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Os desafios do suinocultor em 2018

Produtor brasileiro depende da abertura de mercados e do consumo interno

suinos

Natália Ponse, da redação
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“Produzir carne suína, dentro de um cenário inseguro como é o brasileiro, é para gente de coragem”, desabafa Valdomiro Ferreira Júnior (Ferreirinha), atual presidente da Associação Paulista de Criadores de Suínos (APCS). E realmente não está fácil. Na verdade, desde a grande crise econômica de 2016 os suinocultores do Brasil estão amargando uma série de obstáculos no dia a dia.

Naquela época, os produtores se submeteram a endividamentos para poder se manter na atividade. “Atualmente, os insumos ainda estão em patamares elevados e o preço de venda do suíno tem se mantido abaixo de valores que possibilitem margem na atividade”, explica o presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), Marcelo Lopes.

Ainda de acordo com Lopes, a queda nos preços do milho já era esperada para a segunda safra, mas devido à baixa nas exportações e à instabilidade econômica ainda recorrente, o mercado das carnes está demorando para reagir. O bloqueio da Rússia, a partir de 01 de dezembro de 2017, além dos problemas macroeconômicos a partir do início do ano, vem demonstrando a fragilidade da economia brasileira na opinião de Ferreirinha. Ele ainda destaca o impacto da greve dos caminhoneiros, que criou sérias dificuldades e gerou grandes perdas, além da fragilidade do setor primário em relação aos estoques de matérias primas para alimentação dos suínos.

De modo geral o produtor já tem muitos desafios que o atormentam há muito tempo, como a oscilação dos preços de grãos e do mercado de carnes e, mais recentemente, a questão dos fretes, que tem impacto sobre toda a cadeia. O aumento da logística em 2018, atingiu alta de cerca de 25%. “O maior problema hoje é preço. O suinocultor perdeu o poder de influenciar no valor de seu produto. A palavra agregação de valores em nosso negócios passou a ser um sonho distante”, lamenta o presidente da APCS. 

Na opinião do presidente da associação nacional, “daqui para frente é preciso estar muito atento às demandas de um mercado consumidor cada vez mais exigente, não somente em questões de qualidade, mas também na forma como são produzidos os alimentos”. Para Marcelo Lopes, o bem-estar animal e as restrições ao uso de antimicrobianos se apresentam como novos desafios, que exigirão investimento em instalações e no fluxo de produção das granjas. 

A oferta de carne suína está construída até dezembro pelo menos, portanto, a oferta está projetada. Do outro lado, a demanda depende da rentabilidade do consumidor e, para o presidente da APCS, o cenário não demonstra positividade nesse aspecto: “O custo de produção dá sinais de permanecer alto pelo período total do segundo semestre de 2018. Portanto, o produtor está na dependência de questões pontuais, abertura de novos mercados externos e a possibilidade de crescimento de consumo interno para que o preço possa chegar pelo menos na base do custo de hoje, em torno de R$ 78,00/@ no mercado paulista”.

Em resumo, o balanço de 2018 deve fechar negativo, mesmo Ferreirinha acreditando que os preços possam reagir a partir de agosto. Por isso é preciso pensar em outras frentes. A APCS, por exemplo, se uniu a outras entidades estaduais para a criação da bolsa de suínos, unificando os valores. Em parceria com a Associação Catarinense dos Criadores de Suínos (ACCS), por exemplo, a ideia é unificar o preço da bolsa entre os Estados do Sul para que o mercado paulista não seja prejudicado vendendo o suíno mais barato no Estado. “Informar o mercado diminui o poder da especulação negativista e com objetivos ocultos”, explica o líder da associação paulista. 

O presidente da ACCS, Losivanio Luiz de Lorenzi, destaca a importância da valorização do profissional. “O dia 24 de julho, dia nacional do suinocultor, é também o dia de fundação da associação catarinense, que completa 59 anos. Nós conseguimos transformar essa data em celebração da profissão primeiro a nível estadual, e hoje ela é celebrada nacionalmente”, conta o líder.  

Mas, ele também fala um pouco sobre a guerra da suinocultura contra o frete: “Temos que importar mais três milhões de toneladas de milho para Santa Catarina. Trazer do Mato Grosso faz com que o valor do frete seja mais caro do que o grão, então falta um apoio do governo para que o suinocultor pare de ‘apanhar’ na propriedade rural, mesmo fazendo mais e melhor, já que nunca é o suficiente”, critica Losivanio Lorenzi, reforçando que as pessoas precisam olhar diferente para a produção de suínos no País. A associação, para auxiliar nessa frente, coloca em prática ações para fomentar o consumo de carne suína.

Quanto ao poder público, Ferreirinha e Marcelo Lopes concordam que pouco foi feito. “Com relação ao governo, desconheço uma ação efetiva que possa estar gerando alguma mudança no cenário até a presente data”, critica o líder da APCS. O presidente da ABCS esclarece que neste ano a atenção está voltada para as eleições, o que dificulta o diálogo com o setor privado devido às mudanças constantes nos ministérios e nas políticas de governo.

No entanto, ele elenca diversas ações que a entidade nacional conquistou em prol do produtor:

  1. a prorrogação das dívidas de custeio e investimento junto ao Banco do Brasil – a associação também pleiteia junto ao Sicredi;  ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ 
  2. a inclusão da Linha de Retenção de Matrizes como uma política do Plano Safra, o que deve facilitar a sua permanência nos próximos anos e não apenas em momentos de crise; 
  3. a liberação de um milhão de toneladas de milho nos leilões da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) com o estoque de Mato Grosso (apesar de não ter surtido os efeitos desejados, Lopes pontua que isso já foi comunicado ao Ministério da Agricultura, sendo a maneira que o governo tem de intervir no preço do cereal; 
  4. foi solicitada a realização da Venda de Produtos Agropecuários dos Estoques Públicos (VEP), que subsidia o produtor que for buscar milho em estoques públicos fora do seu Estado – no entanto, o MAPA e o Ministério da Fazenda negaram, garantindo apenas os leilões e a venda balcão de milho.
    Agora, os esforços focam em pressionar o MAPA pela reabertura do mercado russo e abertura de novos mercados, como o do México, para ampliar as exportações e assim reduzir a pressão interna negativa nos preços.

Marcelo Lopes discorre que há muito tempo está claro que somente eficiência de produção não basta para obter margens financeiras e sobreviver às crises. “É preciso comprar bem os insumos, especialmente o milho e farelo de soja. Para tanto, é necessária atenção aos movimentos do mercado doméstico e mundial de grãos, buscar capital de giro para antecipar compras e contratos e, se for o caso, investir em sistemas de armazenagem. Não há como sobreviver na atividade sem uma estratégia na compra de insumos”, garante o líder da ABCS.

Ainda de acordo com ele, daqui para frente é preciso estar muito atento às demandas de um mercado consumidor cada vez mais exigente, não somente em questões de qualidade, mas também na forma como são produzidos os alimentos. “Neste sentido, o bem-estar animal e as restrições ao uso de antimicrobianos se apresentam como novos desafios, que exigirão investimento em instalações e no fluxo de produção das granjas”, finaliza Lopes.

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