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Mancha Branca: o vilão da vez na carcinicultura pode trazer evolução

Produtores de camarão perdem produções, mas podem conquistar algo a mais

Natália Ponse, de Fortaleza (CE)

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Apesar de inofensivo ao ser humano, o vírus da mancha branca vem dizimando a produção de camarões no período assustador de três dias. Após ser registrado em 2004 no Estado de Santa Catarina, a epidemia se alastrou para o Ceará (2005), o sul da Bahia (2008), Paraíba (2011), Pernambuco (2012), sul do Rio Grande do Norte (2014), norte do Rio Grande do Norte (2015) e chegando ao litoral leste do Ceará neste ano de 2016, quando foi caracterizado o surto.  

Apresentando redução no consumo alimentar, natação lenta, mudança na coloração (de rosa a pardo-avermelhada) e carapaça mole e com calcificações (ou manchas), as produções brasileiras carcinicultoras foram perdendo força com a disseminação da doença.

Essa não é a primeira vez que o Ceará tem de lidar com uma ameaça à criação de camarões. Em 2004, o Estado foi atingido pelo Vírus da Mionecrose Infecciosa (IMNV). No entanto, segundo associações e especialistas, será preciso conviver (não sendo possível eliminar) com a mancha branca e este fato pode, ao contrário do que parece, trazer forte evolução para o setor.

A resposta para a epidemia está no manejo, segundo consenso geral das associações e especialistas. Para o especialista Jorge Chávez Rigaíl, os produtores não estão acostumados a aplicar um protocolo na produção. “Quantos controlam o camarão todos os dias no viveiro, registrando que no dia 1 aconteceu isso, no dia 2 aquilo? Ninguém. Se você registra mortalidade na sua produção, é porque não aplicou um trabalho de planejamento anteriormente. Quando chegou a mancha branca no Equador (em 1999), todo mundo ficou assustado com a produção morrendo. Mas, quando mudamos de pensamento e começamos a controlar o camarão todos os dias, passamos a saber exatamente quando o camarão manifestou a doença, a partir daí fazendo o tratamento correto e dispensando a mortalidade”, explica Rigaíl.

Pensamento compartilhado pelo presidente da Associação Cearense de Criadores de Camarão do Ceará (ACCC), Cristiano Maia. Ele confirma que o produtor mudará a maneira de criar, apelando para outros tipos de manejo. “Essa pressão é para que o produtor precisa investir, já que sem investimento não tem camarão. O mundo todo está necessitando de alimento e nós temos que ajudar a produzir”, ressalta.

De acordo com o secretário executivo da ACCC, Antonio Albuquerque, as parcerias são necessárias para se atravessar momentos de crise. “Aqui no Ceará temos a Câmara Setorial do Camarão, parceria entre institutos, universidades e outros, fomentando a cadeia e priorizando ações para que haja uma discussão mais rápida sobre as medidas com relação à mancha branca”, diz. Ele afirma ainda que é preciso partir do produtor a busca por informação e tecnificação. “Com o pensamento no futuro e com planejamento, o produtor terá que sanar todas as suas dúvidas e se certificar sobre o que é o correto para a produção dele em específico”, complementa.

O presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Camarão (ABCC), Itamar Rocha (foto lateral), vê na Feira Nacional do Camarão (Fenacam), realizada entre os dias 22 e 24 de novembro, uma chance para que trabalhador da carcinicultura possa ampliar seus horizontes. “Houve o tempo em que as pessoas utilizavam baixa tecnologia, em 20 hectares. Agora chegou o momento em que não há remédio para a doença da mancha branca, mas temos alternativas. A adoção de boas práticas de manejo e de biossegurança são a chave da superação e isso exige a participação do produtor”, conta Itamar Rocha, complementando que o fato de os preços do camarão estarem mais competitivos também contribui para que a atividade ganhe fôlego.

No lado governamental deste cenário, o diretor do departamento de Planejamento e Ordenação da Aquicultura para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA, Brasília/DF), João Crescêncio Aragão Marinho, elenca as medidas que estão sendo adotadas para ajudar o produtor a passar por esta epidemia. “O ministério tem um setor específico que trata dessa parte, a secretaria de defesa agropecuária, trabalhando em conjunto com laboratórios de crustáceos do Maranhão e outros, fazendo uma verificação dessa situação, além de uma parceria com os próprios produtores, que são os mais interessados em resolver esses problemas”, divulga Marinho.

De um modo geral, cada elemento da carcinicultura possui um papel específico para superar esta epidemia e aprender a conviver com o vírus da mancha branca. O governo precisa dar maior suporte a atividade, visualizando-a com maior profissionalismo e seriedade; as associações devem buscar alternativas (em outros países, por exemplo) para trazer novas tecnologias ao setor; as empresas devem continuar voltando seus olhos para este mercado com forte potencial, desenvolvendo soluções que auxiliem o produtor a chegar mais perto da excelência; e claro, este mesmo produtor tem o papel de olhar para a sua própria atividade com olhos de valorização, tecnificando e investindo para que o camarão seja tão comum no prato do brasileiro (e da mesa de outros países) quanto o filé bovino. As cartas estão dadas e, agora, é a hora de ligar os motores e chegar ao outro lado da pista: o mercado externo.

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