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Agronegócio brasileiro se mostrou resiliente em 2021

José Zeferino Pedrozo é presidente da FAESC e do SENAR/SC

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REPRODUÇÃO

         Um ano complexo, de muito trabalho e produção, preocupação com a saúde das pessoas e oscilações acentuadas em todas as áreas da atividade humana. Talvez se possa definir assim o ano que se encerra. Embora tenha se tornado a locomotiva da economia nacional, o agronegócio enfrentou um período difícil. Uma das preocupações emergentes foi o retorno do processo inflacionário em um quadro de baixo crescimento, taxa de desemprego renitente e queda geral de renda da população. Em face dessas condicionantes, o mercado interno encolheu. Por outro lado, os custos para a produção de alimentos para o mercado interno aumentaram – especialmente em proteína animal – com o superencarecimento dos insumos. Ficou caro para produzir, ficou caro para consumir.

         O ano foi repleto de desafios. Os principais produtos agrícolas (notadamente os grãos) foram comercializados com margens satisfatórias para os produtores rurais – com exceção do leite. O setor foi atormentado, porém, pelas questões logísticas e operacionais. As péssimas condições do sistema rodoviário e o frequente reajuste do preço dos combustíveis retiraram grande parte da competitividade dos produtos agrícolas in natura, processados ou industrializados. No plano internacional, a falta de contêineres e de navios foi o maior percalço para as exportações, com encarecimento dos fretes marítimos em mais de 500%. A falta de aviões atrapalhou a importação de moléculas para produção de defensivos e agroquímicos, deixando escassos e, portanto, mais caros os insumos agrícolas.

         O ano foi marcado por um novo episódio de brutal encarecimento dos dois principais insumos para a nutrição animal – milho e farelo de soja. Assim, os custos de transformação de proteína vegetal (milho e soja) em proteína animal (aves, suínos, leite e ovos) decolaram: anularam as margens de lucro dos produtores e aumentaram o custo da alimentação para as famílias. Nesse contexto, o crescente déficit de grãos tornou-se um verdadeiro nó górdio na cadeia produtiva da agroindústria da carne de Santa Catarina que precisa, a cada ano, importar mais de 4 milhões de toneladas de milho.

         A questão do suprimento de milho para alimentar a gigantesca cadeia produtiva da agroindústria provavelmente não se resolverá somente pelas forças dinâmicas do mercado. Será necessário pactuar uma política pública de incremento à produção com a transferência de parte da área cultivada com soja para ampliar a produção de milho. A produção de cereais de inverno é um caminho que começa a ser trilhado para amenizar essa insuficiência.

         Essas circunstâncias – contrárias à vontade do produtor rural – continuarão pressionando os preços das carnes neste fim de ano, especialmente os cortes bovinos. A situação irá se normalizar somente em maio quando entrar no mercado a safrinha de milho, ocasião em que os preços começarão a recuar e voltarão aos níveis históricos. A safrinha deve render 90 milhões de toneladas que, somadas às 30 milhões de toneladas de safra de verão, abastecerão o mercado brasileiro (75 milhões) e as exportações (30 milhões), resultando ainda em um superávit.

         É necessário lembrar que a pandemia também atingiu duramente a agricultura. O sistema CNA/FAESC/SENAR/Sindicato Rural criou o programa Agro Fraterno que, em território barriga-verde, atendeu cerca de 13 mil famílias do campo em situação de vulnerabilidade. Mas, de forma geral, o setor trabalhou ininterrupta e incessantemente para que não faltasse alimento na mesa dos brasileiros e, também, para honrar os contratos com o comércio mundial. Ocorre que a crise sanitária desorganizou a economia mundial e provocou a escassez de muitos insumos agrícolas. O Brasil deixou de receber moléculas para produção de agroquímicos, defensivos e fertilizantes. O preço desses insumos aumentou assustadoramente, quadro que provavelmente se manterá até meados de 2022. Um saco de 50 kg de uréia que custava 50 reais subiu para 300 reais. Um litro de glifosato que custava 20 reais subiu para 100 reais.

         Para 2022 estima-se uma safra agrícola recorde de 290 milhões de toneladas, com preços relativamente compensadores para os produtores, caminhando-se para a normalização dos preços de milho e soja para os criadores e agroindústrias. As exportações continuarão em alta em razão da demanda mundial puxada pela China, que continuará necessitando de muita soja brasileira.

         Os preços dos insumos nas alturas ainda será uma preocupação para os produtores rurais, que terão suas margens reduzidas. A gestão macroeconômica do País deverá estar centrada no controle da inflação e na retomada do crescimento para a redução do desemprego e a recuperação da qualidade de vida da população. Não deverá faltar crédito para custeio e investimento, dando prosseguimento à expansão da área plantada. O processo eleitoral de 2022 não impactará o agronegócio, embora a Bolsa e o câmbio estarão sensíveis aos fluxos e influxos da campanha.

         O agro fortalecerá, mais uma vez, as bases da economia e a presença brasileira no exterior. No plano interno, as instituições robustas e fortalecidas assegurarão a plenitude do processo democrático.

Fonte: José Zeferino Pedrozo, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (FAESC) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR/SC)

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