in

Bronquite Infecciosa Aviária sinaliza “avanços substanciais”, diz pesquisador

Professor da USP revela novo contexto no controle da enfermidade

Luma Bonvino, da redação

[email protected]

A disputa de dois grupos organizados que confrontam em um mesmo espaço. Uma guerra pode se apresentar em diferentes formatos e na avicultura não é diferente. Apesar do termo forte, pode-se garantir que o objetivo do produtor seria exterminar os invasores do seu território quando contextualizamos esse cenário dentro de uma granja aviária, o vírus da Bronquite Infecciosa (BI) e suas cepas variantes e a problemática que ele acarreta, quando considerados os impactos que fragilizam os avicultores. Para sair vitorioso, controle e prevenção são as armas disponíveis. Foi dessa forma que a edição de novembro da revista feed&food trouxe na página 80, em “Campo de batalha”, um retrato sobre a enfermidade em território nacional.

Como explica o pesquisador da Embrapa Suínos e Aves (Concórdia/SC), Paulo Augusto Esteves, a doença é um tema recorrente e de grande relevância para todos aqueles envolvidos no setor avícola mundial. A enfermidade é causada pelo vírus da Bronquite Infecciosa (VBI), que apresenta distribuição global e afeta galinhas de todas as idades, podendo atingir os sistemas respiratório ou urogenital das aves. “Dessa forma, o VBI pode causar principalmente doença respiratória, mas, também, pode ocasionar uma queda na produção de ovos nas aves poedeiras e matrizes. O impacto econômico da Bronquite Infecciosa resulta principalmente da redução de desempenho zootécnico ou aumento da mortalidade devido à doença respiratória em frangos de corte, além da diminuição na produção de ovos em poedeiras e matrizes”, descreve.

Mas, de acordo com o Prof Antonio Piantino, do Laboratório de Ornitopatologia do Departamento de Patologia (FMVZ-USP, São Paulo/SP), a doença não está sendo controlada e é ai em que se encontra a maior problemática. “Não houve inovações no controle da doença porque não existiam dados epidemiológicos suficientes e agora temos. Os estudos moleculares mostram que a cepa vacinal Massachusetts tem aproximadamente 70% de homologia com as estirpes de campo BR. Pensando em termos de proteção isto é muito pequeno. Existem também erros no diagnóstico, por vezes realizado somente baseado em sorologia, e sabemos que esta ferramenta é insuficiente para detectar todos os casos, sendo fundamental o uso de diagnóstico molecular”, analisa. Ainda segundo Piantino, os estudos epidemiológicos, moleculares, de eficácia e econômicos mostraram que a indústria precisa de outra cepa vacinal além da Massachusetts, que vem sendo utilizada por mais de 35 anos, e os problemas persistem devido à proteção parcial ou inexistente conferida, explicando a baixa homologia com a cepa BR.

Dessa forma, aponta “avanços substanciais” em pesquisa. “Recentemente publicamos um trabalho epidemiológico mostrando a prevalência e distribuição geográfica dos vírus detectados em todas as regiões avícolas do Brasil, entre os anos 2003 e 2016. A pesquisa mostrou que a cepa BR é a mais prevalente com frequência de detecção de 60 a 95%, nos diferentes Estados da federação. Foram mais de 400 amostras examinadas e caracterizadas. Os estudos moleculares confirmaram as nossas detecções anteriores: os vírus variantes circulando no Brasil formam um único grupo molecular com homologias superiores a 95% entre elas. O vírus BR mostrou-se altamente estável, nestes 14 anos de estudos epidemiológicos, realizados em nosso laboratório”, diz e completa: “Também efetuamos estudos de antigenicidade, patogenicidade e proteção e estes resultados nos permitem ter uma ideia clara do que deveríamos fazer para controlar a doença no Brasil”.

Atualmente, há apenas duas estirpes diferentes de bronquite infecciosa circulando no País, as já citadas Massachusetts e BR. Isto é bom pensando na segurança dos planteis brasileiros e no desenvolvimento dos programas vacinais, acredita Piantino. No entanto, não há informações na literatura nacional ou internacional que aponte para alguma solução que em uma mesma vacina se previna variadas estirpes. “As informações disponíveis não são confiáveis ou são tendenciosas, não devendo ser levadas em consideração em um planejamento de programas vacinais”, sinaliza.

“Enquanto conselho, sugeriríamos (equipe de pesquisa) aos produtores, técnicos avícolas e médicos-veterinários que fizessem o diagnóstico dos problemas respiratórios das granjas sob sua administração para conhecer estes agentes. Diante desta premissa, alterar ou manter os programas vacinais”, aponta o especialista que soma, na realidade atual, ser “a melhor escolha o uso de vacinas inovadoras, como a vacina a base de estirpe BR. É a melhor solução e a mais rápida para se reduzir os prejuízos causados pela estirpe BR, no Brasil”. Estes dados, conforme suas informações, permitirão desenhar programas vacinais mais adequados e menos custosos para os produtores avícolas nacionais. “A indústria deve investir em diagnóstico em associação com os centros de pesquisas do País para, de fato, contribuir com o desenvolvimento”, declara.

Se pudesse elencar um único fato essencial para combater o vírus, o “salvador” de uma granja, o professor menciona que o primeiro passo seria a realização de diagnóstico sorológico e molecular para se detectar e confirmar a presença de um patógeno respiratório como vírus da bronquite aviária. “Em se confirmando a presença do vírus da Bronquite, é fundamental a escolha da cepa vacinal adequada, porém, a correta aplicação da vacina também é essencial, pois a estirpe é pouco resistente às condições ambientais”, cita e adiciona a ressalva que o vírus da BI é agente primário, isto é, a gravidade do quadro clínico certamente dependerá da somatória de fatores secundários como manejo, ambiência e agentes concomitantes.

Suinocultura paulista se destaca do País por independência produtiva

Por que o temperamento do animal pode salvar ou afundar uma fazenda