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Carrapatos aumentando na fazenda? Você pode estar sendo negligente

Sem controle na primavera-verão, há aumento gradativo nos parasitos

Natália Ponse, da redação

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O termômetro mostra a temperatura “lá em cima”, ultrapassando os 27ºC. Lá fora, a alta umidade do ar é outro facilitador para a proliferação de um dos vilões da pecuária: o carrapato. Se você, pecuarista, não se preocupou o suficiente com relação a este controle na sua propriedade no verão, temos uma péssima notícia para você: invernos mais amenos na Região Sul do Brasil, como o ocorrido em 2017, favorecem a sobrevivência do parasito em períodos como este que, normalmente, ocorreria um controle populacional natural (já que, nesta época, caso realizada a prevenção, pode ocorrer redução desses grupos por morte do aracnídeo).

Os prejuízos causados são significativos, seja diretamente com a redução na produção de leite/carne, ou de forma indireta, com a transmissão da Tristeza Parasitária Bovina (TPB) e custos com tratamentos. O controle químico, que já foi um dos impulsionadores da produção nacional de carne e leite, hoje já enfrenta mudança no cenário agropecuário interno e externo.

“Enfrentamos a escassez de bases químicas com efeito carrapaticida, o risco de reemergência de parasitoses, mantidas em controle até o momento, e exigências crescentes do mercado consumidor por qualidade dos alimentos, o que inclui a redução de resíduos químicos. Por outro lado, crescem os custos e a dificuldade para a descoberta e avaliação de princípios ativos com novos mecanismos de ação e baixa toxidade”, explica a pesquisadora da Embrapa Pecuária Sul (Bagé/RS), Claudia Gomes. 

De acordo com ela e a também pesquisadora Emanuelle Baldo Gaspar, a peculiaridade do clima torna o controle do carrapato nos bovinos ainda mais desafiantes no Rio Grande do Sul, pois a maior oscilação populacional durante o ano favorece a ocorrência de surtos de TPB. A associação de métodos não químicos ao controle químico é um grande aliado para alcançar a redução nesse tipo de população. Tais práticas, além de desacelerar o processo de instalação de resistência aos acaricidas (carrapaticidas) também fundamentam a produção com sustentabilidade e segurança alimentar.

De acordo com Emanuelle Gaspar, o produtor deve basear suas decisões em orientação técnica qualificada e continuada. “O esclarecimento deste novo cenário aos produtores e os riscos envolvidos, a conscientização da importância de um bom controle sanitário, além da capacitação de técnicos da área é de extrema importância para o enfrentamento do problema”, afirma. “Fica evidente a necessidade de um esforço coletivo da indústria, produtores, governo e instituições de pesquisa e extensão para minimizar os prejuízos decorrentes desta parasitose”, salienta Gomes.

E foi pensando nessa atuação conjunta em prol de uma melhor sanidade nos rebanhos que ocorreu uma união entre pesquisadores da Embrapa Pecuária Sul, Instituto de Pesquisas Veterinárias Desidério Finamor (Ipvdf, Eldorado do Sul/RS), Universidade Federal do Pampa (Unipampa, Bagé/RS), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs, Porto Alegre/RS), Universidade da Região da Campanha (Urcamp, Bagé/RS), Universidade Federal de Pelotas (UFPel, Pelotas/RS), Universidade de Passo Fundo (UPF, Passo Fundo/RS), técnicos da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Irrigação do governo do RS (Seapi, Porto Alegre/RS), Conselho Regional de Medicina Veterinária de Rio Grande do Sul (CRMV/RS, Porto Alegre/RS) e pesquisadores aposentados destas instituições.

O resultado é o Grupo Técnico do Carrapato e da Tristeza Parasitária Bovina (GT). O objetivo principal é o assessoramento técnico especializado na coordenação e execução das atividades do Serviço de Doenças Parasitárias ligadas ao controle e prevenção do carrapato bovino e de TPB como suporte ao enfrentamento da problemática por produtores do Rio Grande do Sul. O plano de atuação estratégica do grupo inclui a capacitação de médicos-veterinários na temática específica de prevenção e controle, a consolidação de rede de laboratórios credenciados para oferta de diagnóstico laboratorial de resistência de carrapatos aos acaricidas comerciais e diagnóstico da TPB e intensificação de ações de orientação de produtores sobre a necessidade do planejamento de medidas preventivas e de controle sob orientação técnica continuada.

O produtor deve basear suas decisões em orientação técnica qualificada e continuada. O esclarecimento deste novo cenário aos produtores e os riscos envolvidos, a conscientização da importância de um bom controle sanitário, além da capacitação de técnicos da área é de extrema importância para o enfrentamento do problema.

De acordo com as pesquisadoras da Embrapa Sul, em 2017 foram capacitados 140 médicos-veterinários vinculados à Inspetoria Veterinária, responsáveis por uma cobertura de 255 municípios gaúchos, ou seja, 51% do total, além de palestras para produtores rurais em diferentes regiões do Estado. Também foi produzido e distribuído informativo que inclui orientações sobre o diagnóstico laboratorial de resistência do carrapato às bases químicas. A padronização de ações contra os carrapatos e a TPB entre as diferentes instituições é fundamental para uniformizar a apresentação dos laudos e nivelar interpretações por parte dos técnicos que orientarão os produtores. “Em 2018, as capacitações se estenderão aos técnicos da extensão rural e profissionais autônomos, além de dar continuidade às ações de educação sanitária junto aos produtores”, finalizam.

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