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Entenda o mito da pecuária na emissão de GEE

Doutora em zootecnia explica sobre o Gás de Efeito Estufa dentro da agropecuária

wellington Torres, de casa

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Conter a emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE) também é uma pauta de grande importância para o agronegócio brasileiro. Contudo, no meio popular muito se é falado do impacto causado pela pecuária, principalmente no que se refere ao mito do “pum” das vacas, e as substâncias por ele emitidas, como grande causador do aquecimento global.

Em uma entrevista recente, quem contribuiu para este discurso foi a cantora Anitta, personalidade com grande influência no meio digital. Segundo a mesma, “o peido de uma vaca é muito poluente para o nosso ar. Então, a cada vaca que está aí soltando os seus gases é um dano para o meio ambiente gigantesco”.

Mas qual seria o peso de um comentário como esse vindo de alguém de grande notoriedade como ela? É fácil, quando alguma informação é transmitida de maneira erronia por alguém que mobiliza milhares de pessoas, tal afirmativa passa a inviabilizar o real contexto da situação, dificultando a propagação da informação verídica, exposta por pesquisadores e estudiosos do setor. Por sinal, aqui vale ressaltar que o maior responsável pelo excessivo aquecimento global é o gás carbônico, emitido por fábricas e carros.

Para entendermos melhor toda a situação, nós da feed&food conversamos com a doutora em zootecnia e produtora de conteúdo informativo sobre o agronegócio no Instagram, Eveline Alves. De acordo com ela, o principal gás emitido pelos bovinos é o metano, resultado da fermentação entérica dos animais.

“Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o metano é eructado, seria um arroto, não é liberado pelo ânus (pum). Além do metano o óxido nitroso também é emitido pela pecuária, a decomposição das fezes e urina dos animais resultam na produção deste gás”, explica a doutora, acrescentando que estas substâncias podem ser revertidas.

Segundo ela, entre tais possibilidades estão a recuperação de pastagens degradadas, adubação qualificada, manejo do pastejo, estratégias de suplementação e dietas adequadas em confinamento. As medias citadas reduzem o tempo de vida do animal e têm mostrado efeito positivo na mitigação da emissão de gases de efeito estufa da pecuária.

“No Brasil, a maior parte das pastagens são de gramíneas tropicais, que têm grande potencial de sequestrar carbono devido à sua fisiologia C4, no entanto esse potencial só é observado em pastagens produtivas e bem manejadas”, afirma Eveline.

Ainda de acordo com ela, outras alternativas viáveis são o uso de sistemas integrados, como o ILPF, onde as árvores utilizadas neste sistema possuem elevado potencial de sequestrar carbono, o uso de pastos consorciados de gramíneas e leguminosas, uso de aditivos alimentares que modulam a fermentação ruminal e o melhoramento genético, que pode resultar na produção de animais mais eficientes.

Questionada sobre a eficácia dos métodos, a Doutora cita que segundo o resultado de um recente estudo, com “o uso dessas tecnologias, seria possível reduzir de um terço até metade da emissão de GEE da pecuária no brasil, sem reduzir o consumo de carne”.

Apenas em 2019, de acordo com os dados disponibilizados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o consumo per capita no Brasil foi de 24,5 kg e segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) foram exportadas 1,8 milhão de toneladas, o que correspondeu a 23,6 % da produção nacional em 2019. Os números exemplificam a necessidade da produção brasileira, referência mundial no setor.

Já no que se refere ao posicionamento da cantora, Eveline é enfática. “Se considerarmos apenas o Instagram, a cantora tem 47,2 milhões de seguidores que, possivelmente, assim como ela, desconhecem a produção pecuária. Além do desconhecimento sobre pecuária, o comentário, “”Hoje, no Brasil, existe mais vaca do que gente” evidencia que a cantora também desconhece que o Brasil além de produzir para o mercado interno também exporta e abastece outros países”, explica.

No entanto, a mesma pondera, alertando que esse é o momento certo para que a cadeia produtiva se posicione de madeira assertiva, visando ensinar a todos como realmente funciona o setor.

“Criticar a Anitta e seus seguidores não faz com que ela conheça mais sobre agropecuária, ou pare de se pronunciar da forma como fez. Vários livros sobre comunicação nos mostram que não conseguimos influenciar pessoas por meio de críticas. Precisamos levar informação”, finaliza.

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