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Por que o temperamento do animal pode salvar ou afundar uma fazenda

Seleção e criação de matrizes mais produtivas tornou-se fator essencial

Natália Ponse, da redação

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Com a tecnificação da atividade pecuária crescem os desafios e, com eles, os investimentos para manter a estabilidade e a lucratividade. Dos atuais 1,7 milhão de pecuaristas, apenas 50 mil operam com muita tecnologia e obtém lucratividade robusta; e 250 mil tocam a atividade em níveis tecnológicos que viabilizam economicamente a sua sobrevivência. O dado alarmante é que a maioria é carente de tecnologia e muitos trabalham no vermelho: cerca de 1,4 milhão.

A alternativa para os próximos anos, na opinião do consultor em Produção de Gado de Corte da Cria Fértil (Goiânia/GO), Ricardo Passos, é aumentar a produtividade por área, aliada a aplicação crescente de tecnologia ao trabalho, com um número maior de animais por profissional envolvido no processo produtivo. Neste cenário, selecionar as características corretas é fundamental para que esse jogo tenha resultado vitorioso. Entre os itens de importância econômica a serem observados, destacam-se altura, comprimento corporal, arqueamento e comprimento de costela, ossatura, aprumos, largura do ombro, musculatura, angulação da garupa, conformação de úbere e tetos, tamanho da vulva, pelagem, pelo, tamanho de boca, chanfro e raça. Mas, também, é preciso atentar-se a outro fator: o temperamento do animal.

O assunto foi mostrado pelo especialista durante o Encontro dos Encontros da Scot Consultoria (Bebedouro/SP), realizado em setembro de 2016, mas deve se tornar tema obrigatório no dia a dia do pecuarista. “O temperamento é a única característica que, além de interferir na produtividade do animal, pode afetar todo o grupo. Em fazendas de animais mais reativos, há uma tendência das fêmeas emprenharem menos”, diz Passos.

Esse dado foi obtido avaliando a velocidade de saída do brete, classificando-a em três notas: saída andando, saída marchando e saída correndo. De acordo com a pesquisa, realizada na Fazenda Rio Preto (MT), os animais que saíram andando apresentaram taxa de prenhez de 61,54%, enquanto os que saíram marchando indicaram 57,29% de taxa de prenhez, contra apenas 29,63% daqueles animais que saíram correndo.

“Por isso, a seleção de matrizes com bom temperamento é imprescindível para termos um rebanho eficiente. Quanto à escolha dos reprodutores é necessário um rigor ainda maior, pois um touro de temperamento indócil ou agressivo será multiplicado na razão de 25 a 30 vezes por ano, que é a quantidade de bezerros produzidos em monta natural. Quando se fala em inseminação artificial o caso é ainda mais grave, já que o número de descendentes pode chegar a milhares”, esclarece o especialista.

Para ele, é impossível acreditar que em uma atividade eficiente que não selecione com critérios objetivos seu rebanho, permitindo animais de temperamento ruim e que não investe em treinamento e escolha de equipe para manejar bem o rebanho. “É necessário selecionar animais eficientes e que viabilizem o negócio por meio da produção de indivíduos superiores”, pontua. Como ferramentas que podem ajudar nesse processo, Ricardo Passos indica as provas de ganho de peso, ultrassonografia de carcaça, provas genômicas, teste de progênie, entre outras.

A Dra. Temple Grandin, professora da Universidade do Colorado (EUA), mencionou durante um curso em 2014 realizado no Brasil que os zebuínos estão entre os grupos raciais mais inteligentes com os quais ela já trabalhou, aprendendo rapidamente o “bom” e o “mau” manejo, reagindo mais rapidamente aos dois. Animais submetidos a manejo ruim tem uma tendência de serem mais reativos no curral quando estão sobre pressão e o treinamento da equipe, visando melhorar o manejo e descarte dos animais mais reativos, é na opinião de Passos a melhor solução. 

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