestre para R$ 1.076,09 no terceiro, redução de 6,7%.
Ao longo do período, porém, a trajetória foi marcada por oscilações. O custo começou julho em R$ 1.116,99 por tonelada de MS, caiu 8,45% em agosto, para R$ 1.022,62, e voltou a subir 6,46% em setembro, encerrando o mês em R$ 1.088,66.
Entre as categorias de insumos, os ingredientes proteicos apresentaram a maior queda, de 18,51% em relação à referência junho-agosto. DDG, caroço de algodão e farelo de algodão registraram, respectivamente, preços de R$ 937,95, R$ 942,40 e R$ 796,90 por tonelada, todos entre os menores valores do ano.
O milho grão seco, por sua vez, apresentou movimento de alta após atingir R$ 770,10 por tonelada em julho. Em setembro, o preço chegou a R$ 830,15 por tonelada, sinalizando uma possível pressão sobre os custos energéticos caso a tendência persista nos meses seguintes.
Os volumosos tiveram o movimento oposto ao dos proteicos e registraram alta de 27,67% frente à referência junho-agosto, constituindo a principal pressão de aumento entre as categorias avaliadas. Mudanças na composição das dietas, nos teores de matéria seca ou na amostra analisada podem contribuir para essa variação, mas os dados agregados não permitem determinar o peso de cada fator.
Do lado da receita, a arroba caiu para R$ 321,50 em julho, menor cotação desde janeiro, e se recuperou para R$ 333,50 em setembro. A média trimestral, entretanto, permaneceu abaixo da registrada entre abril e junho.
A lucratividade da arroba produzida recuou de R$ 1.138,30 por cabeça em julho para R$ 906,75 em setembro. No mesmo intervalo, o custo da arroba produzida subiu de R$ 180,62 para R$ 224,52, influenciado pelo perfil dos animais abatidos e pelo aumento do ICAP em setembro.
O consumo médio de matéria seca também avançou, passando de 9,40 quilos por dia no segundo trimestre para 9,92 quilos no terceiro.
Sudeste combina queda de custos e valorização do boi gordo
No Sudeste, a redução dos custos ocorreu de maneira mais consistente. O custo médio da dieta de terminação caiu de R$ 1.122,22 por tonelada de MS no segundo trimestre para R$ 1.049,18 no terceiro, recuo de 6,5%.
A trajetória mensal também foi descendente: de R$ 1.067,19 por tonelada em julho para R$ 1.046,27 em agosto e R$ 1.034,08 em setembro. A região completou, assim, sete meses consecutivos de redução do custo da dieta desde março.
Todas as categorias de insumos terminaram setembro abaixo da referência junho-agosto. Os volumosos recuaram 5,84%, os proteicos caíram 4,99%, os energéticos tiveram redução de 1,72% e a categoria outros registrou queda de 12,67%.
Entre os principais movimentos, o preço do caroço de algodão diminuiu 15,7%, enquanto o bagaço de cana recuou 8,8% e a silagem de milho caiu 24,0%. Os dois últimos ingredientes e o caroço de algodão atingiram seus menores preços do ano, segundo o levantamento. O milho grão seco permaneceu relativamente estável, com redução de 0,9% frente à referência.
O consumo médio de matéria seca ficou em 10,34 quilos por cabeça/dia, sem alteração relevante em relação ao trimestre anterior. Com isso, a região manteve a redução dos custos alimentares sem registrar mudança expressiva no consumo médio.
A receita também evoluiu favoravelmente. A arroba média atingiu R$ 347,00 no trimestre, e a cotação de setembro chegou a R$ 356,00, maior valor da série histórica regional considerada pelo indicador.
A lucratividade da arroba produzida avançou ao longo dos três meses: R$ 1.145,71 por cabeça em julho, R$ 1.163,88 em agosto e R$ 1.210,21 em setembro. A combinação entre alimentação mais barata e valorização do boi gordo contribuiu para o resultado positivo.
Relação entre custo alimentar e preço do boi favorece o Sudeste
O Sudeste também manteve vantagem no ICAP durante os três meses do terceiro trimestre, completando o segundo trimestre consecutivo com custo alimentar inferior ao do Centro-Oeste.
A diferença média foi de R$ 1,03 por cabeça/dia, variando de R$ 1,64 em julho a R$ 0,35 em agosto. Enquanto o ICAP do Sudeste permaneceu entre R$ 11,48 e R$ 11,57 ao longo do trimestre, o Centro-Oeste registrou maior oscilação, incluindo alta mensal de 6,64% em setembro.
Outro indicador que evidencia a diferença regional é a relação de troca entre o preço do boi gordo e o custo alimentar. Em setembro, uma arroba financiava 30,77 dias de alimentação no Sudeste, primeira ocorrência acima de 30 dias na série histórica da região. No Centro-Oeste, a relação encerrou o mês em 26,30 dias.
O indicador ajuda a dimensionar o poder de compra da arroba em relação à alimentação, mas não representa, isoladamente, a rentabilidade total do confinamento. A compra dos animais de reposição, o desempenho zootécnico e os demais custos operacionais também interferem no resultado econômico.
Custos e reposição exigem atenção no quarto trimestre
Para o quarto trimestre de 2026, o comportamento do milho, a disponibilidade de volumosos e a evolução do mercado do boi gordo estão entre os pontos de atenção para os confinadores.
No Centro-Oeste, a alta do milho entre julho e setembro pode pressionar os custos energéticos, dependendo da renovação dos estoques e da formulação das dietas. No Sudeste, o cereal terminou setembro praticamente estável, a R$ 1.061,50 por tonelada.
A evolução da oferta de coprodutos da cana também merece acompanhamento diante do avanço da safra canavieira 2026/27. Uma eventual redução da disponibilidade de bagaço no fim da moagem pode exigir substituições nas dietas, com impactos que dependerão dos estoques, dos contratos e dos calendários das usinas.
No Centro-Oeste, a elevação dos custos dos volumosos reforça a importância de acompanhar preços, composição das dietas e teores de matéria seca. Já no mercado pecuário, o comportamento da arroba será determinante para a sustentação das margens, sobretudo após os movimentos distintos observados entre as duas regiões.
O preço do boi magro também permanece como variável estratégica. Como a margem calculada pelo indicador considera as arrobas produzidas pelos animais abatidos nos meses de referência, ela não representa necessariamente o resultado integral do sistema, que inclui a aquisição do animal de reposição. Em cenários de ágio elevado na compra do boi magro, a rentabilidade total da operação pode ser significativamente diferente.
Os resultados do terceiro trimestre mostram, portanto, que a redução do custo alimentar é importante para a competitividade, mas seu efeito depende das condições de mercado e das características produtivas de cada operação. No período, o Sudeste reuniu custos menores e valorização da arroba, enquanto o Centro-Oeste enfrentou uma receita média em queda, limitando os ganhos proporcionados pela dieta mais barata.



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