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“O que precisamos é por o Carbono no lugar certo”, afirma pesquisador

Sérgio Raposo de Medeiros é pesquisador na Embrapa Pecuária Sudeste e especialista em Nutrição Animal

Wellington Torres, de casa

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A produção de alimentos neste século, frente aos desafios mercadológicos e ambientais, demanda resiliência e procura contínua por inovações, como por exemplo a “descarbonização da pecuária”. Ação, que segue ganhando muito destaque atualmente, é tema de estudo da Embrapa Pecuária Sudeste.

Como explica o pesquisador da Empresa e especialista em Nutrição Animal, Sérgio Raposo de Medeiros, “trata-se de um termo que, ao ser transplantado de outros setores para a pecuária fica um tanto distorcido”.

“Para os principais setores emissores, como energia e transporte, é importante fazer a transição do uso de fontes de energia fóssil para fontes limpas, que não colocam mais carbono (C) na atmosfera. Aí, sim, o principal é descarbonizar. No caso da pecuária, o que precisamos é por o C no lugar certo”, pontua.

Segundo ele, a contribuição, de longe, mais relevante da pecuária é com a emissão de metano, que é uma ineficiência. Uma perda de energia. “Apesar de ser inevitável, é possível reduzir muito essa perda, desviando ao máximo o C que iria ser perdido como metano na atmosfera em carne, leite ou lã”.

“Como exemplo do potencial, recentemente foi lançado apenas um aditivo nutricional que pode reduzir em até 60% a emissão. Para mostrar, ainda, como o termo “descarbonizar” na agropecuária é bastante impróprio, sequestrar C no solo é uma das melhores formas de resolver o problema dos níveis crescentes de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera. Depois dos oceanos, onde o aumento de CO2 causa acidificação e coloca em risco esse ecossistema, os solos seriam o maior dreno de C”, conta, ao complementar que, “todavia, ao contrário dos oceanos, o aumento de C do solo melhora suas propriedades biológicas e físico-químicas, melhorando a produtividade, sua estrutura e infiltração de água para recarregar nossos aquíferos”. 

Ainda de acordo com Medeiros, tais sistemas integrados são um excelente exemplo disso, pois no cerne do seu sucesso está o efeito das pastagens entre as culturas no aumento do Carbono do solo, devido a enorme capacidade de produção de raízes das forragens tropicais. “Naqueles em que árvores fazem parte, podermos ter também C estocado na madeira e, apesar de ficar claro a impropriedade do termo “descarbonizar” para a pecuária, podemos entender o termo em reduzir, de todas as formas possíveis as contribuições do setor com as emissões de GEE”, destaca.

Ações cada vez mais sustentáveis são um caminho sem volta para o setor (Foto: reprodução)

Como ocorre a redução?

Ao ser questionado em como a redução e remanejamento do carbono podem ser realizados, o pesquisador pontua os pilares de sustentação para a iniciativa. São eles: aumento de eficiência, intensificação da atividade e ações diretas de redução das emissões.

“Na questão de eficiência, quanto mais eficiente for a produção, menor a proporção de metano gerada por unidade de produto. Já quando intensificamos, temos menos situações em que há emissão sem contrapartida de produção de carne ou leite. Por exemplo, animais sem ganhar peso na seca, vacas vazias ou novilhas de reposição que atrasam para entrar em reprodução emitem metano, mas sem nada produzir. Por fim, existem ações que diretamente reduzem a emissão como o já citado uso de aditivos ou estratégias nutricionais diferenciadas, manejo da adubação e outras”, explica o profissional.

Como retorno, os tópicos, quando postos em prática, podem deixar o sistema de produção mais resiliente. Contudo, é necessário se atentar às soluções mais promissoras, como aumentar o uso de alimentos concentrados, a fim de intensificar e emitir menos metano por quilograma de produto. No entanto, como também pondera o pesquisador, dependendo dos níveis usados, “pode deixar a pecuária menos resiliente à falta de oferta dos produtos”.

“Sistemas que usam, por exemplo, o consórcio gramíneas-leguminosas podem, a princípio, parecerem menos atraentes, por serem menos intensivos, mas no cenário das mudanças climáticas pode ser uma aposta recompensadora, por ser menos dependente de insumos externos e ter mais resiliência à seca. No fim das contas, o importante não é escolher um em detrimento do outro, mas combinar as soluções para ter o melhor equilíbrio, aproveitando as vantagens de cada um e reduzindo a importância relativa de suas limitações”, aconselha.

Vale ressaltar que o uso de tecnologias da agropecuária 4.0 tem um imenso potencial de melhorar a eficiência produtiva. Segundo Medeiros, ação pode ajudar a ter um controle de gestão muito maior que o atual, que permite a tomada de decisões muito mais assertivas em tempo real.

“Por exemplo, no manejo de pastagens decidindo a troca de pastos no pastejo rotacionado de maneira mais certeira permite aumento de produtividade, melhor aproveitamento das forragens e redução do uso de insumos (adubos, suplementos alimentares etc.)”, pontua.

Estudo é realizado pela Embrapa Pecuária Sudeste (Foto: reprodução)

Mercado interno e papel do consumidor nacional

Em uma era onde a conectividade possibilita obter as mais diversas informações, assim como expor opiniões, o papel do consumidor segue mudando continuamente, se tornando muito mais ativo aos processos de produção. Ao se pensar na pecuária, isso não poderia ser diferente, inclusive, a redução de carbono está atrelada à participação do público-final.

“[É] um dos componentes que têm criado a pressão para uma pecuária mais sustentável e transparente. Infelizmente, essa pressão vem muito em decorrência de mitos sobre a produção de carne e leite serem grandes vilãs ambientais”, situa o pesquisador, ao frisar que, “mesmo assim, trata-se de uma crise que tem que ser aproveitada como oportunidade, pois somos um dos setores que mais pode reduzir suas emissões e cujo resultado é produzir mais alimento, de forma mais eficiente e, inclusive, aumentando a rentabilidade do produtor”.

Entre as vantagens da redução, profissional comemora que se pode produzir mais, melhor e capitalizando o setor. “De quebra, evitamos questionamentos dos mercados externos que, potencialmente, podem gerar embargos às exportações de nossos produtos agropecuários”.

Em nome da Embrapa, Sérgio ainda conta que, processos como estes são um caminho sem volta e que é preciso grande contribuição da ciência para gerar dados que garantam que as medidas propostas são, de fato, eficazes, bem como, encontrar oportunidades inovadoras.

“Seja para melhoria de processos já em uso (otimização de dietas num confinamento), na criação de novos processos (otimização do uso de um confinamento para aumentar a eficiência do seu entorno, fora dos limites da propriedade onde ele se encontra)”, exemplificou.

Outro ponto, que será realizado em colaboração com parceiros de pesquisa e da iniciativa privada, futuramente a energia elétrica utilizada na Embrapa Pecuária Sudeste virá da luz do sol, uma vez que será instalada uma usina fotovoltaica para atender à demanda da unidade.

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