02/08/2017 DESEMPENHO

Estratégias nutricionais x condição corporal de vacas de corte

Rogério Coan analisa eficiência reprodutiva de um rebanho

A baixa eficiência reprodutiva das fêmeas na maioria dos rebanhos, seja pela idade avançada à primeira cria, ou pelo longo intervalo entre partos, é um dos fatores que mais limitam a produção de carne bovina no país. Isso faz com que os componentes ambientais (ganho de peso pré e pós-parto, peso vivo, condição corporal e idade a puberdade) tenham um maior impacto sobre o desempenho reprodutivo do que a seleção genética.

Portanto, a eficiência reprodutiva de um rebanho, seja este de leite ou de corte, é altamente influenciada pelo manejo e pelo ambiente. Dentre os fatores de ambiente que afetam a reprodução de bovinos, a nutrição é, talvez, o de maior relevância. A concepção e manutenção da gestação são altamente influenciadas por qualquer fator que possa alterar o equilíbrio metabólico e endócrino em bovinos. Por isso, muitos dos impactos da deficiência, do excesso ou do desbalanço de nutrientes são refletidos no desempenho reprodutivo de novilhas e de vacas de corte.

Embora muitos nutrientes tenham sido indicados como tendo importante papel em definir a função reprodutiva em vacas de corte, o nível energético da dieta é, provavelmente, o fator mais importante e o mais difícil de manejar quando da manutenção de bovinos mantidos em pastagens, conforme como pode ser observado na figura abaixo.

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Balanço entre a oferta de energia do pasto e a demanda energética de vacas de corte (Foto: divulgação)

A análise desta imagem evidencia o balanço entre demanda energética de animais em pastejo e a oferta de energia, ao longo do ano. Contudo, deve-se considerar que a curva de oferta, ou seja, a produção de forragem tem variação diferente daquela observada para a demanda. Diante dessa condição, no período de escassez de forragem (maio - outubro), em virtude da baixa oferta de energia para sustentar o crescimento fetal e a produção de leite as vacas prenhes ou em lactação necessitam mobilizar reservas corporais de energia e proteína que foram armazenadas na época de abundância de alimentos (outubro – abril) e, com isso, o escore de condição corporal (ECC) diminui drasticamente. É o que chamamos de balanço energético negativo (BEL).

Vacas de corte são classificadas quanto à ECC numa escala de 1 a 9 (NRC, 1996). Valores muito baixos, tais como 1 ou 2, indicam vacas extremamente magras, e valores iguais ou superiores a 8 indicam vacas obesas. No caso de raças de corte Européias, a mudança de uma unidade na CC equivale a uma mudança de 30 a 40 kg de peso vivo. Valores pouco inferiores devem ser obtidos para vacas Zebuínas.

Alguns estudos na literatura determinam que vacas de corte com ECC menor que 4 ao parto, apresentam menores taxas de prenhez (figura abaixo).

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Efeito da condição corporal ao parto na taxa de prenhez de vacas de corte (Foto: divulgação)

Para se obter boa eficiência reprodutiva, o melhor manejo nutricional para as vacas de cria seria aquele que objetivasse ECC entre 5 e 6 na época do parto. Vale ressaltar que cada “ponto” de ECC representa aproximadamente 35 kg e ECC menores que 5 podem comprometer a fértilidade dos animais, a não ser que haja nutrição suficiente para atender as exigências das fêmeas após o parto. Para que isso ocorra, ajustes na oferta de forragem e no atendimento das exigências nutricionais do rebanho devem ser feitos. Nessas condições, principalmente durante o período seco, a suplementação dos animais deve ser utilizada como forma de ajudar a manter e/ou a melhorar a oferta de nutrientes para o rebanho.

Considerando que o objetivo principal da suplementação nas secas é maximizar a utilização da forragem disponível, deve-se ter em mente que o suplemento não deve fornecer nutrientes além das exigências dos animais. Por meio do fornecimento de todos, ou de alguns nutrientes específicos, principalmente proteína, que resultarão no consumo de maior quantidade de matéria seca (MS) e no aumento na eficiência de sua digestão, pode-se atingir os objetivos esperados com a suplementação, que implica na manutenção ou melhoria do escore de condição corporal de vacas de corte.

Vale ressaltar, no entanto, que diversos trabalhos (figura abaixo) na literatura têm sugerido um possível efeito deletério do excesso de proteína bruta (PB) ou proteína degradável no rúmen (PDR) sobre a taxa de concepção de vacas de corte.

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Efeito do nível de PB pré-parto sobre a taxa de prenhez de vacas de corte com bezerro ao pé (Foto: divulgação)

Dietas que fornecem um excesso de PB ou PDR apresentam baixos níveis de carboidratos degradáveis no rúmen, ou apresentam assincronia entre a degradação de proteína e a disponibilidade de energia no rúmen irão aumentar os níveis de nitrogênio uréico sanguíneo (NUS). Por outro lado, dietas que fornecem quantidades inadequadas de amônia e PDR limitam o crescimento microbiano, e comprometem a digestão da fração fibrosa dos carboidratos. Em dietas de vacas de corte em pastejo, a ingestão de baixos níveis de PB é algo muito mais comum do que a ingestão de uma dieta com excesso proteico.

Quando os níveis de PB na dieta estão abaixo do mínimo recomendado (7% na MS) durante os períodos de pré e pós-parto haverá efeito negativo sobre o desempenho reprodutivo de vacas de corte. Nesse sentido, é de fundamental importância que seja assegurada a ingestão de níveis adequados de PB no final da gestação e no início da lactação. Para estes animais, a utilização de mistura mineral enriquecida com uréia, suplemento proteico de baixo consumo (1 a 2 g/kg de peso corporal) ou proteico energético de alto consumo (3 a 5 g/kg de peso corporal) parecem ser boas alternativas para assegurar a ingestão de proteína e/ou energia durante períodos em que a forragem disponível é de baixa qualidade.

Das tecnologias de suplementação citadas há maior coerência econômica na utilização do suplemento mineral com uréia ou suplemento proteico de baixo consumo, uma vez que tais estratégias de suplementação implicam em menor investimento. No entanto, é importante ressaltar que em situações onde o ECC é muito baixo (ECC – 2) há uma tendência natural pela utilização do suplemento proteico energético de alto consumo, pois do contrário não será possível atingir um ECC entre 5 e 6, de forma à se garantir uma boa eficiência reprodutiva. A tabela abaixo demonstra o direcionamento nutricional das estratégias de suplementação de acordo com o ECC.

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Direcionamento das estratégias de suplementação em função do escore de condição corporal (Foto: divulgação)

Além do exposto acima, é relevante considerar a possibilidade de melhoria dos resultados técnicos e econômicos da suplementação, mediante a utilização de aditivos ionóforos e/ou promotores de eficiência alimentar, que apresentam a capacidade de aumentar a disponibilidade energética por unidade de tempo, em virtude do aumento da concentração de propionato no fluido ruminal, além de promover melhor absorção de nutrientes.

Fonte: Rogério Marchiori Coan, adaptado pela equipe feed&food.