in

Mal-estar entre Brasil e Árabes: página virada?

Possível mudança da embaixada para Jerusalém pode trazer prejuízos ao setor

Possível mudança da embaixada para Jerusalém pode trazer prejuízos ao setor

Gabriela Salazar, da redação

[email protected]

“Hoje, finalmente, reconhecemos o óbvio: Jerusalém é a capital de Israel”. A afirmação de Donald Trump, ainda em 2017, gerou um debate na comunidade internacional. A capital é considerada sagrada tanto para o judaísmo, como para islã e o cristianismo. A área, no entanto, faz parte de uma disputa ainda maior, já que Israel reivindica todo o território como a sua capital.

O consenso entre os demais países, que não fazem parte do conflito direto nesta disputa, é de equilíbrio. A maioria se apresenta favorável a ideia de divisão da capital. O posicionamento de uma potência como a norte-americana poderia alterar o curso de diversas áreas, como a econômica e, até mesmo, a de segurança pública.

A apreensão distante se tornou algo próximo do mercado de proteína animal brasileiro, desde que o presidente Jair Bolsonaro declarou seu interesse em seguir os passos de Trump. A mudança poderia quebrar um dos principais mercados importadores do Brasil: o árabe.

Somente no último ano, de acordo com os dados apresentados pela Câmara de Comércio Árabe-Brasileira (CCAB), foram embarcados 1.442.881.284 kg de carne de frango e 335.381.514 kg de carne bovina para os países árabes. Sendo o Egito, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos os principais destinos. “Nós somos o maior produtor de proteína halal do mundo. O principal mercado brasileiro é o árabe. O Brasil é um dos principais fornecedores, temos uma relação muito importante”, pontua o presidente da CCAB, Rubens Hannun.

Em um exemplo ainda mais claro da proporção deste mercado para o Brasil estão os dados apontados pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), das 4,1 milhões de toneladas exportadas, 1,966 milhões de toneladas eram carne de frango halal, no último ano. De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), ao todo, o mercado islâmico absorve 19% das exportações agropecuárias brasileiras. 

“Nós temos muito a crescer ainda, temos um potencial muito forte. O mercado halal pode se tornar o principal produto brasileiro, ele está se transformando em um produto para o bem-estar, para a qualidade. Está a caminho de se tornar um estilo de vida, independentemente de serem muçulmanos ou não”, pontua Hannun sobre a possibilidade de expansão do setor.

A Siil Halal, uma das certificadoras dos produtos halal no Brasil, divulgou recentemente dados que confirmam a potência do setor para além de seu público alvo habitual. A economia halal global atingiu a marca de US$ 6,4 trilhões em 2018, valor que dobra o faturamento registrado seis anos antes.  

“O Brasil está no caminho certo. As exportações para o mundo islâmico crescem ano a ano. Isso porque o País é um grande player mundial na produção de alimentos devido a força da sua indústria. Já são mais de 40 anos de empenho para atender as demandas Halal. Por isso, o País continua em primeiro lugar na exportação de proteína animal Halal mundial. Até o momento não há país no mundo capaz de concorrer com o Brasil em função dos seus sistemas sanitários, a qualidade dos produtos e segurança alimentar presente em toda cadeia de produção do alimento. Nós temos demanda para crescer e, com certeza, crescerá cada vez mais”, salienta o CEO Da Siil Halal, Chaiboun Darwiche, em entrevista para a Feed&Food.

Apaziguando. Na última quarta-feira (10), 51 embaixadores de países árabes estiveram reunidos no Brasil para um jantar junto à ministra da Agricultura, Tereza Cristina. O encontro foi organizado pelo ministério em conjunto com a Confederação da Agricultura e Pecuária no Brasil (CNA). A reunião teve ares de conciliação, após o “mal-estar” gerado pelas declarações da mudança da embaixada. Tanto Hannun, quanto Darwiche, estiveram presentes no encontro e declararam ver de forma positiva a aproximação com os representantes destes países.

“Foi uma iniciativa excelente do Ministério da Agricultura organizar este jantar parar quebrar esse gelo e aproximar as autoridades que representam os países árabes e muçulmanos. Para nós da Siil Halal esta foi uma iniciativa positiva, todavia, são necessárias concretizar as ações”, comenta Darwiche. Para o CEO da certificadora, o tema não deve mais preocupar o setor. “Esse assunto já é página virada”, enfatiza.

O presidente da CCAB ressalta que a confirmação desta mudança poderia gerar prejuízos ainda inestimados, principalmente, em relação a expansão do comércio. “Os islâmicos de uma maneira geral são muito sensíveis sobre essa questão, não só na parte de governo, mas também na parte consumidor final. O Brasil cresceu nesse mercado sete vezes mais nos últimos anos. Cresceu muito pela qualidade, mas também pelo equilíbrio nessa posição. A medida que o País se mostra entrando nesse assunto, e aparece tirando esse equilíbrio, isso pode acarretar em consequências que a gente não sabe estimar”, afirma Hannun.

A embaixada sai ou não? Durante o jantar, Bolsonaro estimou que “esses laços comerciais cada vez mais se transformem em laços de amizade, de respeito e fraternidade”. Um dia depois, em um evento ocorrido na Barra da Tijuca (RJ), o Executivo comentou sua presença no encontro com os embaixadores e declarou: “Quem decide a capital de Israel é o seu povo, o seu governo os seus parlamentares”.

“São países que mantém negócios bilionários conosco. Eu falei para eles para que esse nosso relacionamento comercial seja fortalecido e, mais ainda, que eu se transforme cada vez mais em paz, harmonia e amor. Fomos aplaudidos. Conversei com vários deles. Pelo semblante deles, não sou psicólogo, mas senti que existe sim um carinho muito grande de todos no mundo pelo Brasil”, informou em entrevista coletiva no local, conforme veiculado pelo Estadão.

ABPA propõe formação de grupo de prevenção à PSA

Boehringer leva lançamentos para a Tecnoshow