A soja brasileira começa a ser avaliada por critérios que vão além da produtividade. A composição do grão, especialmente os teores de proteína, óleo e aminoácidos, passa a despertar maior interesse da indústria e de segmentos da cadeia produtiva, abrindo espaço para uma nova lógica de valorização baseada na qualidade da matéria-prima.
Estudos conduzidos pelo pesquisador José Marcos Gontijo Mandarino, da Embrapa Soja, indicam que características como proteína e óleo exercem influência direta sobre o valor industrial do grão, principalmente no rendimento do farelo utilizado na alimentação animal. O tema também é acompanhado de perto pela Embrapa Suínos e Aves, já que o farelo de soja representa entre 65% e 70% da proteína presente nas formulações nutricionais destinadas à produção de aves e suínos.
Em mercados mais avançados, como Estados Unidos e Canadá, produtores já recebem bonificações por lotes com atributos específicos, incluindo elevados teores de proteína. Os prêmios podem variar entre 5% e 15%, conforme as exigências contratuais. No Brasil, embora esse modelo ainda não esteja amplamente difundido, especialistas avaliam que a tendência é de crescente valorização da qualidade intrínseca dos grãos.

O movimento é comparado ao ocorrido na cadeia do leite, onde indicadores de qualidade passaram a influenciar diretamente a remuneração dos produtores. Para especialistas, a soja pode seguir caminho semelhante à medida que a indústria busca matérias-primas mais eficientes e nutritivas.
Nesse cenário, a armazenagem ganha um papel estratégico. Segundo Elton Stadler, CEO da Provent Brasil, a preservação das características do grão após a colheita pode se tornar um fator determinante para a rentabilidade do produtor. “Durante muito tempo, a armazenagem foi vista quase exclusivamente como proteção de volume. Mas começa a crescer uma discussão sobre a qualidade do grão entregue à indústria. Se atributos como proteína e aminoácidos passam a ter mais valor, armazenar bem deixa de ser um detalhe operacional e passa a fazer parte da estratégia econômica do produtor”, afirma.
Pesquisas da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) reforçam essa preocupação. Um estudo da instituição apontou que, após seis meses de armazenagem em silos sem controle adequado das condições internas, houve aumento de 58,4% nos grãos ardidos e de 14,5% nos grãos fermentados. Também foram observadas reduções no teor de proteína e maior perda de massa dos grãos.
Para minimizar esses impactos, tecnologias voltadas ao controle do ambiente de armazenagem vêm ganhando espaço no setor. Sistemas de exaustão contínua, como o Cycloar, atuam na redução do calor acumulado, da condensação e do excesso de umidade nos silos, contribuindo para a conservação das características físicas e nutricionais da soja durante o período de estocagem.
De acordo com Stadler, a valorização crescente de atributos como proteína pode transformar a forma como o mercado enxerga a armazenagem. “O produtor pode ter um ativo valioso nas mãos e não perceber. Se o mercado começa a olhar mais proteína e qualidade intrínseca, preservar isso dentro do silo passa a ter impacto direto no bolso do produtor”, conclui.
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