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Os desafios para o Brasil alimentar o mundo

Especialistas do setor discorrem sobre as mudanças necessárias para crescer

Natália Ponse, da redação

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Em todas as atividades, desde a administração das fazendas até o trabalho direto nas plantações, elas já somam mais de 945 mil produtoras rurais em todo o Brasil, o equivalente a 18,7% dos produtores, de acordo com o último censo agrícola do IBGE. O potencial das mulheres no mundo, se explorado adequadamente, pode gerar US$ 12 trilhões adicionais – valor equivalente ao PIB de um dos gigantes do mundo: a China.

Por isso, é inevitável pensar que elas têm uma grande representatividade na missão brasileira para 2050: ser o país responsável por abastecer com alimentos, em 40% do todo, as quase 10 bilhões de bocas que estarão no mundo. A bola da vez, do presente e do futuro, é o Brasil. O consenso é que abrir mais áreas para cumprir tal feito não é necessário. “Ao adotar 50% das tecnologias disponíveis, nós mais do que duplicaríamos os nossos índices de produtividade e produção”, salienta o diretor Executivo de Inovação e Tecnologia da Embrapa, Cleber Soares.

O assunto foi tema de debate no primeiro dia da 3ª edição do Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio, realizado nos dias 23 e 24 de outubro em São Paulo (SP) (a cobertura completa do evento você confere na revista feed&food de novembro – confira em breve). Na mesa redonda “O futuro agora, na prática – Ciência, tecnologia e gestão sistêmica”, o executivo da Embrapa reforçou a importância dos sistemas de integração e da ciência da computação para alcançar melhores índices. “Podemos utilizar essa tecnologia para escolher o melhor momento de plantio, forma correta de adubação, fertilização, irrigação, momento para a colheita, forma de armazenamento, softwares inteligentes para evitar o desperdício, o momento para se vender ou fazer estoque e até o desdobramento deste material no solo”, indica o especialista.

Ele ainda fala sobre a atual valorização da sustentabilidade no mercado. “O mundo não quer mais visualizar o Brasil como um simples produtor de alimentos. Temos que melhorar em volume, para suprir as 821 milhões de pessoas que estão em situação de fome. Mas o alimento por si não é mais provedor de nutriente, ele é hoje além da qualidade de vida, vai além da sustentabilidade. Estamos contribuindo para a mudança de hábitos alimentares, o Brasil produz um de cada três bifes bovinos comercializados no mundo, dois de cada cinco copos de laranja e um de cada três frangos exportados no mundo”, explica. Para ele, o País precisa ser mais ousado e mais presente no mercado global. Cleber Soares cita que ainda falta estratégia e comunicação, para falar sobre o tanto de inovações que o agronegócio utiliza.

O presidente da Cargill no Brasil, Luiz Pretti, destaca que é inevitável pensar no Brasil quando se fala em alimentar o mundo de maneira segura, responsável e sustentável. Mas, faz uma crítica: “Infelizmente o governo brasileiro não dá suporte para as empresas produtoras, que têm dificuldades para escoar a produção, mesmo com grandes investimentos. A Cargill, por exemplo, tem seis portos e ainda assim enfrenta desafios nessa questão. Além disso, o tabelamento do frete atrapalhou demais as pessoas que fazem parte do agronegócio”.

Representando a BASF no painel, o gerente de Sustentabilidade Corporativa da companhia, Emiliano Graziano, falou sobre o desperdício de alimentos. A tecnologia, de acordo com ele, é também uma ferramenta para combater este mal, que representa um prejuízo de US$ 160 bilhões no mundo. “É preciso ter desenvolvimento de produtos de qualidade, e tecnologias que leve, à redução não somente ao desperdício ligado ao fator produtivo (10% do total), mas à toda a cadeia”, indica.

Ele ainda reforça o papel das mulheres em outro aspecto importante: o da informação: “Ocorre mais desperdício de alimentos em países com baixo nível de educação. Então, fazer investimentos em tecnologia, produtos, comunicação e educação é o que conseguirá reverter este quadro. E, para isso, é preciso contar com o apoio das mulheres, que são grandes propagadoras de informação no meio rural”.

Paulo Herrmann, presidente da John Deere Brasil, lembra outra “ameaça” (entre aspas, mesmo) à cadeia produtiva de proteína: “A Europa está ‘brincando’ com proteína artificial. Como vamos competir com o Vale do Silício? Somos produtores de proteína natural. Por isso, temos que aumentar a eficiência e, uma das formas de isso se concretizar, é por meio dos produtores de alimentos”.

De um lado, um mundo clamando por comida, principalmente proteína. Do outro, o crescimento da população mundial e do poder aquisitivo. A exigência quanto à rastreabilidade só faz crescer a necessidade de se investir em informação e produtividade no campo. Hoje, o Brasil não é mais um simples fornecedor de commodities – e é hora de pensar grande.

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