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“Super vaca”: conheça as tecnologias do futuro para a produção leiteira

Natália Ponse, da redação

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Atualmente, uma vaca Holstein do Reino Unido produz 19 litros de leite por dia, enquanto que as espécies africanas produzem apenas pouco mais de 1,6 litros, ainda que estejam adaptadas ao calor, à seca, e a alimentação reduzida. Por conta disso, um nome reconhecido em todo o mundo resolveu investir em pesquisa para desenvolver uma “super vaca”, capaz de ajudar a lutar contra a fome na África.

Bill Gates, um dos homens mais ricos do mundo, doou US$ 40 milhões para a Global Alliance for Livestock Veterinary Medicines (GALVmed), uma organização sem fins lucrativos com sede em Edimburgo, na Escócia, que realiza pesquisas sobre vacinas para animais de produção e genética. Ele quer ajudar a criar a vaca perfeita que produzirá tanto leite quanto uma vaca europeia, mas que suporte o calor como uma africana. “Embora existam questões sobre se o mundo pode satisfazer o apetite por produtos de origem animal sem destruir o meio ambiente, é fato que muitas pessoas pobres contam com gado para alimentação e renda”, justificou o bilionário.

O melhoramento se dará, provavelmente, pela seleção dos melhores genes dos bovinos europeus e africanos para criar a “super vaca”. Apesar de parecer distante, esse futuro é um tanto quanto palpável. No Brasil, por exemplo, a Embrapa Gado de Leite (Juiz de Fora/MG) anunciou no final do ano passado o trabalho realizado para produzir leite destinado às pessoas com alergia às beta-caseínas, que correspondem a 30% das proteínas do produto.

A alergia à proteína do leite de vaca, conhecida como APLV, é um problema mais observado na infância. Segundo dados da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), cerca de 350 mil indivíduos no Brasil são alérgicos. A pessoa que tem o problema terá que eliminar o leite de vaca da dieta, deixando de se beneficiar de uma importante fonte de cálcio e de outros nutrientes num momento da vida em que o ser humano mais necessita.

Embora os alergistas afirmem que o leite A2 não seja indicado para todos os casos, o pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Marcos Antônio Sundfeld Gama, diz que ele pode ser benéfico para muitas pessoas, pois a beta-caseína é a principal causadora da APLV.

Cientistas concluíram que até oito mil anos atrás as vacas produziam somente o leite A2. Uma mutação genética nos bovinos levou ao surgimento de animais com o gene para a produção do leite A1. Essa característica é mais comum nas raças de origem europeia (subespécie taurus). As raças Holandesa e Pardo-suíça possuem 50% de chances de produzirem leite A2. Na raça Jersey esse índice é maior: 75%. Da subespécie taurus, apenas a raça Guernsey, pouco comum no Brasil, possui 100% dos seus indivíduos capazes de produzir leite A2. Já nas raças zebuínas (subespécie indicus), de grande predominância na pecuária nacional, que inclui o gir leiteiro, 98% dos indivíduos têm genética positiva para a produção de leite A2.

“A alta frequência do alelo A2 na pecuária brasileira é uma vantagem competitiva para nossos produtores explorarem o nicho de mercado que está se formando em torno do produto”, diz o pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Marcos Vinicius G. Barbosa da Silva. Para o também pesquisador da Embrapa, João Cláudio do Carmo Panetto, essa informação disponibilizada nos sumários dos touros gir leiteiro e girolando irá facilitar o processo de melhoramento genético do rebanho, caso o produtor queira produzir leite A2.

Mas, não bastam as informações a respeito do touro, cujo sêmen será usado na fertilização. As vacas do rebanho devem ser genotipadas, ou seja, é preciso identificar no material genético do indivíduo se o animal é homozigoto (possui os dois alelos) para a produção de leite A2. O ideal é que sejam selecionadas as vacas A2A2, que inseminadas por um touro A2A2 terão 100% das filhas com os alelos A2A2. Panetto explica:

Pesquisadores da Embrapa orientam que o processo de seleção pode ser acelerado por meio do descarte de animais A1A1 e A1A2. Devem permanecer no rebanho somente as vacas e bezerros com o genótipo A2A2. A velocidade com a qual o rebanho será convertido para a produção de leite A2 dependerá da estratégia de uso do sêmen de touros A2, do investimento na genotipagem das vacas, das taxas de descarte e da retenção dos bezerros. “Se o criador optar pelo uso conjunto dessas ações, sem reduzir drasticamente o rebanho, o tempo necessário para que todos os animais da fazenda sejam A2A2 poderá variar de duas a três gerações, cerca de dez a 15 anos”, diz Panetto.

Pode parecer complexo e demorado, mas quem optou pela produção de leite A2 diz que é compensador. O pecuarista Eduardo Falcão, proprietário da Estância Silvânia, em Caçapava (SP), diz que o litro de leite A2 pode ser vendido na forma de derivados lácteos até quatro vezes mais caro que o leite convencional.

O mercado internacional aponta para o sucesso do empreendimento. A Nova Zelândia, maior exportadora mundial de leite em pó, produz leite A2 desde 2003. O país registrou comercialmente o nome A2 Milk e certifica laticínios e fazendas que produzem exclusivamente o leite A2. Outro grande exportador, a Austrália, também já ingressou nesse mercado. O curioso é que o produto deixou de ser uma exclusividade de pessoas alérgicas à proteína do leite e está conquistando o grande público. Na Oceania é possível comprar leite e derivados lácteos em diversas lojas e cafés. O produto também já é visto nas gôndolas de supermercados da Inglaterra e dos Estados Unidos.

Como se pode ver, aquele futuro que víamos nos filmes de ficção científica é mais presente do que imaginamos. Nossos avôs jamais imaginariam que a seleção genética chegaria tão longe, e tão rápido. O produtor do futuro nasce dos investimentos e apostas realizadas agora, então, não deixe para depois a atualização da sua fazenda – ou ela pode ficar presa ao passado.

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