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Gerações da pecuária: a fórmula de longevidade para a profissão

No dia em que se comemora o pecuarista, falamos em continuar crescendo

Luma Bonvino, da redação

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Se considerarmos uma pecuária já atuante no Brasil no século XVII – como apontam algumas publicações – lá se vão longos anos a se comemorar o 15 de julho, dia nacional do pecuarista. Foi por meio das mãos desses trabalhadores que o País se tornou potência em rebanho, produção comercial e exportação. Entretanto, a operação de um negócio pecuário mudou ao decorrer das gerações que, hoje, mostram muito além da criação de bois.

Rafael Ruzzon e Arthur Fluminian Braga são provas dessa transformação. Em comum, a paixão pelo estilo de vida simples, de ver o sol nascer em cima de um cavalo, ver os milagres da natureza, um pasto se formando, um bezerro nascendo, além, é claro, da nobre missão de alimentar o mundo. Mais do que compartilhar palavras, os dois também dividem o posto de novas caras da agropecuária. De um lado, o formado em Medicina Veterinária pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS, Campo Grande/MS), Rafael é a quinta geração da família e trabalha com recria e engorda de machos em Camapuã (MS), em quatro propriedades, abatendo 2000 animais/ano. Trabalha também com um curso chamado AgroFamília, onde ajuda famílias a planejarem a sucessão familiar. Na outra ponta, um veterano na herança do dom familiar. Na quarta geração, Arthur Flumian Braga. Engenheiro agrônomo, formado pela Esalq (USP, São Paulo/SP) em 2006, com MBA em Gestão Empresarial e Especialização em Produção de Ruminantes. Atualmente gerencia propriedades em Alto Taquari e Alto Araguaia, ambas no sul do Mato Grosso. Atua na agricultura e na pecuária, principalmente com as raças Nelore e Angus.

Entretanto, esses currículos não se formaram facilmente. “No início achava que ser pecuarista era a minha única alternativa. Por ser um negócio de família, me sentia na obrigação de continuar. Quando vi alguns primos escolhendo medicina, direito, percebi que tinha escolha”, conta Ruzzon que escolheu então pela pecuária, mesmo quando a atividade não estava no holofote da economia brasileira, como hoje, em manchetes sustentando a balança comercial, o que gera uma tendência dos “urbanos” em começar a pensar e valorizar os negócios rurais.

E mesmo também sabendo que, “principalmente na cidade, enxergam a pecuária como uma atividade alternativa ou ‘de fim de semana’”, Arthur apostou no profissionalismo do segmento. Os trabalhos que começaram com o café, ao lado dos pais e avô, ampliaram margens com agricultura e pecuária. Porém, como pondera Arthur, “não se vive de paixão. Por mais que sejamos apaixonados pela atividade, temos que ser profissionais para que, além de fazer o que gosta, possamos gerar valor e renda com isso”. Para tanto são necessárias habilidades para ser bem-sucedido no trabalho do campo. 

“O pecuarista é por definição multifuncional: vai de cerqueiro a administrador em um piscar de olhos. Mas, gosto muito da analogia com o piloto de avião. Se o piloto vier servir café, quem vai pilotar o avião? Se você está fazendo sua fazenda funcionar, quem está fazendo ela crescer? O pecuarista pode trabalhar no operacional, mas por opção, não por necessidade. Ele precisa estar focado em fazer o negócio ir pra frente”, sinaliza Rafael. 

E nessa atividade que continua sendo tradicional, para o negócio permanecer em frente, como citado por Rafael, é preciso um trabalho de continuidade, processo esse que os dois pecuaristas viveram. “Sucessão familiar não é mais uma opção, mas sim uma obrigação de todos que querem que seu negócio se perpetue. Ainda mais em um ramo tão tradicional como a pecuária, onde ainda vemos muitos patriarcas que tocam o negócio sem envolver os filhos. Na minha visão esses tendem a ser absorvidos por quem se profissionalizar mais rápido e enxergar a fazenda como uma empresa. Creio que o próprio mercado, a concorrência, filtrará os players dessa nova era da pecuária”, afirma Arthur.

Ruzzon concorda com o desafio. “Para a sucessão acontecer, é necessário um sucessor interessado e comprometido. E hoje os pais estão criando filhos para serem profissionais urbanos. Não levam seus filhos para a fazenda e, assim, esse possível sucessor não cria vínculo que nós temos com a terra”, diz Ruzzon que adiciona: “Muitos estão vendo a sucessão como o momento da transferência do patrimônio, quando na verdade é a preparação de uma pessoa para assumir o seu negócio. O filho precisa trabalhar no mínimo dez anos junto ao pai para pegar tudo o que precisa e este é outro passo, pois o conflito de gerações, as diferenças de ideias, que deveria ser um ponto positivo para o negócio, muitas vezes causa rupturas no processo”.

Essa fusão de conceitos, típico de uma nova geração da pecuária, já imprime na lida traços característicos. Para Ruzzon, apesar de ser a quinta sucessão, tem ao lado outras duas trabalhando simultaneamente no mesmo negócio, o que resulta na constatação de que “antes o pecuarista precisava ser um ótimo negociador e já ganhava dinheiro. Hoje é preciso ser um bom gestor”. Na concepção de Braga, o que vem mudando é a habilidade e disposição de lidar com o risco. “A pecuária cada vez mais demanda de grandes investimentos, de intensificação, e tudo isso traz consigo um risco muito maior”, frisa. 

É por essa constante evolução que o trabalho enquanto pecuarista se mostra vivo e em atualização. Que todos os 15 de julho sejam para homenagear esses profissionais e seja posto como reflexão para os próximos passos da atividade.

De pecuarista para pecuarista: “Busque sempre conhecimento, reconheça a importância do nosso trabalho, produzindo e alimentando vidas. Apesar de toda dificuldade que enfrentamos, do trabalho operacional, temos uma qualidade de vida que qualquer “urbano” gostaria de ter. Transmita esse sentimento aos seus filhos”, opina Rafael Ruzzon (Foto: divulgação)

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