in

Mulheres que lideram e inspiram o crescimento do agronegócio nacional

Natália Ponse, da redação

[email protected]

A liderança feminina ultrapassa fronteiras – literalmente. Até maio de 2014, quatro presidentes mulheres estiveram juntas em atividade (Argentina, Chile, Brasil e Costa Rica). A tendência também é observada no âmbito privado, com uma crescente presença feminina em cargos gerenciais. A razão para isso, ao contrário do que muito se lê por aí, não é “sensibilidade”. Esse adjetivo classifica apenas uma categoria dentre as tantas em que as mulheres se encaixam. Quem conhece verdadeiramente uma personalidade feminina no dia a dia sabe que sua principal característica, na verdade, é a força: de lutar, de vencer, de se superar e de não apenas ultrapassar obstáculos, mas destruí-los.

O agronegócio é formado por profissionais fortes que, do campo às mesas de reuniões executivas, trabalham pesado para que alimentos seguros perpetuem a vocação nacional para além dos limites do País, alimentando o mundo. Na Coordenação de Trânsito e Quarentena Animal (CTQA) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA, Brasília/DF), Judi da Nóbrega, de 51 anos, representa o reforço ao verdadeiro estereótipo da mulher no trabalho: responsabilidade e organização. 

A coordenação desenvolve, permanentemente, ações para manter, com segurança,  o comércio internacional de animais e produtos de origem animal. A CTQA também realiza um controle acurado das ações de fiscalização nos locais de egresso e ingresso de animais, seus produtos e subprodutos, destacando-se, ainda, a vigilância do trânsito nacional dos mesmos, a fim de preservar o patrimônio pecuário nacional.  “Em 2016, quando chegamos ao Departamento de Saúde Animal do ministério (DSA/MAPA), nosso desafio era ampliar os protocolos sanitários para animais vivos e material genético. A nossa resposta aos obstáculos veio já em 2017, pois ampliamos em 39% o número de parceiros comerciais do Brasil para material genético avícola; em 16% para animais vivos, e em 26% para material genético bovino”, celebra a profissional.

A médica-veterinária é natural de Patos (PB) formada pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB, João Pessoa/PB) e pós-graduada em Controle de Qualidade em carne, leite, ovos e pescado pela Universidade Federal de Lavras (UFLA, Lavras/MG). Sua trajetória no ministério data de 2003, quando foi chefe do Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal (DFA/MT) por dois anos. Após, ficou no cargo de chefia do Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal (SIPA-MT) durante três anos, trabalhando posteriormente como chefe da Divisão de Inspeção de Carne de Ruminantes, Equídeos e Avestruzes, coordenadora-geral de Inspeção, substituiu o diretor do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal por cinco anos, atuou com assuntos internacionais na secretaria de Defesa Agropecuária e iniciou, em maio de 2016, a coordenação de Trânsito e Quarentena.

Ficou sem fôlego? Ela não. O avanço que se vê atualmente no caminho para a igualdade entre os sexos se estende ao serviço público, que está caminhando para eliminar a desigualdade de gênero, indica Nóbrega. “O MAPA consolida o reconhecimento profissional e garante novas oportunidades para a mulher, o que pode ser visto no grande contingente dessas profissionais ocupando cargos de gestão na instituição”, afirma.

Entretanto, Judi da Nóbrega reconhece: o campo de atividade do MAPA, concentrado no agronegócio, ainda é um cenário predominantemente masculino. “Neste sentido, a atuação feminina, principalmente nas ações de fiscalização em campo, torna-se mais difícil. Vivenciamos  situações de dificuldade em lidar com os fiscalizados, que oferecem resistência em serem ‘controlados’ por uma mulher”, aponta a coordenadora de Trânsito e Quarentena Animal do ministério.

A atuação em grandes projetos é destaque entre as profissionais do ramo. Com a persistência inerente à mulher, é fácil saber que o sucesso é consequência diante da dedicação feminina. Quem está em contato com o agronegócio já ouviu falar sobre a já tradicional Caravana da Produtividade, da Boehringer Ingelheim (São Paulo/SP). A terceira edição, realizada no final ano passado, é consequência do empenho da analista de Marketing Sênior, Camila Ferraz, de 33 anos. Natural de Campinas (SP) e responsável por unificar os planos dos produtos para elaborar projetos integrados ao seu público, a profissional deu o start ao projeto com o propósito de ajudar o produtor a obter mais informação e solução para seu negócio.

Na oportunidade, ela conta, foi constatado que o homem do campo precisava saber mais sobre produtividade. “A partir do momento em que o pecuarista aumenta sua produtividade, ele ganha mais dinheiro”, destaca. Foi com esse pensamento que a caravana passou de três ônibus para quatro caminhonetes, além de uma ampla estrutura informativa e de orientação. “Víamos muitos fazendo palestras comerciais focando no produto, então quisemos ir além. Indo nas fazendas em todas as partes do brasil, consagramos este como o maior e mais completo projeto da pecuária brasileira”, conta Ferraz.

Para a analista de Marketing, é preciso haver aperfeiçoamento independente do sexo. “Temos que dar o exemplo, se aperfeiçoar mais e entender principalmente o produtor e sua necessidade. Para mim, acompanhar a caravana é um crescimento fundamental para descobrir, em conversas com esses produtores homens e mulheres, o que nós como indústria podemos fazer”, finaliza a profissional.

Premiada duas vezes pela BASF (São Paulo/SP) como reconhecimento à conquista de uma importante conta no segmento automobilístico que resultou em aumento de market share, estabelecimento de um novo modelo de negócios e rentabilidade para a empresa, a gerente Sênior de Nutrição Animal para América Latina, Gisele Bin, de 40 anos, aplica sua sólida experiência em vendas e marketing estratégico. Formada em administração pela Universidade Metodista (São Paulo/SP), a profissional também tem MBA em Marketing na ESPM (São Paulo/SP) e em Liderança pela Fundação Dom Cabral (FDC, São Paulo/SP). Há 16 anos na BASF, já atuou como gerente sênior nas Divisões de Plásticos, Químicos de Performance, Tintas Automotivas, entre outras unidades de negócios, incluindo quase dois anos no exterior, na unidade da companhia da Alemanha.

Para Gisele Bin, homens e mulheres possuem papéis semelhantes no ambiente corporativo. “Como líder, acredito que tanto o homem quanto a mulher devem sempre procurar como principal papel inspirar, influenciar e mover pessoas em busca de excelência na conquista de resultados. Além disso, costumo ter o cuidado de construir um ambiente onde as pessoas se sintam à vontade para serem transparentes, criativas, gerando cooperação”, declara a executiva. Em qualquer área, complementa, o que deve prevalecer é sempre o profissionalismo, não se apegando à questão de gêneros. “Prepare-se para atuar com excelência e lembre-se sempre do seu potencial, fortalezas e competências acima de tudo e esteja aberta a ouvir, aprender e a contribuir”, finaliza.

Aceitar novos desafios e encarar mudanças como oportunidades fazem parte da personalidade de Vanice Waldige, gerente Geral da Phileo Lesaffre Animal Care do Brasil (Campinas/SP). Enxergando a vocação brasileira no agronegócio, a zootecnista formada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp, São Paulo/SP) procurou trabalhar em uma indústria de nutrição animal sem se importar com posição ou salário inicial. “Após três anos, fiz o MBA em Marketing na Fundação Getúlio Vargas (FGV, São Paulo/SP), estudei inglês e espanhol”, conta.

A curiosidade e dedicação para desenvolver novas habilidades comportamentais de liderança e negócios foi o ponto crucial para seu crescimento profissional. Para ela, não há diferença sobre ações específicas para qualquer gênero conquistar uma posição de liderança. “O mercado agro é bastante diversificado e está comprovado que a diversidade gera melhores resultados. No nosso campo de atuação existem profissionais incríveis e a posição de liderança está muito relacionada ao desenvolvimento da capacidade de influenciar pessoas e transformar novas ideias em ações”, conclui Waldige.

Para quem está começando sua carreira e deseja ser líder, seja de um projeto, de pessoas ou de negócios, ela elenca algumas dicas: “Saber ouvir as pessoas atentamente para compreender, muitas vezes além do que está sendo dito; ter como propósito o desenvolvimento e sucesso das pessoas que trabalham com você – fazendo isso, o seu sucesso pessoal será uma consequência; estudar o mercado e ter paciência para investir muito tempo no planejamento antes de tomar as ações; ter coragem, assumir que nem tudo dá certo e que o importante é fazer e aprender com os erros; e ser feliz, festejar e compartilhar a felicidade”.

O projeto da nova unidade corporativa da De Heus em Campinas (SP) contou com um importante elemento estratégico: a gerente de Recursos Humanos, Georgia Alexandre Trivellato Silveira de Almeida, de 35 anos. Nascida em Valinhos (SP) e com experiência internacional, trabalhou na Inglaterra e na Rússia, em empresas multinacionais de referência nos segmentos de saúde animal, tecnologia automotiva e química. Os 15 anos de jornada profissional englobam formação em pedagogia pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), certificado em Prática de Pessoal (Certificate in Personnel Practive, CIPD) pela Hammersmith and West London College (Reino Unido) e MBA em Estratégia de RH e Gerenciamento de Mudança pela Universidade de Kingston (Reino Unido).

De acordo com ela, pra trabalhar em um ambiente como o agronegócio, é essencial que a profissional atenda a alguns requisitos. “É preciso conhecer o segmento, saber quem são os clientes, sair a campo com o time técnico, também com o time comercial, entender a realidade da produção de proteína animal brasileira. Entender quem é o nosso cliente, como ele compra, como é o processo decisório, o que ele valoriza e as informações que podemos trazer para contribuir para o progresso de seus negócios”, aconselha.

Georgia de Almeida acrescenta que a mulher que deseja entrar no agronegócio precisa se abrir para entender e estar constantemente atualizada com o mercado que, no Brasil, ainda se caracteriza por ser muito masculino, mas com perspectivas bem positivas. “Acompanhamos que, com o passar do tempo, a mulher vem conquistando cada vez mais espaço também no agronegócio. A atuação delas agrega valor aos negócios, por exemplo, no desenvolvimento de novos produtos e na comunicação com o cliente”, destaca.

No dia 8 de março é celebrado o dia internacional da mulher, uma data a ser celebrada junto às protagonistas como as desta reportagem que conseguiram fincar seus pés em um território predominantemente masculino como o agronegócio. Abrindo caminho para as próximas gerações, estas executivas são um prato cheio de inspiração e exemplo de competência. O empoderamento feminino fortalece sua participação dentro da sociedade, permitindo que elas  exerçam qualquer tipo de atividade, estabelecendo uma nova fronteira e um novo valor, com atribuições morais e sociais a todas aquelas que se permitem aceitar a força que vem de dentro.

Navio com 25 mil bois embarca de Santos (SP): entenda do início ao fim do caso

Elas estão divulgando o potencial produtivo do Brasil para o mundo