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China: estamos entregando o ouro?

Exportação de ração pronta seria uma alternativa aos envios de commodities?

Natália Ponse, da redação

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A soja é muito presente no cotidiano chinês. Lá, consome-se leite de soja, o shoyu e o tofu, alimentos muito presentes na dieta e que são feitos à base do grão. Passado algum tempo desde o embate com os EUA envolvendo este grão, corre o boato de que a China, maior comprador e consumidor global do produto, esteja adotando esforços adicionais para elevar a sua produção. Um possível documento de “emergência” pede por um plantio de 5 milhões de mu (333.333 hectares) adicionais com a commodity neste ano.

Atualmente, os EUA exportam um terço de sua produção aos chineses (US$ 14 bilhões no ano passado), ficando atrás apenas do Brasil, maior exportador da commodity para os asiáticos. Somente a ameaça sobre as tarifas já levou a um corte nas importações de soja dos EUA, o que elevou os preços de outros fornecedores, como o Brasil, e alavancou também os preços do farelo de soja, geralmente utilizado como ingrediente de ração para animais.

Apesar de a primeira reação do mercado ser benéfica aos produtores brasileiros, que são substitutos naturais do produto americano, o conflito comercial influencia no aumento do dólar. “O dólar fica mais valorizado e isto impede que as empresas brasileiras importem com a mesma facilidade de quando o dólar está em baixa”, afirma Lincoln Fracari, proprietário da China Link Trading, companhia que viabiliza importações empresarias principalmente entre Brasil e China.

Com a tarifa de 25% imposta por Pequim à soja dos EUA, muitos importadores chineses estão recorrendo ao Brasil, mas o USDA acredita que os custos mais altos vão forçá-los a reduzir o consumo. Como resultado, as importações chinesas devem diminuir, o que elevaria os estoques globais no próximo ano.

A potência chinesa quando se refere à tecnologia e inovação é notável, chegando a ser considerada uma “rival” do famoso Vale do Silício, considerada a região mais inovadora do planeta. O gigante asiático se transformou em uma fábrica de inovações em várias áreas, tanto nas mais comuns como em biotech e outras diversas. Quanto tempo até essa tecnologia chegar ao agronegócio deles e, pior, ameaçar o Brasil?

Já está começando. Os chineses estão construindo estruturas gigantes para a criação de suínos. Com prédios de 7 e 13 andares, os empreendimentos estão na região das montanhas Yaji e são propriedade do grupo Guangxi Yangxiang Co Ltd. Os empregados da granja movem os leitões entre os diferentes estágios da criação usando elevadores. Mesmo com todo o tamanho, muitos processos ainda são manuais, como a distribuição de ração nos milhares de cochos.

As estruturas ganharam o apelido de “Hotéis de Porco” e a capacidade é de 30.000 leitões em cada mega-propriedade. Ao todo, a propriedade entregará 840 mil leitões por ano, em uma área de 11 hectares. Provavelmente, a maior granja de suínos do mundo.

O questionamento que fica é: com tamanho potencial evolutivo no que se refere à aplicação de tecnologias, estaríamos nós entregando nosso “ouro” para a China? Explico: somos grandes exportadores de commodities, mas não de ração pronta (com maior valor agregado). Caso o gigante asiático aplique os investimentos certos nas soluções certas para produzir de forma inteligente, eficaz e autônoma por lá, estaríamos ameaçados com um de nossos principais parceiros?

“Exportar o produto pronto até iria agregar maior valor ao produto bruto, mas, neste caso, acredito que o principal ganho ficaria para as indústrias fabricantes de ração – não mais para o campo”, salienta o analista de mercado da Scot Consultoria, Rafael Ribeiro. O especialista ainda faz uma analogia com a polêmica da exportação de animais vivos: “Existe uma frente querendo proibir alegando que é melhor exportar a carne do que o animal, mas aí quem ganha é o frigorífico e não o produtor dentro da cadeia. É a mesma coisa para a soja. De uma forma geral, exportando commodities, se agrega maior valor ao campo.

Ribeiro destaca que a China vem crescendo sua produção interna em alguns mercados justamente pra diminuir a sua dependência da exportação. Mas, tudo indica que vai ser difícil ela se tornar auto suficiente em termos de soja, farelo e outros insumos de aves e suínos. “Essa crescente produção chinesa é uma forma de eles diminuírem a necessidade de importação, com tarifas, barreiras e brigas comerciais, mas tudo isso vai fazer com que ela siga como grande importadora, mesmo com o governo fazendo esforços para diminuir essa dependência”, afirma. Para ele, o país asiático sempre continuará importando, talvez reduzindo esse volume nos próximos anos, mas seguindo como uma grande importadora de commodities.

O diretor-executivo da Cobb-Vantress, Jairo Arenazio, concorda. Ele, que já viajou diversas vezes àquele país a fim de obter mais informações sobre negócios da genética avícola, enxerga uma nação extremamente protecionista e burocrática – o que dificulta a evolução da atividade por lá. “A China é um dos poucos países do mundo que proíbe a entrada de matrizes reprodutoras e ovos férteis, salvo material genético em forma de avós. Agora, existem rumores internos de que eles também vão fechar mercado para este produto, abrindo somente para bisavós. É um impedimento muito grande para o avanço da atividade no país e que, ao mesmo tempo, possibilita vantagem competitiva para o Brasil”, destaca. Isso se dá em razão de o material de bisavós ser extremamente sensível a qualquer tipo de intempéries e doenças, além ter extremo valor agregado – e a China não tem ambienta adequado para alojar esse tipo de produto. ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ

A Cobb é uma empresa avícola global, dedicada ao desenvolvimento, produção e comercialização de material genético para frangos de corte. É uma das únicas casas genéticas do mundo a ter uma unidade própria na China, desde 2014, além de três plantas de abate pela Tyson Foods. De acordo com Jairo Arenazio, toda essa restrição chinesa fez com que a avicultura por lá decrescesse 12,5% de 2016 para 2017 (32 milhões de matrizes para 28 milhões). A estimativa para esse ano é de queda ainda maior: 21% (chegando a 22 milhões).

“Essa atividade precisa de terra, espaço e água, e a China não tem tudo isso em vasta disponibilidade. A burocracia para posse de terra também impede que a avicultura se desenvolva rapidamente por lá, assim como os problemas sanitários, e essa insegurança inclusive fez cair o consumo de proteína pelos jovens chineses, que estão em maior sinergia com os preceitos sustentáveis e de bem-estar animal globais. São questões limitantes para a evolução por lá”, explica o diretor-executivo da Cobb.

No ano passado, as exportações do agronegócio contabilizaram US$ 96,01 bilhões (quase 45% das exportações totais), ranqueadas pelo complexo soja que contribuiu com U$ 6,3 bilhões. Os quadros ilustrativos abaixo, com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) e elaborados pelo Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações), revelam como o agronegócio contribui decisivamente no saldo da balança comercial e pauta exportadora brasileira, sobretudo por conta da abundância de recursos naturais e da gigante vocação de celeiro do mundo contemporâneo. Portanto, de extremamente valor para a economia verde e amarela.

De acordo com o vice-presidente Executivo do Sindirações, Ariovaldo Zani, para os empreendedores do agronegócio brasileiro a questão da economia de estado da China é um ponto de atenção. Originado de uma nação praticamente agrícola, hoje já é o país mais industrializado do mundo e cresce absurdamente. Possui ainda o plano de se tornar o maior expert em inteligência artificial e tem como prioridade a sua política climática. Inclusive, em defesa da qualidade do ambiente local, aderem à prática de importar quando a produção gera risco de poluição.

“Outrossim, determinadas iniciativas podem configurar oportunidades de parceria e desenvolvimento, já que os chineses têm demonstrado grande interesse pelo agronegócio brasileiro, com investimentos em logística e empresas agropecuárias e energéticas, além do desejo de comprar terras em território nacional para produzir e exportar para si próprios”, analisa Zani.

O executivo do Sindirações ainda salienta que, nos últimos anos, a demanda chinesa por produtos do agronegócio global cresceu três vezes mais que a dos Estados Unidos e cinco vezes mais do que a União Europeia, muito embora esses gigantes do mundo desenvolvimento sejam seus clientes contumazes e responsáveis pelo seu robusto superávit comercial. “É importante salientar também que, desde 2001, a corrente de comércio entre a China e a América Latina já cresceu mais de vinte vezes e, recentemente, suas autoridades anunciaram o compromisso de intensificar a cooperação cultural e de defesa da região”, relembra o vice-presidente Executivo.

Apesar do desdém do atual governo dos Estados Unidos com Esse país, a crescente presença do principal concorrente econômico (político e militar) na sua vizinhança pode transformar a América Latina em palco estrategicamente relevante para Ariovaldo Zani. “Mais cedo ou mais tarde, essa disputa vai se revelar vantajosa ou não para a América Latina (principalmente Brasil), e ranquear a eficácia dos diferentes modelos capitalistas (americano voltado ao Mercado e chinês sustentado no Estado) na garantia da segurança alimentar e sustentabilidade ambiental, geração de emprego e renda, inclusão e igualdade social”, diz.

Por conta das recentes sobretaxas e retaliações entre esses gigantes do comércio internacional, o Brasil poderá aumentar suas exportações de soja (60% da oleaginosa exportada pelos americanos vai para a China) e carne suína (apesar de somar 45% da produção global a China é a maior importadora de carne suína), a depender, sobretudo, do crescimento de 6,5% do PIB fixado pelas autoridades de Pequim.

E você, o que acha da “ameaça” chinesa? Será a China um eterno parceiro do Brasil? Ou estaremos sujeitos à ágil evolução tecnológica asiática, caso não adaptemos nossos negócios? Claro que a vocação de celeiro do mundo, responsável pela demanda das 10 bilhões de bocas em 2050 ainda é nossa. Mas, estamos atentos aos nossos concorrentes, às adaptações de mercado e possíveis negócios a serem conquistados?

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