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HORA DE AJUSTAR O AMBIENTE

Período crítico na produção, o inverno exige planejamento para promover o bem-estar dos animais ao longo da cadeia produtiva. Nesta reportagem, reunimos as principais medidas voltadas à avicultura, aquicultura e bovinocultura de leite
Equipe Feed&Food

Com a chegada do inverno, a produção precisa de cuidados redobrados e um planejamento de ações para garantir o bem-estar dos animais. Na avicultura, é importante que os produtores coloquem mais atenção neste período, especialmente nos primeiros dias de vida das aves – uma vez que as mesmas não possuem o sistema termorregulador da temperatura corporal desenvolvido.

“A primeira semana é considerada crucial para se obter um bom desempenho do lote. Qualquer falha neste período comprometerá o desempenho final”, inicia Paulo Giovanni de Abreu, Pesquisador A – Ambiência e Bem-Estar das Aves da Embrapa Aves e Suínos.

Um dos caminhos para alcançar o resultado ideal é se atentar à manutenção das condições térmicas ambientais, de acordo com as exigências de temperatura. Segundo Paulo, neste momento, o avicultor necessitará realizar algumas práticas de manejo para o recebimento das aves.

Dentre elas, ele realça a importância de um sistema de aquecimento com potência calorífica adequada e número suficiente para suprir a diferença entre a temperatura ideal para os pintos e a temperatura ambiente: “Além disso, o sistema de aquecimento deve permanecer instalado e em condições de uso para qualquer emergência – no inverno, não se deve tirar totalmente o aquecimento antes do 21º dia”.

Importante destacar também que o aviário precisa estar com a temperatura do ar na região de conforto térmico das aves, antes da chegada das mesmas. O ideal, diz Paulo, é deixar entre 32ºC a 35ºC: “É recomendado também utilizar materiais com maior capacidade de isolamento térmico e forro, evitando grandes flutuações de temperatura no interior do aviário e aumento do consumo de ração”.

Na prática, se a temperatura ambiente não se encontra próxima das exigências térmicas de conforto das aves, grande parte da energia ingerida na ração, que poderia ser utilizada para produção, é desviada para manutenção do sistema termorregulador. Assim, as aves tendem a se amontoar e aumentar a ingestão de ração como estratégia para elevar a produção de calor e manutenção da sua homeotermia.

Nessa sequência de cuidados, a temperatura da água deve estar em torno de 20ºC, uma atenção mais do que necessária, pois o consumo de água é um fator determinante para o consumo de ração. “Quando a temperatura da água se encontra próxima de 20ºC, o pintainho é mais pesado porque ingere mais água e, consequentemente, come mais ração”, explica o pesquisador.

Uma dieta balanceada é outro fator-chave nessas tomadas de decisões. Segundo Paulo, é fundamental fornecer dieta balanceada, rica em proteína e energia, aminoácidos, vitaminas e minerais. 

Na avicultura, o período noturno é crítico para as aves, principalmente nos primeiros dias de vida e, portanto, o avicultor deve redobrar a atenção, uma vez que a temperatura mínima do dia ocorre nesse período: “O desenvolvimento do sistema termorregulador da ave ocorre por volta de 21 a 28 dias, quando o animal substitui as penugens por penas. Esse desenvolvimento depende da linhagem com empenamento precoce ou tardio. Isso significa que quanto maior o empenamento da ave, maior a capacidade de regular a temperatura corporal no período frio”.

Para dar essas condições ao ambiente, o aperfeiçoamento dos aviários com adoção de técnicas e equipamentos de condicionamento térmico ambiental tem superado os efeitos prejudiciais de alguns elementos climáticos, possibilitando alcançar bom desempenho produtivo das aves.

Dentro do contexto da indústria 4.0, as ferramentas e tecnologias utilizadas são cada vez mais eficientes. Esse ambiente tem proporcionado sistemas de monitoramento que acompanham em tempo real as condições térmicas do aviário (temperatura, umidade, ventilação, etc), tornando as medidas mais precisas e enviando alertas para o produtor via smartphone ou computador.

“Sem contar que os robôs eliminam as tarefas rotineiras do produtor, auxiliando na alimentação, coletando informações das aves e do aviário, melhorando a qualidade da cama, reduzindo o trabalho manual e liberando o produtor para se concentrar em outras atividades que garantam o bem-estar dos animais”, discorre Paulo.

Outro ponto importante nesta temática são os cuidados com a biosseguridade. Baixas temperaturas e oscilações acentuadas estão fortemente correlacionadas com surtos e síndrome ascítica e de morte súbita. Conforme explica o pesquisador, elas são apontadas como fatores que aumentam a taxa metabólica e a demanda por oxigênio da ave, responsáveis pelo aparecimento desses surtos.

Além desse agravamento, o frio também propicia a instalação de agentes que causam a bronquite infecciosa. Neste caso, a prevenção deve ser feita por meio da vacinação do plantel cujo programa inicia ainda no incubatório.

ATENÇÃO DEBAIXO D’ÁGUA. A aquicultura deve ficar também bastante atenta aos períodos de produção com alteração na amplitude térmica, seja no frio ou calor. Segundo o diretor da Suiaves, Luiz Eduardo Conte, existe uma temperatura ideal de produção para cada espécie ou animal: “Na zootecnia chamamos de homeostase (zona de conforto), onde o animal potencializa sua capacidade de produção em curva de crescimento e obtém melhor eficiência na conversão alimentar e maior expressão do potencial genético”.

Olhar para esta questão é de suma importância, pois o Brasil enfrenta alguns desafios nesta temática. De acordo com o diretor da Suiaves, a produção animal no País perde bastante potencial pela falta de investimentos e planejamento adequado em ambiência: “Muitas literaturas publicadas demonstram esses efeitos e os prejuízos econômicos e zootécnicos decorrentes da imunidade, pressão sanitária e perda de performance zootécnica”.

Para contornar esse desafio é necessário se atentar a algumas etapas e investir em áreas como reprodução ou acasalamento dos machos e fêmeas – criados, na sua maioria, em áreas sem proteção ou controle efetivo sobre o clima e temperatura da água. 

“Os laboratórios de alevinos ou laboratórios de produção pós-larva na sua totalidade ainda não definiram modelos de controle ambiental que podem interferir sobre a qualidade de produção e auxiliar no controle de algumas enfermidades. Nas fases juvenis, observamos aumento de projetos em sistema de tanque escavado em estufas, visando maior controle desses fatores de ambiência”, explica Luiz.

Ao redor do mundo, as tecnologias para auxiliar neste contexto estão surgindo. E em uma viagem recente à Boston (EUA), o diretor da Suives teve contato com algumas delas: “Conheci um modelo de produção de camarão em sistema de contêiner com 100% de controle ambiental e densidade de 400 animais por metro quadrado. O projeto é instalado em regiões de frio intenso do hemisfério norte com temperaturas negativas variando entre -20 a -10 graus, entregando camarão de 30 gramas em alta densidade e com tempo menor de engorda. Esse projeto permite manter a temperatura da água entre 27 a 28 graus”.

Como um exemplo de sucesso nesta temática, a carcinicultura do Equador se destaca pelas condições climáticas, com pequenas variações de temperatura de água e do ambiente, permitindo um melhor controle de produção. No Brasil, a região Nordeste tem uma menor amplitude térmica em relação a outras regiões do País, onde as curvas de desempenho são melhores expressadas na produção de aves de corte, ovos, camarão e peixe. 

“Para contornar os desafios, o mercado de aquacultura no Brasil inicia uma nova etapa de investimentos em tecnologias disponíveis nos setores de estufas, momento em que podemos realizar adequações sobre conceitos e equipamentos disponíveis no mercado brasileiro, visando reduzir ou mitigar os efeitos negativos da amplitude térmica sobre a produção – especialmente nas fases jovens de produção e reprodutores”, discorre Luiz.

Neste contexto, o desenvolvimento de tecnologias 4.0 ou adequações de sistema de controle, de automação na alimentação, de controle automáticos na ambiência e de injeção de frio ou calor são ferramentas disponíveis no agronegócio e de fácil adequação à aquacultura.  

Esses modelos, frisa Luiz, permitem um controle em tempo real da produção 24 horas por dia. Junto com a inteligência artificial (IA) realizam calibragens sobre o sistema de produção, ajudam a administrar riscos e a fazer intervenções sobre a produção animal de modo efetivo sem dependência da mão de obra. Ao mesmo tempo, podem gerar relatório robustos sobre desempenho zootécnico versus diferentes variáveis como uso do controle ambiental ou aditivos nutricionais ou variáveis genéticas.

Uma estação crítica, a entrada do período de inverno no sul do Brasil ou o período chuvoso na região Nordeste são fatores que devem alterar a temperatura da água e a tabela de consumo de ração dos animais aquáticos, aumentando o fator de estresse e a qualidade da oxigenação dos tanques escavados com menor profundidade.  

Para contornar os desafios, alguns projetos de tanques escavados estão sendo revisados com aumento da profundidade na produção de tilápias, com o intuito de diminuir o impacto sobre inversão térmica da água, causando, assim, alteração rápida no nível de oxigênio em tanques de produção: “Planejamento sobre a tabela diária de arraçoamento, redução de excesso de ração na água ou observar efeito sobre a redução do consumo de ração são práticas simples, contudo, que exigem observação ou planejamento”.

Nos tanques redes em reservatório existem o efeito de inversão térmica, porém, os produtores dispõem de um tempo maior para organizar ações de controle e correção das tabelas de consumo de ração por idade e tanque de produção: “Contudo, pelo modelo de produção não temos como interferir com medidas de controle na temperatura da água circulante.  Desta forma, a transferência de formas jovens com maior maturidade imunológica, maior adaptação às condições de ambiência e as pressões sanitárias deve ser uma alternativa para investimento em fase de produção juvenis”. 

Como uma medida intrínseca da produção, a qualidade da água deve ser analisada diariamente em todos os seus parâmetros como nível de oxigênio, temperatura, teor de amônia, nitratos, nitratos e níveis de minerais, especialmente na carcinicultura. Diante disso, aconselha Luiz, é necessário buscar novas tecnologias que permitam realizar o controle em modelo de automação, gerando sistema de monitoramento desses parâmetros e gráficos em tempo real e medidas de correções. 

“Transferir toda essa necessidade de controle da ambiência e qualidade dos parâmetros para os colaboradores passa ser uma tarefa complexa, pois, na maioria dos casos, há limitação de tempo da operação, falta bom critério de controle e, principalmente, interpretação de dados. Isso permite ao sistema falhas constantes de produção e prejuízos econômicos e zootécnicos”, evidencia o diretor da Suiaves.

Portanto, o treinamento dos colaboradores em todas as etapas da produção é crucial, e isso vale também para as questões de biosseguridade – começando pela utilização de aparelho celular em área de riscos sanitários ou de contaminação.

DE OLHO NO PASTO. De um modo geral, as vacas leiteiras, principalmente as europeias (Holandesas, Jersey, Pardo Suiço), sofrem muito mais com o calor do que com o frio. A faixa de conforto das vacas da raça Holandesa se situa entre 5ºC e 15ºC, mas elas suportam bem temperaturas entre -5ºC e 22ºC. 

Nessa faixa, elas conseguem manter a temperatura corporal dentro da normalidade (entre 38,5ºC). Abaixo de -5ºC, os animais começam a entrar em hipotermia. Sendo assim, como no Brasil não existe ocorrência de invernos severos, o risco de congelamento na ponta dos tetos é praticamente nulo (essa preocupação existe nos EUA e Europa). Quem traz essa explicação é Leonardo Dantas da Silva, sócio diretor da Cowtech. 

Apesar de não haver este desafio, o problema do inverno neste setor aparece na categoria bezerras – independente das raças – do nascimento aos 15 dias de vida: “Nelas, a faixa de conforto térmico fica entre 18º a 25ºC, sendo que abaixo de 15ºC já podem apresentar hipotermia”.

Diante deste contexto, as bezerras devem ganhar um cuidado especial, iniciando no nascimento. Isso inclui secagem da pelagem, colostragem correta (volume e qualidade de colostro), cura do umbigo, e nas condições de temperatura abaixo de 15ºC é recomendado aquecimento das baias  com uso de campânulas e lâmpadas incandescentes: “Nas bezerras é possível usar uma capa protetora nessas primeiras duas semanas de vida”, complementa Paulo Farano Stacchini, sócio Diretor na Cowtech.

Segundo ele, é necessário proteger os animais dos ventos frios, porém deve-se ter o cuidado de manter uma boa ventilação do ambiente. Isso serve também para as vacas adultas: os ambientes fechados podem proteger os animais de ventos frios, mas, também, podem facilitar a transmissão de doenças respiratórias pela proximidade dos animais.

“Neste caso, recomendamos a utilização de vacinas respiratórias para proteger contra IBR, BVD, BRSV, PI 3 e Pasteurela. Também recomendamos manter uma ventilação mínima constante em barracões (free stall, compost barn) para a retirada de gases do ambiente que podem irritar a mucosa dos animais”, informa Paulo.

No recorte da nutrição, ela deve ser ajustada para os níveis desejados de produção para cada categoria. Conforme realça Leonardo, vale lembrar que no inverno as pastagens tropicais não crescem, portanto, o uso de outros volumosos se faz necessário, a exemplo das silagens, feno, pré-secado, capineiras de cana: “Há também a necessidade de incrementar a densidade energética das dietas em regiões com invernos muito rigorosos, já que uma típica resposta ao estresse pelo frio intenso é o aumento do metabolismo e das exigências energéticas”.

Em relação ao consumo de água, o acompanhamento dos bebedouros e acesso deve ser monitorado mais intensamente, pois há uma tendência de se reduzir a ingestão de água, o que também afetará negativamente o consumo. “As vacas não gostam de beber água muito fria. Uma atenção especial deve haver nas noites muito frias: o congelamento da água dos bebedouros. Outro cuidado importante: a gaiola das bezerras. Quando de metal, pode estar tão fria que a língua das bezerras pode grudar e machucar. Não é comum no Brasil, mas nos países onde o frio é intenso, as gaiolas são de fibra, não de metal”, alerta Leonardo.

Dentro dos diversos cuidados neste período, no inverno úmido (situação comum no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), é bastante difícil secar a cama, especialmente em sistema Compost Barn, pois a umidade constante do ambiente dificulta a troca da umidade da cama para o ar. Com a cama mais úmida, detalha Paulo, a dificuldade de incorporar oxigênio também diminui e, dessa forma, o processo aeróbico da compostagem fica comprometido: “Nestes casos é necessário aumentar a reposição da cama para evitar que essa fique constantemente úmida – o que aumenta demais o risco de ocorrência de mastites”.

Em paralelo a isso, manter os pelos das vacas limpos é vital em baixas temperaturas para que eles protejam os animais do frio. Lama e esterco grudado, por exemplo, reduzem essa capacidade, fazendo o efeito inverso.

Diferente das outras proteínas, o inverno para o produtor mais tecnificado costuma ser uma oportunidade para o aumento na produção das vacas, na eficiência reprodutiva e diminuição de problemas relacionados ao calor. De acordo com Leonardo, é também o momento de se preparar para o ciclo seguinte de calor. 

“No verão nos preparamos para o inverno, e no inverno nos preparamos para o verão. Por isso é muito importante dominar o sistema de produção em que os animais estão inseridos e se apoiar em uma boa assistência técnica para cada vez mais errar menos na tomada de decisões”, conclui Paulo. 

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