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Pecuária sustentável: produzir mais com menos

Especialista aponta que expansão territorial não é necessária para atender demanda crescente

Gabriela Salazar, da redação

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Integrar um sistema de produção mais sustentável é uma das grandes demandas atuais da pecuária. Para atender essa expectativa é preciso pensar de forma mais ampla, para além do seu rebanho. Quanto a pecuária brasileira ainda tem a crescer? Neste 14 de outubro, data em que se celebra o Dia Nacional da Pecuária, a feed&food, responde essa questão de modo otimista: MUITO!

A tendência de crescente da produção brasileira, no entanto, não é algo que parte somente de nós, veículos de comunicação e disseminadores de informação, mas também de todo o setor. O chamado celeiro do mundo, tem sua razão de assim ser conhecido, a qualidade do solo, condições climáticas e capacidade de expansão produtiva são um dos principais diferenciais que colocam o Brasil na linha de frente quando o tema é produção.

Mas, para ser sustentável neste contexto de demandas cada vez mais altas é preciso mudar. De acordo, com o pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, Alexandre Berndt, essa mudança, entretanto, pode ser mais “simples” do que podemos imaginar. Pequenos passos, segundo ele, já seriam capazes de reduzir pela metade a ocupação territorial da pecuária – com os números de hoje.

O pesquisador enfatiza a necessidade de explorar essa produção a pasto, de acordo com as facilidades de cada região, já que o País possui uma grande diversidade de biomas.   O importante, segundo ele, é que em cada característica o produtor consiga produzir da melhor forma possível. “A sustentabilidade é usar melhor o recurso que você tem. Ela pode ser aplicada na água, terra, comida ou no próprio rebanho. O importante é buscar eficiência, para produzir mais com menos e nós temos tecnologias para isso”, explica.

E quem sabe usufruir dessa tecnologia se destaca. Alexandre comenta que muitas vezes é possível vez casos de produtores vizinhos que utilizam sistemas diferentes e que isso demonstra que a gestão também pode ser um fator impeditivo para a adoção de tecnologias que propiciam avanços em relação a produção mais sustentável.

“Isso é uma questão cultural, toda tecnologia quando surge gera uma desconfiança, mas também temos áreas em que o produtor também não tem o perfil para fazer integração porque é um sistema difícil de manejar”, comenta.

Um exemplo, citado pelo pesquisador, é o uso da pecuária extensiva. “Se o produtor começa a fazer o pastejo rotacionado e nisso você inclui a agricultura, fica complicado, e adicionar árvore no sistema fica dificulta ainda mais. Por isso, é preciso ter a aptidão da terra e competência do produtor”, salienta.

Sistemas integrados. A adesão de sistemas mais elaborados de produção exige mais da gestão dos produtores, mas podem ser satisfatórios para além dos ganhos financeiros. O sistema de Integração Lavoura-pecuária-fazenda é um exemplo de modelo de produção para a remoção de carbono.

O pesquisador da Embrapa explica que apesar não se ter em números o nível do carbono absorvido, é possível observar que esse é um dos principais sistemas que auxiliam na retenção desta substância. Segundo ele, o carbono fica retino na árvore e se mantém, até mesmo, quando a matéria prima é utilizada para produção de outros materiais, como, por exemplo, na construção civil e em móveis. Essa retenção fica imobilizada principalmente nos troncos, já que galho fino comumente é utilizado para lenha, liberando o novamente o carbono.

“Estamos sugerindo o ILPF em áreas que já tem pastagem, não estamos gerando um pasto novo. Se é um pasto que está em processo de degradação, o ideal é fazer uma reforma com lavoura, que seria o ILP, tirando o gado e fazendo o plantio, com esse adubo residual você planta um capim melhor. Você está usando a mesma área e produzindo mais”, elucida Alexandre.

Menor impacto. Cada região possui um aproveitamento diferente de cada sistema, mas, a combinação de técnicas pode resultar em uma pecuária cada vez menos invasiva. Para o pesquisador, o sistema de pastejo intensivo dentro do ILPF e uma terminação curta em confinamento (como normalmente é no Brasil), seria o mais próximo de um processo mais sustentável.

“É possível reduzir o abate para 24 meses, a recria seria mais longa,  passando 4 meses no confinamento, ficando 13 no pasto e sete com a mãe, o animal já sairia do  desmame com 150 kg, ganharia, ao menos, mais 200 kg no pasto e no confinamento chegaria aos 500 kg”, exemplifica Alexandre.

Para isso, segundo ele, é preciso ter a adoção de muita tecnologia. Iniciando pela boa nutrição da vaca para que ela tenha um bezerro pesado e forte, aliada as campanhas de vacinação e vermifugação, mantendo todo o cuidado sanitário com a vaca e o bezerro, para fazer um desmame racional, inteligente, em que o animal não sinta muito.

Um pasto de boa qualidade, incluindo, até mesmo, de acordo com o pesquisador, a suplementação durante o inverno. Mantendo neste período os cuidados com a sanidade do animal e um confinamento que lhe traga uma dieta balanceada, com bom espaço no cocho e continuidade dos cuidados sanitários.

“É um conjunto de coisas que o produtor precisa trabalhar. Vamos do fio ao pavio para ter boa qualidade e aceitação de sustentabilidade. Se o produtor e adotar tudo isso, tem chance deste animal ser mais precocemente abatido e com uma excelente qualidade de carne e de forma mais sustentável, usando o mesmo espaço territorial, mas usando melhor”, descreve.

Retorno financeiro. A adoção de um sistema como esse poderia trazer custos mais altos para produção, mas que se pagariam, conforme analisado pelo pesquisador, já que teria um retorno do capital em menor tempo e ganharia em escala. “Você buscar eficiência na produção também ajuda a reduzir custos. Esse modelo pode ter diferentes custos e isso depende da gestão de cada um”, relata.

A atual estimativa, de acordo com o pesquisador, aponta que aproximadamente 13 milhões de hectares no Brasil são utilizados no sistema integrado, entre eles, 11 são dedicados à lavoura-pecuária, onde o produtor durante a entressafra produz capim e coloca o gado para a engorda. Os outros dois milhões, segundo ele, já fazem a integração completa (ILPF).

Desde 2010, a incorporação desta tecnologia vem crescendo. O aumento, segundo Alexandre, é um dos principais indicativos do retorno financeiro, além, é claro, das vantagens para o bem-estar animal e ganhos ambientais.  Para que o sistema expanda, ainda mais, o pesquisador acredita que é uma questão de tempo e de políticas públicas. “O próprio Plano ABC tem um financiamento para quem quiser implantar, com a melhora dos juros, esse recurso pode se tornar mais atraente”, relata.

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