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Aumento da produção pode reduzir emissões

Ao contrário do que se pensa, demanda por carne pode trazer benefícios

Natália Ponse, de Campinas (SP)

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No final de outubro, o Fundo Mundial para a Natureza (WWF, da sigla em inglês) divulgou a versão 2018 do seu relatório Planeta Vivo, em que, dentre outros assuntos, detalha os impactos do desgaste ambiental pela ação humana. A análise, feita por 50 pesquisadores em todo o mundo com base em pesquisas de 19 organizações, apontou para um desmatamento intenso, que reduziu, de 1970 para cá, 20% da Floresta Amazônica e 50% do Cerrado, biomas bastante representativos do país.

Esta última região é apontada como a nova fronteira do agronegócio brasileiro – dedicada, sobretudo, à produção de soja, óleo de palma e criação de gado. Este setor, sempre apontado como o vilão no que se refere a assuntos ambientais, ao contrário do que pensa a opinião pública, está fazendo a sua parte. Prova disso é um estudo intitulado “Increasing beef production could lower greenhouse gas emissions in Brazil if decoupled from deforestation”* (acesse aqui, em inglês), que desenvolveu um novo modelo para medir o impacto ambiental causado pela pecuária no Cerrado brasileiro.

De acordo com o relatório, o aumento da demanda e as políticas efetivas de controle do desmatamento servem como estímulo à intensificação das áreas de pastagens. Se a intensificação se der por recuperação de pastagens degradadas, ocorre aumento significativo dos estoques de carbono no solo, o que, segundo o estudo, seria suficiente para contrabalancear o aumento das emissões dos animais. De acordo com o estudo, se a demanda por carne aumentar 30% até 2030, haverá uma redução de 10% das emissões. Por outro lado, uma diminuição de 30% na demanda por carne em relação ao valor projetado para 2030 causaria um aumento de 9% nas emissões.

“Se a demanda por carne aumenta, mas a taxa de desmatamento é mantida constante, os produtores vão precisar intensificar, ou seja, serão incentivados a recuperar pastagens degradadas e isso faz com que se tenha mais sequestro de carbono no solo”, explica o pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária, Luís Gustavo Barioni. Ainda de acordo com ele, “de fato evidências empíricas, como dados do Censo Agropecuário, Inpe e FAO, mostram que houve uma redução significativa no desmatamento em todos os biomas desde 2005, ao passo que a produção de carne continua crescente”, destaca.

O assunto também foi trazido à tona durante o VIII Congresso Latino-Americano de Nutrição Animal (Clana), que foi realizado de 16 a 18 de outubro, no Expo D. Pedro, em Campinas (SP). O palestrante foi o pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, Alexandre Berndt, acompanha o assunto há anos e acredita que, com a maior demanda por carne, a remuneração do produtor aumenta e este passa a investir mais em tecnologias para intensificar sua produção.

“Um conceito que temos discutido bastante é a intensificação sustentável, que pode diminuir a intensidade das emissões até um determinado nível. Isso porque quando se intensifica demais não há tanta compensação, visto que a necessidade de insumos é tanta que aquele benefício da mitigação não compensa”, esclarece o pesquisador. Ele explica também que pastagens bem manejadas tem condição de sequestrar bastante carbono. Inclusive, pode haver mais sequestro de carbono em uma área corretamente manejada do que em uma floresta primária.

A conclusão é de Alexandre Berndt é: usando as estratégias de mitigação há um potencial de redução de até 30% das emissões, empregando diferentes tecnologias. “A gente sabe que tem muita coisa em andamento, tem muitos resultados que ainda não foram publicados, inclusive sobre algumas plantas que têm boa taxa de sequestro de carbono. Então é importante que a gente continue estudando isso, porque não temos todas as respostas, mas temos um bom panorama sobre as emissões”, finaliza.

* O artigo mencionado é de autoria de Rafael de Oliveira Silva, Luís Gustavo Barioni, Julian A. J. Hall, da Universidade de Edimburgo, Marília Folegatti Matsuura, Tiago Zanetti Albertini, da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), Fernando Antonio Fernandes, da Embrapa Pantanal e Dominic Moran, da Scotland’s Rural College (SRUC).

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