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Por que pecuaristas resistem à integração?

Apesar da adoção crescente, método ainda causa insegurança em produtores

Natália Ponse, da redação

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A pecuária brasileira passou por algumas revoluções ao longo de sua história. Primeiro, dominamos os solos tropicais. Depois a soja, que até então era cultivada somente em clima temperado, foi trazida para nosso sistema e alcançou bons resultados – inspirando até a África a cultivar o grão. Em seguida meio o sistema de plantio direto, a introdução e melhoramento de forrageiras tropicais e a safra e safrinha num mesmo período de chuva, logo antes de os mineiros introduzirem o melhoramento genético do Zebu e de outras raças.

Nas palavras do pesquisador da Embrapa Cerrados, Joao Kluthcouski (conhecido como João K), “um grupo de doidos resolveu unir todas essas revoluções em um único sistema: a integração”. E ele sabe bem do que fala. Com experiência na área de manejo de solos e culturas graníferas e sistemas de produção, com ênfase em Integração Lavoura-Pecuária, João K é um dos principais porta-vozes do sistema e acredita que, por esta razão, o Brasil passou de importador de alimentos de cesta básica (arroz, feijão, leite etc) para se tornar um grande exportador, atingindo 232 milhões de toneladas de grãos e um rebanho de 210 milhões de cabeças.

Ele conta que, há alguns anos, viu em uma publicação que de 1975 a 2006 houve um crescimento de 400% na produção e produtividade pecuária – mas o aumento de pastagem não aumentou. “Aí pensei: ‘Toda estrada pela qual passo só tem cupinzeiro, onde está a pastagem?’. Foi então que descobri que o negócio era outro. Estávamos tratando nosso animal apenas no cocho, só com silagem, em um país continental. Que luxo era esse? É preciso explorar o potencial da nossa natureza, esse clima belo que Deus nos deu”, explica.

O País é o único com uma vasta disponibilidade para crescimento horizontal em área. “O Brasil tem 14,5 milhões de hectares com ILP(F). Boa parte ainda não usa o boi, só produz palha, imagina quando colocarem o boi na área?”, questiona João K.

Mas, com tantos benefícios, por que o sistema ainda não é amplamente utilizado no País? Para se ter uma ideia, um estudo realizado pela Embrapa Pecuária Sudeste (SP), durante a safra 2016/2017, entrevistou 175 produtores rurais de várias regiões do Estado de São Paulo e constatou que pouco mais da metade dos pecuaristas ouvidos, 52%, faz integração: 38% adotam lavoura-pecuária (ILP) e 14% pecuária-floresta (IPF).

No Brasil, muito do uso da integração vem de lavouristas. Isso se dá por conta da questão cultural: ao contrário dos pecuaristas, eles têm contato direto com novas tecnologias e grandes investimentos, já que todos os anos precisam aplicar e buscar soluções que tragam cada vez mais produtividade. “O boi foi usado por muito tempo como reserva de valor. Ele ficava ali e, quando era preciso, vendia-se. Por demorar até três anos para o pasto se degradar, o animal ficara ali, parado, e o produtor perdendo dinheiro. Já a agricultura sempre foi mais dinâmica, já que é preciso investir, trabalhar insumos e rodar maquinário. Isso faz com que essa pessoa esteja sempre em contato com novas tecnologias, aplicando-as de forma mais consistente”, explica o gerente de Gado de Corte do Rehagro, Diego Palucci Pantoni.

O investimento em maquinário, solo e tecnologia custa caro. Muitos, sem procurar acompanhamento técnico, fazem aplicações impróprias para a sua realidade (cultura que não se adapta à região, estrutura de armazenagem incorreta etc) e perdem muito dinheiro com isso, desiludindo-se com o sistema. “Se o retorno não fosse proporcional ao investimento, não recomendaríamos o sistema”, completa Pantoni.

João K relembra a citação do presidente da John Deere Brasil, Paulo Herrmann: “Num futuro próximo, a produção de proteína animal ficará por conta dos lavoureiros”. O pesquisador justifica a fala do executivo dizendo que aqueles que praticam a integração conseguem mais benefícios para a forrageira, por conta da adubação residual. “Não há custo de adubação. A lavoura paga os custos parciais ou totais da recuperação do pasto. O pasto é a salvação da lavoura”, destaca.

Ainda de acordo com o especialista, uma das próximas etapas da pecuária é trabalhar com conforto animal e boi sem estresse. “A árvore elimina a irritabilidade pelo calor. Com isso, ocorre até 22% de ganho de peso, já que quando venta (o sistema indica “corredores” de árvores para direcionar a corrente) o gado está lá, só mastigando, sem gastar energia e sem transformar o cálcio armazenado. A árvore é o processo mais simples de fazer isso”, recomenda João K.

A indústria também está ciente dos benefícios da integração. A AB Vista, parceira da feed&food nesta homenagem à pecuária brasileira, entende que a ILP/ILPF é uma maneira de integrar sistemas de produção e tecnologias que vão ajudar na maximização da produtividade e, por consequência, na lucratividade da terra. “Cada vez mais vemos produtores aderindo a alternância e uso concomitante de florestas, pastagens, animais e lavoura na mesma área, devido aos benefícios de se ter uma maior lotação animal, maior sanidade para as plantas e também para os animais, devido a rotação de culturas, tudo isso contribuindo para uma maior lucratividade”, discorre o gerente de Negócios Ruminantes LAM, Nelson Ferreira Júnior.

Para auxiliar o produtor nesta empreitada, a AB Vista oferece soluções nutricionais para maximizar o desempenho animal, sendo que o Vistacell (levedura viva) melhora as condições ruminais para melhor aproveitamento da dieta e o Vistapre-T (enzima fibrolítica) atua nas diferentes fontes de fibra da dieta, melhorando a digestibilidade e a eficiência alimentar dos animais, contribuindo para um sistema ILP/ILPF mais sustentável, eficiente e mais lucrativo.

Para o executivo, a pecuária talvez seja um dos sistemas de produção do agronegócio mais difundidos mundialmente pela adaptabilidade dos bovinos, além da carne bovina ser extremamente saudável e apreciada. Por isso o que nao faltam são produtores nem consumidores para este rico (e delicioso) alimento. “O Brasil é um dos maiores players globais tanto na produção quanto na exportação de animais vivos e carnes in natura ou processadas. A produção de bovinos no Brasil envolve mais de 2,5 milhões de estabelecimentos/fazendas, nos colocando como o segundo maior rebanho (perdendo para Índia), segundo maior produtor de carne e somos ainda o maior exportador de carne do mundo, cadeia que envolve muitos bilhões de reais ao redor do globo”, finaliza Nelson Ferreira Júnior.

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